domingo, 29 de dezembro de 2013

Verdades cruzadas - VII
CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES, Professor aposentado do Curso de Direito da UFRN e Presidente da Comissão da Verdade. Sócio do IHGRN.

Pode-se considerar que o agravamento da crise de populismo no Brasil que levou a ascensão dos militares, em 1964, ocorreu a partir do breve governo do Presidente Janio Quadros, que só durou alguns meses do ano de 1961.
Carlos H.P.Cunha e Walclei de A.Azevedo – Podres Poderes-política e repressão. Natal: Infinita imagem, 2013.

“Depois de passar 19 anos sendo convocado por políticos para debelar crises, o Exército interveio mais uma vez em 1964, desta vez num golpe de Estado que exilou o presidente João Goulart. O governo não foi entregue aos civis: os militares resolveram exercer eles mesmos o poder, acreditando que seriam os únicos a ter a disciplina e a honestidade necessárias para a função.
Foram tragados para um turbilhão de autoritarismo, disputas internas, guerrilha, inflação, tortura nos quartéis e atentados que desmoralizaram a instituição e seus generais-presidentes, apesar da censura importa à imprensa. No governo do último general-presidente, João Figueiredo, a ditadura havia se tornado um labirinto cuja saída foi a devolução do poder aos civis, com a eleição indireta de Tancredo Neves em 1985.” [1]
Começava no Brasil o caminho dos tanques, um período de mordaça dos segmentos sociais e a censura à imprensa sob uma divulgação de combate à subversão e corrupção – temas profundamente contraditórios em razão da história do País, usando-se para isso a força bruta e a grotesca ostentação de armas, torturas, perseguições e mortes, com a conivência e o apoio de parcelas importantes da sociedade – empresários, proprietários rurais, parte da imprensa, a igreja católica e influentes governadores de estados e o silêncio do Supremo Tribunal Federal.
Os golpistas sabiam que teriam problemas a enfrentar e para tanto não usaram o diálogo, mas o convencimento pela repressão, pela truculência, manipulando o processo democrático, cassando mandatos e orquestrando uma farsa eleitoral de dois partidos apenas – ARENA e MDB.
A moldura do governo militar passou a ser“o milagre econômico”, com projetos de mega dimensão como a Transamazônica e a Perimetral Norte, fomentando um ufanismo nacionalista retratado no slogan “Brasil – ame-o ou deixe-o”.
O Ato Institucional nº 5, em 1968, recrudesceu a ditadura e as forças democráticas repeliriam a violência de todas as maneiras que podiam, ostensivas ou alternativas, estas desenvolvidas no Teatro, no Cinema e na Música.
Entretanto, as conquistas vão acontecendo paulatinamente no percurso dos governos Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médice.

A partir do general Ernesto Geisel foi anunciado um programa de “abertura lenta, gradual e segura”, num processo político que passou a ser o ponto fundamental da luta nacional pela transição do regime no caminho da verdadeira Democracia, com a revogação dos atos institucionais e reforma da Lei de Segurança Nacional, das eleições legislativas de 1974, com as manifestações da sociedade em favor da redemocratização do país, do Movimento Feminino pela Anistia em 1975, o Comitê Brasileiro pela Anistia em 1978, que permitiram efetivamente a sua aprovação na Lei 6.683, de 28 de agosto de 1979, no Governo João Figueiredo, e finalmente com a emenda Dante de Oliveira de 25 de março de 1984 abrindo o caminho da restauração do processo político. Registre-se que estes últimos Presidentes já trabalhavam no sentido do cumprimento das promessas de retorno à normalidade democrática

Forças reacionárias ainda tentaram reverter o processo de abertura, mas mesmo com o atentado fracassado no Riocentro, em 1981, não foi suficiente para interromper o movimento das “Diretas Já” que preparou a eleição indireta de Tancredo Neves em 1985.
  “A ditadura terminara – e o novo desafio era consolidar a democracia.”[2]
As eleições se sucedem. Tancredo Neves – a velha raposa mineira que se tornara símbolo da redemocratização ao derrotar o candidato Paulo Maluf, coincidentemente, adoece e é internado na véspera de sua posse, em seu lugar assume interinamente José Sarney, em solenidade no dia 15 de março de 1985, um político comprometido com a ditadura, assustado com o encargo que não cogitava..
Não foi um recomeço fácil. A fatalidade de Tancredo deixa atônito o País, notadamente com o seu falecimento em 21 de abril de 1985 – Dia de Tiradentes.
A economia atinge patamar de inflação nunca antes ocorrido, produzindo drástica corrida ao mercado de capitais, fomentando falências e concordatas.
Contudo, a penosa reconstrução da democracia contava com um grande aliado – Deputado Ulisses Guimarães, ganhando força na Nova República de Sarney, como Presidente do Congresso e da Assembleia Nacional Constituinte, dando ao Brasil a sua nova Carta Política de em 05 de outubro de 1988, denominada de “Constituição Cidadã”, com instrumentos jurídicos e políticos modernos para retomar o caminho da normalidade.
Mas o destino fez desaparecer o “Senhor das Diretas”, num desastre de helicóptero em 12 de outubro de 1992.


               




[1]DN Especial – (8) Anos de Chumbo12/7/2005.
[2] Diário de Natal, 12/7/2005.

A Coluna do General Miguel Costa/Prestes (I)
Luiz Gonzaga Cortez.


