sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014



RETALHOS DE HISTÓRIA DA VELHA RIBEIRA
Briga em um cabaré da Ribeira

Elísio Augusto de Medeiros e Silva

Empresário, escritor e membro da AEILIJ
elisio@mercomix.com.br


Não sabemos ao certo como começou aquela confusão. Num minuto, estava formado o maior quebra-pau dentro do cabaré.
Os dois antagonistas engalfinhavam-se, trocando socos e rolando pelo chão. De repente um dos rapazes levou um pontapé na barriga – levantou-se e saiu distribuindo socos a torto e a direito... pegasse em quem fosse. Aí a coisa complicou.
As prostitutas gritavam apavoradas, corriam e se refugiavam debaixo das mesas do salão. Os três garçons largaram as bandejas e se esconderam atrás do balcão do bar.
A luz vermelha do salão foi apagada e luzes normais acesas. No entanto, a essa altura, a confusão já estava formada. Um homem puxou um punhal, mas foi desarmado pelos seguranças da casa. Garrafas, copos e cadeiras eram arremessados de todos os lados.
O chão logo se encheu de perigosos estilhaços de vidro. Os dois rapazes que deram origem a confusão engalfinhavam-se, rolavam e trocavam socos no chão.
Correrias, gritos pavorosos e urros chegam até a Rua 15 de Novembro. Os guardas-noturnos das ruas próximas apitavam sem parar.
As mulheres gritavam apavoradas. Logo a rua estava cheia de curiosos que queriam ver o que acontecia lá dentro do cabaré.
As inquilinas da casa corriam desesperadas de um lado para outro. Algumas seminuas não sabiam o que fazer diante de tamanha confusão.
Os dois “leões de chácara” do cabaré não tinham o que fazer – era gente demais envolvida na briga. Ninguém sabia ao certo como tinha começado aquele bafafá. A briga já durava mais de dez minutos. O prejuízo era enorme.
Quando finalmente a polícia chegou, o salão estava todo quebrado – mesas, cadeiras em pandarecos – até a radiola de fichas não fora poupada. Havia gente de cabeça quebrada, dente fraturado, equimoses pelo corpo...
O grupo de rapazes a quem atribuíram a origem da confusão tinha se “escafedido” do local.
Naquela noite o cabaré fechou bem cedo. Um dos seguranças da casa, um negro de quase dois metros, tinha um olho roxo e um corte no lábio inferior.
- Iam lhe arrancando um olho, disse um dos garçons ao vê-lo. Será que não ofendeu a vista?
Na porta dos fundos, um cidadão gritava, dizendo que tinha perdido cinco mil réis durante a confusão. Quem vai me pagar? Quem vai me pagar? Perguntava preocupado.
Alguns dos envolvidos na briga foram detidos e levados até a delegacia de plantão, que, por sinal, não era muito distante do local. Funcionava ali mesmo, no bairro da Ribeira.
Na delegacia um dos detidos, metido à valente, contava “goga”, a respeito de sua atuação na briga. Ao ser interrogado pelo delegado de plantão, respondeu às perguntas que lhe foram feitas com ar de deboche. Pelo visto, queria dar uma de arrochado. O delegado não contou conversa e mandou meter o insolente no xilindró.
- Você que é disposto chegou na hora certa. Disse, enquanto o soldado conduzia-lhe até uma das celas.
Depois de colocado atrás das grades, o soldado informou-lhe: “Você vai fazer a faxina”. E lá foi o “brabo” de vassoura e balde fazer a faxina completa do local. Os outros presos e soldados olhavam a cena – alguns até riam disfarçadamente.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Ascendentes do capitão J. da Penha



João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)


Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Muito se tem falado sobre o capitão J. da Penha, mas poucos conhecem seus ascendentes, sua família, sua origem. Vez por outra um equívoco nos nomes dos seus pais e dos seus familiares. Cuidemos, pois, de melhorar essas informações, muito embora as fontes, incluindo as primárias, podem conter erros.

Seus pais, José Francisco Alves de Sousa e Maria Ignácia Teixeira do Carmo casaram-se aos seis de junho de 1864, em Angicos, em oratório particular, sendo testemunhas Miguel Pinheiro de Vasconcelos Costa e José Irineu da Costa Pinheiro. Ele, natural da Freguesia da cidade de Sousa, da província da Paraíba, filho legítimo de José Alexandre Pereira de Souza, e de Maria Leopoldina Josefa Carolina (mesmo nome da esposa de D. Pedro I), falecida; ela de Vicente Ferreira Xavier da Cruz, e de Maria Ignácia Rosalinda Brasileira. O celebrante foi o tio do noivo, Padre Felis Alves de Souza. 

Os pais de José Alexandre e Padre Felix eram José Joaquim Pereira de Souza e Anna do Sacramento. Padre Felix nasceu em 27 de agosto de 1820, em Rio do Peixe, depois Antenor Navarro.

José Francisco e Maria Ignácia tiveram muitos filhos, mas somente seis chegaram a vida adulta, sendo quatro Josés e duas Marias: José da Penha, José Anselmo, José Francisco, José Felix, Maria das Neves e Maria Pureza. Mas, esse que tinha o mesmo nome do pai, pouco depois de receber o diploma de cirurgião-dentista, no Rio, foi visitar a família em Angicos, e morreu, após uma queda de cavalo, no ano de 1912; José Anselmo morreu envenenado, em 1952, e era casado com Marfisa Pinheiro, filha de José Rufino, e neta de Miguel Pinheiro, que foi testemunha no casamento acima; Maria das Neves casou com o jornalista Pedro Avelino e são pais do senador Georgino Avelino; Maria Pureza, morreu solteira; José Felix casou com Cynira, uma filha de Cirineu Vasconcelos, um dos apoiadores de J. da Penha, em 1913.

 José da Penha nasceu aos treze de maio de 1875, e foi batizado, pelo tio-avô, Padre Felix, na matriz de São José de Angicos, no primeiro de junho do dito ano, sendo padrinhos Cassiano Maria da Costa Ferreira, e Francisca Rita Xavier de Souza, por sua procuradora Izabel Maria da Costa Ferreira (esposa de Cassiano, e prima legítima de Maria Ignácia).

A professora Maria Ignácia, mãe do capitão, que em alguns registros, pós-casamento aparece como Maria Ignácia Alves de Souza ou Alves da Silva, era filha de Vicente Ferreira Xavier da Cruz e Maria Ignácia Rosalinda Brasileira, nasceu em 28 de fevereiro de 1846, e foi batizada, também, pelo Padre Felix, no Sítio São Romão (herdado por minha avó, Maria Josefina), aos 17 de Junho do mesmo ano. Foram padrinhos o próprio Padre, por procuração que deu a José Thomas Pereira, e Rita Teixeira da Conceição.  

Subindo na ascendência do capitão, vejamos o casamento dos pais de Maria Ignácia