Um dos poucos registros confiáveis sobre a passagem da Coluna Miguel Costa/Prestes, em São Miguel, no Oeste do Rio Grande do Norte, em 1926, é de autoria de José Guedes do Rêgo, que foi vice-prefeito de Pau dos Ferros, em 1957. Ele foi testemunha ocular dessa história. Escreveu um depoimento de cinco páginas datilografadas sobre o que viu e ouviu, sem embromações. Vou transcrever o longo depoimento da forma mais fiel possível cortando as repetições dos fatos e dos nomes das pessoas já devidamente identificadas, sem “livrar” a cara de ninguém, seja lá de quem  foi. Por isso, vou dividir em capítulos. “Zé Guedes”, como era conhecido em Pau dos Ferros e em Natal, como assim o seu relato:
“Aos dois dias do mês de fevereiro de 1926, o Chefe Político daquela cidade snr. João Pessoa de Albuquerque, conhecido por João Leite, recebeu do Governador do Estado (1) Dr. José Augusto de Medeiros, um telegrama, comunicando que, de acordo com telegrama recebido do Governador do Estado do Ceará, havia passado em Suçuarana, região do município de Iguatú naquele estado, 70 bandidos desmuniciados rumando a fronteira deste Estado e para garantia seguia naquele dia um contingente de 700 praças da policia, comandado pelo Tenente Joventino, para aquartelar-se em S. Miguel. Diante de tal telegrama, a população agitou-se e logo foram preparando para hospedar tão grande número de praças, coisa nunca vista pela população”.
Começam as divergências de interpretação, uns acreditando, outros combatendo e dizendo tratar-se da Coluna Prestes. Ouvi o comerciante Manoel Vieira de Carvalho, diser ao chefe, “o snr não pense nem de leve que é bandidos, é a coluna Prestes, pois venho acompanhando pelos jornais, a marcha dessa gente”.No dia 3 as 11 horas mais ou menos, chegava um cidadão conhecido por Antonio de Chica, que vinha de uma pescaria no sitio Malhada de Bois, pé da serra de Pereira, Estado do Ceará; vinha referido homem espantado e chegou a casa do chefe  político e disse: seu João Leite, o pé da serra está todo tomado de homens armados, o chefe respondeu: “Tu és tolo, isto os cangaceiros que passaram em Suçuarana; ele respondeu: seu João é os revoltosos, é gente que não cabe aqui dentro da cidade”.  Baseando-se o chefe no telegrama, reuniu seus amigos e concordaram em mandar uns homens armados empiquetar tal pessoal na ladeira denominada do Engenho, município de Pereiro, Estado do Ceará, embora o comerciante Manoel Vieira de Carvalho lutasse muito contra as demais opiniões, enquanto os outros concordavam para tal medida, ele era de opinião se preparar amigavelmente para receber aquele pessoal com recepção. Conseguiram juntar 25 homens armados e às 14 horas mais ou menos o seguinte o contingente, chefiado por Francisco Moreira de Carvalho, ex-genro do coronel João Pessoa, quase todo esse pessoal era gente das principais famílias daquela cidade, inclusive José Pessoa de Carvalho e Francisco Moreira Filho, filhos de Francisco Moreira de Carvalho e Francisco Queiroz, comerciante. Ao chegarem no sítio Engenho, distante 3 léguas de S. Miguel, propriedade de do snr. Manoel Pinheiro Barbosa, juntaram-se  mais  homens, que não recordo a quantidade, seguindo rumo a tal ladeira, numa serra muito difícil de passar, somente uma pessoa atrás do outro e para um lado e outro somente pedras e mato; aconteceu que antes de atingir ao objeto almejado- a ladeira – e no lugar chamado Canta Galo, ao passar uma curva da estrada, depararam com um contingente de homens armados, diante de tamanha surpresa, o elemento que vinha a frente dos inimigos, sacou de duas armas curtas e disparou-as de uma só vez. Travou-se o tiroteio, com poucos minutos, os revoltosos recuaram, isto ameaçando com gritos muito altos que já voltavam para dá o troco. Neste momento o pessoal de S. Miguel foi examinar o campo da luta e lá encontraram vários objetos, como cantis, manta de lã de ovelha, usadas no Sul, aí, então um dos elementos de nome José Felix, conhecido por José Ferreiro, alarmado disse “seu Chico Moreira, nós não estamos brigando com cangaceiros e sim com o exército e vamos embora se não nós não contaremos vitória”. Chico Moreira, um homem que não corria pouca coisa,  respondeu: “deixa de ser mole negro, esta canalha já correu a primeira vez e corre a segunda”. Quando  estavam nessa conversa, ouviram gritos alarmantes, avança, avança e então dizem eles que parecia um grande estrondo a procura deles e a estrada vinha cheia que não se contava três pessoas tamanha era multidão e por todos os lados, por dentro do mato, apesar de um pouco fechado, gritava gente  dizendo avança,  avança, tiveram que correr, como o chão era muito acidentado e pedregoso, bastava encubrir-se poucos metros mato adentro, ninguém via mais e foi assim que escapuliu a maior parte deles, tendo o Francisco Moreira Filho, recebido um balaço em um braço, coisa leve. Junto aos 25 homens foi também José Augusto Pessoa, filho do coronel João Pessoa, cidadão que nunca se envolveu em luta para ter quem corresse primeiro do que ele e foi o que aconteceu. A luta foi a tardinha e antes das 7 horas da noite passava ele de volta na cidade, noticiando o caso do Canta Galo e dizendo que o único que havia escapado tinha sido ele e passou direto”.

Notas – 1) Na época, o Governador do Estado era Presidente de Província.

sábado, 28 de dezembro de 2013

O CASO POLIDRELLI
Diário do Natal de 17.6.1908
(Colaboração de João Felipe da Trindade)

DISCURSO DE DESPEDIDA DO ESCRITOR EDUARDO GOSSON DA PRESIDÊNCIA DA UBE-RN



DR. EDUARDO GOSSON
DISCURSO DE DESPEDIDA DO ESCRITOR EDUARDO GOSSON DA PRESIDÊNCIA DA UBE-RN 

Ilustríssimo Senhor Presidente eleito da UBE-RN – Escritor Roberto Lima Meus senhores, Minhas Senhoras Iniciado pelo poeta Lívio Oliveira o processo de reorganização da UBE-RN no ano de 2006, precisamente em 23 de março quando um grupo de intelectuais (Anna Maria Cascudo Barreto, Carlos Gomes, Eduardo Gosson, Manoel Onofre de Souza Junior, Nelson Patriota, Pedro Vicente da Costa Sobrinho, Racine Santos) reunidos na Academia Norte – Rio – Grandense de Letras- ANL deu o ponta-pé inicial numa terceira tentativa já que as anteriores não foram eficazes (14 de agosto de 1959 e novembro de 1984). Faltando três meses para concluir o seu mandato, Lívio renunciou. Assumi interinamente por esse curto período, até ser confirmado para um mandato à frente da Diretoria Provisória (2008-2009), depois eleito para um mandato (2010-2011) e depois reeleito (2012-2013). “Eu sou eu e as minhas circunstâncias” afirma o escritor espanhol Ortega Y Casset. Nunca um pensamento foi tão preciso em relação a uma situação como a que vivo de uns tempos para cá. Como é sabido de todos os que fazem Cultura no RN, enfrentei no plano pessoal atropelos que desestabilizariam muitos: a perda de três tios no segundo semestre de 2011 ( Jamyles, José e Jorge), da minha mãe e, em 2012, após 12 anos de luta contra a dependência química em dois filhos, a morte de um deles – Fausto - em circunstâncias trágicas: a cocaína quebrou-lhe todos os seus ossos e aumentou 50 quilos a mais depois de morto, o que obrigou-me a encomendar um caixão especial. Atualmente, luto para salvar o outro – Thiago que tem o mesmo problema. Também fui afetado por uma doença incurável até hoje – o Mal de Parkinson. Mesmo assim não desanimei e continuei a batalha de reconstrução do órgão de representação de classe dos escritores e a militância em prol da Cultura. Por esse motivo, nesta despedida não poderia deixar de enumerar o que fiz com ajuda dos meus confrades e confreiras da Diretoria. Paulo Freire (mestre de todos nós), diz: “Ninguém faz nada sozinho”.Eis, em síntese, a minha prestação de contas: 1.1. Ações Administrativas - Encaminhei ao 2º Ofício de Notas de Natal o registro da UBE-RN em 01/12/2008, obtendo a legalização da entidade em 13/04/2009. A UBE-RN está registrada sob o nº 7.093. - Na Receita Federal obtive o Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ 11.034.721/0001-39). - Na Caixa Econômica (agência Ribeira) abri conta corrente: Agência 0033 – OP 003 – C/C 874-0 - Encaminhei a filiação de 90 escritores, contando hoje a UBE/RN com 140 associados. - Encaminhei pedido de Utilidade Pública Municipal (Lei Municipal 5.935/2009) -Encaminhei pedido de Utilidade Pública Estadual l (Lei Estadual 9.321/2010) -Encaminhei através de Resolução a criação do Prêmio Escritor Eulício Farias de Lacerda, sendo o seu primeiro ganhador Paulo Caldas Neto, jovem revelação da Literatura Potiguar - Encaminhei pedido de Utilidade Pública Federal (em tramitação) -Celebrei convênio com a Caixa Econômica Federal para pagamento da anuidade da UBE através de Boleto Bancário 1.2. Ações Organizativas - Organizei o I Encontro Potiguar de Escritores – 1º EPE (Março, 2008); - Organizei o II Encontro Potiguar de Escritores – 2º EPE (Outubro,2009); -Organizei o III Encontro Potiguar de Escritores – 3º EPE (Outubro de 2010); -Organizei o IV Encontro Potiguar de Escritores –4º EPE (Outubro de 2011); -Organizei o V Encontro Potiguar de Escritores – 5º EPE (Outubro de 2012). 1.3. Ações Políticas - Participei da Audiência Pública na Assembléia Legislativa(19.10.2008), debatendo o Livro e a Leitura Literária, que resultou na Lei nº 9. 169/2009 (Promoção da Leitura Literária nas Escolas Públicas); -Aprovei a Carta de Natal (I EPE); -Aprovei a Carta do Encontro Potiguar de Escritores (IV EPE); -Aprovei a Carta do Encontro Potiguar de Escritores (V EPE) -Desenvolvi a Campanha em defesa da biblioteca pública Câmara Cascudo -Idealizei, em parceria com o Tribunal de Justiça, a Campanha de Valorização do Autor Potiguar (2010) 1.4. Ações de Comunicação - Encaminhei a criação de um site para a entidade (www.ubern.org.br) que está em rede desde 02 de dezembro de 2009; -Encaminhei a criação de um blog para a UBE, sob a responsabilidade da escritora Lucia Helena, diretora de divulgação da entidade: blogdaubern.blogspot.com.br na INTERNET desde de novembro de 2011; -Encaminhei o Plano Editorial da UBE/RN (editorei 15 livros ), criando cinco Coleções de Autores Potiguares a saber: Coleção Antonio Pinto de Medeiros (poesia), Coleção Bartolomeu Correia de Melo(prosa), Coleção Enélio Petrovich(memória e história), Coleção Deífilo Guregel (Ensaio) e Coleção Nati Cortez (infanto-juvenil). -Encaminhei a recriação do jornal O Galo (no momento em busca de captação de recursos. Projeto aprovado na lei Djalma Maranhão); - criei o selo editorial Nave da Palavra. - encaminhei a criação da Revista do Escritor Potiguar Meus senhores, Minhas Senhoras, Nem tudo é só realizações. Deixo a Presidência da UBE-RN com algumas frustrações 01. Não ter viabilizado a publicação do jornal O Galo por falta de patrocínio: a elite econômica não é a elite intelectual, infelizmente. Aprovado na lei Djalma Maranhão até hoje não consegui o apoio necessário para viabilizar; 02. não ter editado a obra completa do escritor Eulício Farias de Lacerda conforme prometi; e 03. Uma pendência com a Receita Federal que multou a UBE por não ter declarado o Imposto de Renda (lapso de memória). Tentei resolver este problema, indo à Receita quase 10 vezes (o que daria uma novela) e nada: a primeira vez após passar uma manhã quando fui ser atendido o sistema saiu do ar; a segunda, a burocrata não aceitou o documento que levei do contador por que faltava uma letra da inscrição profissional do CRC; a terceira por ter chegado com 05 minutos de atraso devido ao trânsito; na quarta tentativa tive meu carro multado pela STTU; na quinta... com certeza é o pior órgão do Serviço Público brasileiro. Durante esses 06 anos sob a minha administração, a UBE-RN teve a transparência da lágrima. Tudo feito às claras: entrego ao meu sucessor uma entidade sem dívidas e com dinheiro em caixa. Se não fiz mais foi porque não pude, afinal “interditados estavam o poema, a aurora e o seu fluir” como afirmou o poeta maior de Angicos/RN- Jarbas Martins em seu Contracanto. Resta-me o consolo do poeta e filósofo português Miguel Torga: “quem faz aquilo que pode, faz o que deve”. Missão cumprida!
 Cidade do Natal/RN, 26 de Dezembro de 2013 

Eduardo Gosson
 Ex- presidente da UBE/RN


NOTA: O QUERIDO EDUARDO GOSSON DIRIGIU A UBE-RN  COM A CORAGEM DE UM TOURO, A SENSIBILIDADE DE UM PÁSSARO E O CORAÇÃO DE UM PAI!

Lúcia Helena Pereira.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Balthazar Soares, da Fazenda Curralinho, e a Baronesa de Serra Branca
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, sócio do IHGRN e do INRG
 
Nos estudos genealógicos de Manoel Américo de Carvalho Pita, sobre as famílias de Santana do Matos, Balthazar Soares aparece como genro do fundador de Angicos, tenente Antonio Lopes Viegas, e como sogro de Luiz da Rocha Pita, nada confirmado até agora. Encontro informações sobre um Balthazar Soares que não sei se é o mesmo.

Pelo livro de óbitos de Santana do Matos,  o cadáver de Balthazar Soares, branco,  foi sepultado aos onze de dezembro de mil oitocentos e vinte e cinco, na Matriz de Santa Ana do Mattos, falecido com a idade de oitenta e quatro anos de idade, casado que era com Isabel Maria de Figueredo; e o da sua esposa, por sua vez, foi sepultado aos vinte de janeiro de mil oitocentos e vinte e seis, na mesma matriz,  falecida com setenta e oito anos de idade.

Pelos registros acima, Balthazar deve ter nascido por volta de 1741, e D. Isabel por volta de 1748. Além desses registros, encontramos, também, assentamentos de praça de dois filhos de Balthazar, no Assú. Em tais registros não aparece a mãe dos assentados.

João Baptista Xavier, filho do capitão Balthazar Soares, natural da Freguesia do Assú, idade de 32 anos, cabelos castanhos, olhos pretos, altura 5p e 2pm, praça na 4ª Companhia em 10 de setembro de 1779, e por despacho do ilustríssimo Sr. Governador, de 26 de junho de 1806, e cumpra-se do Vedor Geral, passou para esta companhia, casado, vive de criar de gado.

Antonio da Silva Barbosa, filho de Balthazar Soares, natural, e morador nesta Ribeira do Assú, branco, solteiro, de estatura baixa, dentes grandes, olhos pequenos, e azuis, nariz grande, sem barba, de idade de dezesseis anos, assenta praça em revista de vinte e sete de Julho de 1789.

Encontramos mais uma referência ao capitão Balthazar em  um “Diário Oficial da União” de 1906, de onde extraímos trechos que o capitão Absalão Fernandes da Silva Bacilon, juiz distrital em exercício da Vila de Santana do Mattos, da comarca do Assú, escreveu: Faço saber aos que o presente edital, com o prazo de 90 dias virem, que, por parte de D. Belisária Wanderley de Carvalho e Silva, baronesa de Serra Branca, me foi dirigida a petição do teor seguinte: Cidadão juiz distrital, em exercício, da Vila de Santana do Matos. A baronesa de Serra Branca, D. Belisária Wanderley de Carvalho e Silva, viúva e ora residente na cidade do Assú, sede desta comarca, diz, por seu procurador e advogado, abaixo assinado: que é senhora e possuidora de uma data ou lote de terras na serra de Santana, deste distrito, e na parte a que ora dão os nomes de Pelado e Lagoinha; que a extensão superficial da área desta terra, conforme a respectiva concessão, é de uma légua de largura sobre três de comprimento, pegando de um olho de água que ali se acha em um riacho, denominado Caiçarinha, que deságua para parte do Assú; que a dita terra estende-se na chapada daquela serra, e tem sido cultivada e possuída, delimitando-se, ao norte, pelas sinuosidades desta mesma serra e quebra das águas, como vulgarmente se diz, ficando neste lado a antiga fazenda Curralinho de Balthazar Soares; limita-se, no sul, com terras da fazenda do riacho  da Areia, que foi do capitão-mor Cypriano Lopes Galvão, ao poente, com terras que foram do capitão Felix Gomes Pequeno, e ao nascente com terras da ribeira do Putegy, onde atualmente está o sítio Bodó e outros, que tendo a suplicante por si e seus antecessores uma posse de longíssimo tempo, se não imemorial, pela povoação e cultura constantes das ditas terras, há menos de um ano, os confrontantes Joaquim Bezerra, viúvo e morador em S. Bento, Antonio Florêncio, morador em Cipós de Leite, João Lopes de Araújo Galvão, morador em Areia ou Furna da Onça e as mulheres destes, cujos nomes a suplicante ignora, bem como Miguel Rodrigues e sua mulher D. Francisca, Antonio Hermógenes e sua mulher D. Constância, e o cidadão Cícero Rodrigues, moradores no lugar Catunda e todos no vizinho distrito de Currais Novos, têm feitos roçados e picadas nos matos dos terrenos sempre possuídos e cultivados pela suplicante e seus antecessores, sob o pretexto de uma linha novamente tirada entre este município e aquele de Currais Novos ter apanhado pequena parte dos mesmos terrenos.
Continuando, mais adiante, a baronesa justifica: A referida terra foi pedida em 1764 por D. Adriana de Hollanda Vasconcellos, e não tendo voltado de Portugal esse pedido com a confirmação, o tenente-coronel Francisco de Souza e Oliveira, em 1804, requereu e lhe foi concedida a mencionada terra por data da sesmaria, com três léguas de cumprimento e uma de largura, tendo o ponto de partida e limites acima descritos; em 1822 o capitão Felix Gomes Pequeno que já havia comprado a mesma terra ao dito donatário, requereu a certidão daquela data pra realizar a sua propriedade.

Adquirindo esta mesma terra o capitão Felix Gomes Pequeno, pela forma por que ficou dito, em 1810 a vendeu ao capitão Antonio da Silva de Carvalho, e esta venda foi ratificada pelos herdeiros do mesmo capitão Felix Gomes, por escritura pública passada em 22 de julho de 1858, com tudo se vê do documento.

Por morte dos sogros da suplicante, o mesmo capitão Antonio da Silva de Carvalho e sua mulher, D. Maria da Silva Veloso, passou essa terra aos seus herdeiros, um dos quais era o falecido marido da suplicante, Felipe Nery de Carvalho e Silva, barão de Serra Branca, e este comprando as partes dos demais, ficou possuindo toda aquela terra.

Falecendo o barão de Serra Branca, sem herdeiros necessários, a suplicante sucedeu-lhe no todo da herança dos bens por ele deixado, não só por sua meação como por ter sido instituída, em testamento, sua herdeira universal, e por isso hoje lhe pertence exclusivamente a terra de que se trata e cuja demarcação ora se requer.

Em “Velhos Inventários do Seridó”, Olavo de Medeiros Filho, tratando do inventário de D. Adriana de Holanda e Vasconcelos, que foi casada com Cipriano Lopes Galvão, Felix Gomes Pequeno e Antonio da Silva e Souza, cita, também, como confrontante da Data de Terra, na Serra de Santa Ana, o capitão Balthazar Soares da Silva, do sítio denominado Curralinho.

Quem sabe mais alguma coisa sobre Balthazar Soares?

terça-feira, 24 de dezembro de 2013


SALVE O MENINO DEUS!

FELIZ NATAL

O AMOR DO CRISTO JESUS PERMITA A CONFRATERNIZAÇÃO ENTRE TODOS OS POVOS.

A DIRETORIA DO
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO
RIO GRANDE DO NORTE

A Coluna Preste no Rio Grande do Norte - III

Tomislav R. FemenickMembro da diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do RN


            No início de 1926, quando da passagem de integrantes da Coluna Prestes no Rio Grande do Norte, a cidade e o porto de Areia Branca tinham importância vital para a economia do Estado. Muito mais do que é hoje. Eram ligados a Mossoró pela Estrada de Ferro Mossoró-Porto Franco, cujos trilhos serviam de rota para as exportações e importações do oeste potiguar, da região jaguaribana cearense e, ainda, do alto sertão paraibano.

Segundo Paulo Pereira dos Santos em seu livro “Evolução econômica do Rio Grande do Norte: século XVI ao XXI”, por um longo período que vai das décadas de 70/80 do século XIX até as três primeiras do século XX, toda a atividade empresarial da região oeste do Estado, em especial dos estabelecimentos industriais e comerciais localizados em Mossoró, se refletia na intensa movimentação do porto de Areia Branca. De 1893 a 1895, cento e cinquenta e seis embarcações atracaram naquele porto, enchendo seus porões com mercadorias exportadas por firmas mossoroenses. Em 1911, cento e treze navios nacionais e outros 153 estrangeiros levaram produtos negociados por empresários de Mossoró, sendo 33 noruegueses, 30 ingleses, 50 alemães, 17 dinamarqueses, 10 suecos, seis holandeses, quatro portugueses, um americano, um francês e um russo. O porto de Areia Branca movimentava anualmente entre 200 e 250 mil toneladas de cargas, enquanto o porto de Natal movimentava cerca de 40 mil e os de Fortaleza e Cabedelo, 90 mil cada um deles. Era o sétimo maior porto do Brasil, em movimentação de tonelagem de cargas e contribuía com 58% das receitas portuárias do Estado, enquanto que Natal contribuía com 40%, e Macau apenas com 2%. Além de porto cargueiro, Areia Branca era também ponto de escala de navios de passageiros (os chamados paquetes) e navios mistos – carga e passageiros – da Companhia Nacional de Navegação Costeira, da Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro e de outras empresas marítimas.

Naquele começo de ano, a notícia que circulava na cidade era de que um batalhão de Exército estava vindo de Fortaleza pelo navio Paconé (embarcação de origem alemã, confiscada pelo governo brasileiro durante a Primeira Grande Guerra e então agregado à frota do Lloyd) e de lá deveria seguir para Mossoró e para o alto oeste, com a missão de defender as localidades ameaçadas de ataques pelos integrantes de um pelotão avançado da Coluna Prestes, o mesmo que já havia atacado cidades do interior do Ceará.

Envolta nesse clima, a cidade recebia uma multidão que era despejada das embarcações que faziam a ligação entre Porto Franco e Areia Branca.  Eram as pessoas vindas de Mossoró – principalmente, mulheres, crianças e velhos –, fugidas de um possível ataque da Coluna Prestes. Como as hospedarias já estavam cheias pelos passageiros que esperavam a chagada do Paconé e que iriam embarcar para Recife, Maceió, Salvador, Rio de Janeiro e Santos, os mossoroenses foram abrigados em casas de parentes, amigos e até de desconhecidos.

            Em uma localidade relativamente calma, essa situação inusitada de agitação gerou uma serie de hipóteses e especulações, envolvendo a cidade e o porto. Umas eram simples boatos. O mais difundido dizia que entre os defensores das cidades atacadas haveria um herói areia-branquense, José de Samuel, isso quando nem ataques ainda tinha havido no Rio Grande do Norte e o impávido Zé de Samuel estava placidamente trabalhando em uma máquina de beneficiar arroz, em uma fazenda localizada em Apodi. Outro propagava que o popular “Geleia, muito conhecido nos círculos de jogatina”, servia de indicador de caminho para os revoltosos.

Todavia as autoridades estudavam seriamente um sistema de defesa para o porto, tendo em vista a possibilidade de que os militares rebelados, com a habilidade de estrategistas que possuíam, optassem por um caminho alternativo e, evitando atacar Mossoró, atacassem Areia Branca, o seu porto de abastecimento. Seria uma maneira de garantir o reaprovisionamento das tropas e, ao mesmo tempo, um grande tento que, certamente, teria repercussão nacional como uma derrota das forças legalistas. Afora a invasão da multidão de mossoroenses que foram se abrigar na cidade, nada mais aconteceu em Areia Branca. No Rio Grande do Norte as lutas da Coluna Preste se limitaram a São Miguel e Luiz Gomes.

 

sábado, 21 de dezembro de 2013


O que nos falta é ciência e tenência

Tomislav R. Femenick – Mestre em economia e contador

 

Desde a década de 1990 que o Brasil está situado entre as dez ou quinze maiores economia do planeta, mas não conseguimos entrar no seleto clube das potencias do primeiro mundo. Estamos quase chegando lá, sem nunca chegar. Sempre ficamos da fila do gargarejo. A pergunta inevitável é: O que acontece e qual é causa? Talvez a resposta esteja nas notícias divulgadas recentemente, que colocam o Brasil entre as nações com menor qualidade de ensino e menor índice de produção científica e registro de patentes de novas descobertas. Então o que nos falta? Obstinação para buscar e ciência para alicerçar o nosso desenvolvimento. Sem ciência não há como chegarmos ao céu do primeiro mundo. Somente para confirma essa afirmação, convido os leitores para um passeio pela história do nascimento da ciência.

Os primeiros estudos científicos foram desenvolvidos pelos filósofos que se dedicavam à filosofia da natureza. A história aponta os gregos e chineses como os precursores desses estudos. Podemos dizer que o ponto de partida foi dado quando Leucipo de Mileto (460-380 a.C.) e Demócrito de Abdera (cerca de 460-370 a.C.) desenvolveram a teoria de que todas as matérias são compostas por átomos, cujas propriedades seriam: forma, tamanho, impenetrabilidade e movimento. Até então a opinião predominante era que as matérias eram compostas de terra, água, fogo e ar. Quatro pensadores gregos deram a base para a separação entre o “raciocínio simplesmente lógico” e o “raciocínio lógico ordenado”. Tale de Mileto (624-548 a.C.) exclui os deuses da origem da natureza, Pitágoras (580-507 a.C.) concebeu a relação matemática como base das coisas, Parmênides (515-540 a.C.) criou a lógica formal (alicerçada no princípio da não contradição, segundo o qual o “ser” é e o “não-ser” não é) e Demócrito (460-370 a.C.) formulou a teoria sobre a constituição da matéria. Eles geraram o embrião da ciência atual.

Os chineses da antiguidade adotavam a ideia de cinco elementos básicos: terra, água, fogo (em comum com os gregos), metal e madeira. Essa teoria foi sistematizada pelo filósofo, historiador, político, naturalista, geógrafo e astrólogo Zou Yan, ou Tsou Yen (305-240 a.C.), tido como o fundador de todo o pensamento científico chinês. Das especulações teoréticas, os gregos e chineses migraram para o uso prático.

Na Grécia as descobertas foram o relógio de água, as máquinas movidas com força motriz hidráulica ou de ar comprimido. No campo das ciências naturais, as pesquisas se expandiram pela astronomia, geografia, zoologia, botânica e medicina etc.

Na China antiga os estudos teóricos eram voltados para conceituações morais (confucionismo, taoismo etc.), porém a ação era principalmente voltada para a exploração do mundo natural. As pesquisas no campo da física e da química resultaram na invenção da pólvora, do balão de ar quente e da bússola magnética. Os estudos sobre mecânica levam à construção da besta e do sismógrafo. Na medicina testaram o tratamento da malária. Também, estudaram e fizeram aplicação prática com elementos de engenharia hidráulica, botânica e astronomia.

Outros povos da antiguidade também enveredaram nos estudos das ciências. Na Mesopotâmia e no Egito houve importantes estudos no campo da engenharia de construção, medicina, matemática e astronomia.

Por que não aprendemos com a história? Se quisermos entrar no maravilhoso mundo dos países desenvolvidos há que se melhorar o ensino em todos os níveis, fazer pesquisas e criar condições concretas para uma ciência verde-amarela, sem xenofobismo.

 

O Mossoroense. Mossoró, 20 dez. 2013.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

 
O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO
NORTE – IHGRN TEM A ALEGRIA DE SAUDAR OS SEUS
ASSOCIADOS E ADMIRADORES, DESEJANDO A TODOS UM NATAL
CHEIO DE LUZ E PAZ,  E QUE O ANO DE 2014 SEJA REPLETO DE
REALIZAÇÕES.

 
A   D I R E T O R I A


A Coluna Preste no Rio Grande do Norte - II

Tomislav R. FemenickMembro da diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Os anos de 1920 formaram a década em que alguns oficiais de baixa patente promoveram uma seria de revoltas contra o governo federal e as oligarquias que governavam os Estados. As mais conhecidas deles foi a Revolta do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, e a Coluna Prestes, formada por militares rebeldes principalmente de São Paulo e do Rio Grande do Sul e liderada por Luís Carlos Prestes, Juarez Távora e Miguel Costa. A Coluna percorreu cerca de vinte e cinco mil quilômetros pelo interior do país, fazendo uma “guerra de movimentos” e enfrentando as forças do governo.

Em suas andanças a Coluna Prestes passou pelo Rio Grande do Norte e atacou duas cidades do Alto Oeste potiguar: São Miguel e Luiz Gomes. Todavia, as notícias que antecederam os ataques inquietaram a população de vários outros municípios do Estado. Os escritores Raimundo Nonato (1966) e Itamar de Souza (1989) retrataram esse cenário de medo e as lutas propriamente ditas.

Mossoró, pela sua importância econômica e estratégica, foi um palco de agitação quando os revoltosos que estavam nas imediações da cidade de Jaguaribe, no Ceará, se preparavam para adentrar em nosso Estado. Diz Raimundo Nonato: Mossoró era “um porto aberto ao intercambio de vasta área do comercio nordestino, no negócio de algodão, sal, sementes de oiticica, cera de carnaúba, gesso [e com] agência do Banco do Brasil, não sendo despropositada a precisão de assalto, depois de longas travessias e combates, a um porto que oferecia vantagens múltiplas, inclusive o reaprovisionamento de tropa”.

Essa ameaça de ataque iminente espalhou o medo na população que procurou fugir da cidade. Um grande contingente de pessoas foi se refugiar em Areia Branca. A companhia Estrada de Ferro Mossoró-Porto Franco colocou diversos trens extras, porém não conseguiu atender a demanda e mais de 150 pessoas não tiveram como embarcar. Quem não conseguiu lugar nos trens, fugiu para qualquer lugar da vizinhança.

Na cidade se preparava a resistência. O deputado Juvenal Lamartine, o chefe da polícia (Dr. Silvino Bezerra), o comandante da polícia militar (Cel. Joaquim Anselmo), o intendente municipal (Cel. Rodolfo Fernandes, que um ano depois comandou a defesa da cidade contra o ataque de Lampião), o presidente da Associação Comercial (Cel. Cunha da Mota), o vice-presidente da intendência (Dr. Hemetério Fernandes) e muitos outros organizaram o esquema de defesa. Algumas das decisões tomadas foram: a distribuição de armas e munições fornecidas pelo Exercito Nacional, a formação de trincheiras em torno da cidade e na zona urbana e a vigilância da fronteira com o Ceará.

O Padre Mota, o novo vigário da Igreja de Santa Luzia, atuava em várias frentes. Ao mesmo tempo em que cedia o prédio do Ginásio Santa Luzia (onde hoje é a agencia central do Banco do Brasil) para servir de sede do “quartel general” da defesa da cidade, promovia reuniões entre os representantes do governo com as lideranças civis e procurava acalmar as famílias e evitar as fugas precipitadas, com seus sermões nas missas e, inclusive, com a publicação de um Boletim.   

Os revoltosos não chegaram a Mossoró, como não chegaram a Areia Branca e Natal, aonde as notícias e boatos de ataques da Coluna Prestes também chegaram, com maior ou menos alarme que causaram na “capital do oeste”.

Nos próximos artigos abordaremos o clima nessas cidades e os ataques que integrantes da Coluna Prestes realizaram em São Miguel e Luiz Gomes.

O Jornal de Hoje. Natal, 17 dez. 2013.
EVENTOS DO FINAL DE 2013

1. Confraternização das entidades IHGRN, INRG e UBE/RN
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 
 
 
2. Última reunião do IHGRN do ano de 2013
 


 
 

 

A Coluna Preste no Rio Grande do Norte - I

Tomislav R. FemenickMembro da diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

A Coluna Prestes era formada por militares rebeldes, principalmente pelos de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Seus principais líderes foram Luís Carlos Prestes, Juarez Távora e Miguel Costa. Em 1924 alguns deles já tinham tentado fazer uma revolução, tomando o Forte de Copacabana, mas fracassaram. Formados em pelotões. A Coluna percorreu cerca de vinte e cinco mil quilômetros pelo interior do país, fazendo uma “guerra de movimentos” e enfrentando as forças do governo. No final de 1926, com a metade dos homens dizimados pela cólera e sem condições de continuar a luta, se refugiou na Bolívia.

Porém no início daquele ano, no dia 3 de fevereiro, tropas rebeldes da Coluna Prestes realizaram o seu primeiro ataque no Rio Grande do Norte, contra a cidade de São Miguel. A luta foi travada por 70 revoltosos, militares treinados, contra quatro soldados da policia do Estado e 28 atiradores (pistoleiros?), “num tiroteio que durou das quatro horas da tarde até ao crepúsculo, com um rebelde morto e dois legalistas feridos. Um destes [...] caiu nas mãos dos rebeldes e foi degolado”. A população mais abastada de São Miguel fez uma verdadeira debandada da cidade, quando se noticiou que outros mil rebeldes estavam se dirigindo para lá. No dia seguinte a cidade foi saqueada pelos integrantes da Coluna Prestes, que invadiam residências e lojas “arrebentando móveis e destruindo objetos que não podiam usar ou transportar. [...] Partiram no mesmo dia em que chegaram, depois de queimar o [Cartório] Registro de Título e Documento” (SILVA, 1966; MACAULAY, 1977). De São Miguel foram para Luiz Gomes, onde repetiram o saque, invadiram e destruíram lojas e residências, levando tudo o que podiam, e novamente incendiaram o Cartório local.

Antes desses ataques, várias cidades do Estado se viram ameaçadas de invasão pelos tenentes rebeldes. No dia 31 de janeiro, quando o jovem Padre Luiz Ferreira da Mota (o célebre Padre Mota que depois viria a ser vigário geral, prefeito e deputado estadual) tomava posse como o novo vigário de Mossoró, correu a notícia de que os revoltosos da Coluna Prestes estavam na iminência de atacar a cidade. Em ata paroquial, o Padre Mota registrou o impacto que a noticia de um provável ataque da Coluna Preste a Mossoró teve entre a população da cidade. Dizia ele:

“Neste mesmo dia, espalhou-se pela cidade o terror da noticia de que os revoltosos se encaminhavam pa­ra nossas fronteiras, noticia que foi divulgada pe­la manhã, e logo começou o êxodo da população. Quando me dirigia para a Matriz, às 8 e meia, para a posse, fui, com surpresa, avisado do que se passava e sobretudo de que certas pessoas de autorida­de e responsabilidade já haviam abandonado, preci­pitadamente, a cidade. Diante desta situação, resolvi fazer um apelo de tranquilidade ao público, para melhor se resolver a situação e convocar uma sessão de todas as autoridades e pessoas de responsabili­dade, o que fiz de púlpito, com palavras repassadas de fé no patrocínio de nossa Virgem Padroeira, Santa Luzia, e também de confiança no patriotismo do nos­so povo. A sessão realizou-se no mesmo dia, a 1 ho­ra da tarde, no edifício do Colégio Diocesano, com grande comparecimento de povo e nela tomaram-se me­didas que são do domínio público. Dai por diante, nos dias de aflição e apreensão pa­ra o nosso povo, sempre tomei a dianteira de todas as manifestações civico-patrióticas pela defesa da nossa cidade, procurando, sobretudo despertar o ânimo do povo, aconselhando a calma, prudência e per­manência na cidade, para guarda dos acontecimentos. Aprouve a Deus que tudo se passasse sem desgraças e atropelos para nosso povo; os rebeldes tomaram outro rumo e nossa população voltou à paz do costu­me, que a caracteriza. Todos [nós] reconhecemos, nesta salvação de tamanho fla­gelo, [que foi] o dedo de Deus que nos protegeu, por intercessão da nossa querida Padroeira Santa Luzia. Em reconhecimento de tão grande graça, cantou-se um ‘Te Deum’ solene, em ação de graças, no domingo, 21, pelas 5 horas da tarde” – Texto transcrito do livro do tombo da igreja de Santa Luzia, em Mossoró-RN.

Gazeta do Oeste. Mossoró, 06 dez. 2013.

O Jornal de Hoje. Natal, 10 dez. 2013.
A V I S O
 
INFORMAMOS AOS NOSSOS ASSOCIADOS E AOS PESQUISADORES E INTERESSADOS NAS ATIVIDADES DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE - IHGRN, QUE ESTAREMOS EM RECESSO A PARTIR DE HOJE, DIA 20 DE DEZEMBRO DE 2013 ATÉ O DIA 07 DE JANEIRO DE 2014.
 
CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES
SECRETÁRIO-GERAL

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Dia 20.12.2013, sexta-feira próxima, às 9: hs, teremos a última REUNIÃO ORDINÁRIA do corrente ano, portando estamos convidando todos os membros da DIRETORIA, CONSELHO FISCAL, COMISSÃO DE ADMISSÃO e DISCIPLINA para que se façam presente.

Atenciosamente,

Valério Mesquita

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Natal e o Forte dos Reis Magos

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
 
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Encontramos, em um dos jornais antigos da Hemeroteca Nacional, que: esta Província foi descoberta em 1499, antes de Pedro Álvares Cabral fundear em Porto Seguro, segundo afirma Mello Moraes na sua Corografia Brasileira, fundado em Herrera, - História das Índias – dizem que Alonso de Hogeda e Américo Vespúcio em 1499 encontraram em 5 graus ao sul equinocial uma terra alagada e segundo todas as probabilidades uma das bocas do rio dá Piranhas ou Apodi (hoje Mossoró) e que não seguiram mais ao sul pelas correntes das águas.

Em 1501, os portugueses chantaram o marcos de Touros, aqui no nosso Rio Grande do Norte, e, depois disso, não há notícias da presença deles, nas nossas terras, por décadas, diferentemente dos franceses que aqui aportaram desde 1503, se consorciando com nossos índios, militarmente, comercialmente e maritalmente. Pudsey, que esteve aqui com os holandeses, diz que os Cariris são originários da miscigenação dos franceses com os tapuias.

Com a instituição das capitanias hereditárias, João de Barros e seus herdeiros tentaram por duas vezes se apossar do seu legado, mas fracassaram. Outros viajantes e piratas devem ter, ao longo desse tempo, nos visitado, mas somente em 1597 resolveu o Rei de Portugal, Felipe II da Espanha, tomar conta da sua colônia, dando ordens a Mascarenhas Homem e Feliciano Coelho, para construir um forte, expulsar os franceses e povoar nossa terra.

O Forte dos Reis Magos é o símbolo maior do nosso Rio Grande do Norte e da cidade do Natal. Diferentemente do que ocorreu em outras localidades, sua construção precedeu a fundação da cidade do Natal.

No dia 25 de dezembro de 1597 Mascarenhas Homem entrava no Rio Potengi, e no dia 6 de janeiro de 1598 dava início à construção do forte. Em 24 de junho do dito ano de 1598, concluída a primeira versão, ele foi entregue a Jerônimo de Albuquerque (mais tarde Maranhão), que tinha a missão de defender nossa terra e trabalhar a paz junto aos índios para a fundação da cidade. Foi um processo demorado. Somente em 11 de junho de 1599 foi feita a aliança com os indígenas, na capital da Paraíba.

A partir daí se iniciou a fundação da cidade com a demarcação de seus limites e a construção da matriz, a meia légua do Forte. Acredito que programaram tudo para que o ato de fundação se desse no aniversário de dois anos da entrada no Rio Potengi. As datas estavam sempre associadas aos eventos religiosos: Natal, Reis Magos, São João e novamente Natal. Em alguns registros aparecem nomes como cidade dos Reis, Santiago, cidade do Rio Grande, Natal, ou Natal dos Reis.

A partir de 1600, com a posse de João Rodrigues Colaço, como capitão-mor, começaram as concessões de sesmarias, sendo o primeiro beneficiado, o próprio capitão-mor, por ato de Manoel Mascarenhas Homem. Essa sesmaria foi comprada, posteriormente, pelo padre vigário da capitania, Gaspar Gonçalves Rocha.

A 2ª já foi concedida por Colaço para os padres jesuítas. Na relação de terras concedida até a data de 1612, quando houve uma revisão, citamos alguns: Jacque de Py; Manoel Rodrigues; João Lostau, com grande descendência, no Brasil; Antonio Gonçalves Minhoto; Francisco Coelho, talvez aquele vitimado pelos holandeses; Bartholomeu Ledo; os irmãos Antonio de Albuquerque e Mathias de Albuquerque, filhos de Jerônimo de Albuquerque, Dona Úrsula, filha de Antonio Cavalcanti; Catharina da Costa, filha de Jorge Gonçalves; Jerônimo Cunha, pai do depois capitão-mor, Manoel de Abreu Soares; Francisco da Cunha, filho de Jerônimo Cunha; Manoel de Abreu; Jerônimo de Ataíde; José do Porto; Maria Rodrigues; Maria de Albuquerque; Manoel Rodrigues Faleiros, talvez ascendente de Pedro e Gonçalo da Costa Faleiros; Manoel Vaz de Oliveira; Inez Duarte, possivelmente a esposa de Antonio Vilela Cid; Antonio Machado; Beatriz do Pania, filha do alferes Luis Gomes; e Antonio Vilela. Foram 185 concessões, muitas delas distantes da nova cidade, tendo alguns dos beneficiados recebidos mais de uma sesmaria.

O núcleo da cidade não prosperou muito em termos de habitação. Nossos povoadores tinham preferências pelas localidades mais distantes da matriz, talvez pela qualidade da terra.

Os holandeses quando aqui tiveram, não trouxeram nenhum benefício, muito pelo contrário, pois além de promover massacres contra nossos habitantes, destruíram a cidade na conquista, assim a mantiveram, enquanto estiveram por aqui, e pioraram na hora da saída.

Com vimos em artigo anterior, alguns cronistas dizem, até agora não comprovado, que, em 1654, D. João IV doou, para Manoel Jordão, parte do território do Rio Grande, que alguns dizem ter sido Natal, por isso chamado de Natalópolis, e que ele não tomou posse por ter naufragado na entrada do Rio Potengi, e, por isso, o feudo retornou a Coroa; a segunda informação dava conta que D. Pedro II, de Portugal, concedeu o título de Conde do Rio Grande para filho ou filha de Francisco Barreto de Menezes, por sua participação na luta contra os holandeses. Lopo Furtado foi beneficiado por casar com a filha de Francisco Barreto. Segundo alguns, foi o primeiro titular que teve o Brasil.

Nosso Forte passou por várias reformas até ter chegado ao formato atual. O IPHAN, que tomou posse recentemente do Forte, realiza novas reformas, mas, antes disso, um grupo de arqueólogos promove, atualmente, escavações mostrando os vários pisos e intervenções no Forte. Devemos ter novidades sobre a história desse símbolo da nossa terra.


Na Hemeroteca Nacional, encontramos uma descrição da nossa cidade, no ano de 1883: Natal, ou Rio Grande do Norte, pequena, mas bonita por sua posição na península formada pelo Rio Potengi e o oceano, com três praças e dois grandes largos, cinco ruas extensas e retas atravessadas por outras cinco; sendo notáveis os seguintes edifícios: Igrejas de Nossa Senhora da Apresentação (matriz), Nossa Senhora do Rosário, Santo Antônio e Bom Jesus; palácio do governo, assembleia provincial, câmara municipal, tesouro da fazenda, tesouro provincial, alfândega, atheneu, quartel de linha, quartel de polícia, hospital militar, casa de caridade e cadeia.




segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Eternamente Paris

Elísio Augusto de Medeiros e Silva

Empresário, escritor e membro da AEILIJ
elisio@mercomix.com.br


Quando o escritor russo Fiódor Dostoiévski foi pela primeira vez a Paris, no ano de 1862, os seus compatriotas, ansiosos, pediam insistentemente que lhes escrevesse contando suas impressões da cidade. Esse pedido deixou o escritor enrascado – o que iria contar-lhes? O que diria de novo, de desconhecido, visto que, a seu ver, tudo já havia sido contado por visitantes anteriores.
Quase cem anos o separavam de uma resposta simples, dada pelo jovem escritor Ernest Hemingway, no livro “Paris é uma festa”, escrito no período de 1957/60, que descreve sua estadia na cidade de 1921 a 1926.
Em 2012, cerca de 520 mil brasileiros estiveram em Paris, percorrendo as suas ruas, apreciando os seus restaurantes, hospedando-se em seus hotéis e, claro, visitando seus famosos pontos turísticos.
Com um enorme fluxo de turistas do mundo todo, a Cidade Luz sempre tem algo para ser revelado, pois se renova constantemente e lança tendências que se harmonizam com seus cartões-postais, aliadas ao forte apego às suas tradições.
Nas ruas de Paris, as floriculturas colocam seus vasos coloridos nas calçadas – as librairies exibem novos livros – as pâtisseries, as caves du vin e as chocolateries dão água na boca. Quem vai à cidade confirma o que estou dizendo.
Na parte externa do Museu do Louvre está a grande Pirâmide de vidro. No interior, novas galerias de arte islâmica cobertas por um véu dourado – o projeto custou US$ 125 milhões, parte vinda de patrocinadores endinheirados do Oriente Médio.
No interior do grande museu, os visitantes contemplam a Mona Lisa, Vênus de Milo, e telas de pintores famosos (Ticiano, David, Rembrandt).
O prédio do museu, erguido a partir do século 13, encanta os turistas – as pinturas no teto, as escadarias, os detalhes construtivos e as transformações sofridas com o passar dos anos. A própria visão do Palácio, em formato de “U”, parece abraçar o pátio, o que deixa os visitantes extasiados.
Perto dali está o antigo mercado Les Halles, com seu centro de lojas por entre os tapumes das obras do RER (trem metropolitano), cuja finalização está prevista para 2016.
Muitos que ali circulam vão almoçar na Rue Montorgueil, uma ótima opção para fugir dos caros restaurantes.
Em Paris, não é preciso gastar muito – já dizia a escritora Inès de la Fressange, no best-seller A Parisiense: “O luxo da parisiense da margem esquerda do Sena é uma marca que garanta o bom gosto sem ostentar o preço”.
No Jardim das Tulherias, com certeza, você vai encontrar diversos velhinhos jogando pétanque. De cima da Ponte Alexandre III dá para ver a bela paisagem de arquitetura do Grand e Petit Palais.
Na Av. Champs-Élysées todos olham para as fachadas glamorosas e suas ruas transversais até o lendário Hotel Plaza Athénée, que celebrou o seu centenário em 2013. Do alto dos 50 metros do Arco do Triunfo temos uma visão privilegiada da majestosa Torre Eiffel.
Depois vá até a formosa Place des Vosges, Marais, o legado da aristocracia dos séculos XVI e XVII. Atualmente, sede da comunidade judaica, com uma impressionante seleção de boutiques e lojas.
No Boulevard Beaumarchais você encontra livrarias, objetos de decoração, móveis, roupas, calçados. No canal Saint-Martin há incontáveis cafés, restaurantes, bares, hotéis, e lojas diversas pelas suas margens. Aberto em 2006, o Le Chateaubriand figura com destaque na lista da revista britânica Restaurant, que classifica os melhores restaurantes do mundo.
Não podemos deixar de ir a Montmartre, com telas de Toulouse-Lautrec, sex shops, boemia e cabarés – imperdível o show noturno do mais famoso deles: o Moulin Rouge. Suba as ladeiras de Montmartre e explore devagarzinho as fromageries e charcuteries da Rue Lepic e da Rue des Martyrs.
Do alto da escadaria da Basílica de Sacré-Coeur a vista é inesquecível – a capital francesa, literalmente, aos seus pés.
Woody Allen mostra diversas cenas maravilhosas do lugar no filme “Meia-Noite em Paris”.
Para finalizar, não se esqueça de dar uma passadinha no Palácio de Versalhes, sinônimo de luxo e realeza dos séculos 17 e 18. Como sempre, deverá ter uma fila enorme de turistas para entrar em suas dependências. Mas, do lado de fora, os jardins do palácio são de cortar o fôlego. Os canteiros geométricos e floridos, os espetáculos das águas das fontes – obras de André Le Nôtre, o jardineiro do rei Luís XIV, o mesmo que elaborou o Jardim das Tulherias.
E como disse Humphrey Bogart: “Nós sempre teremos Paris”.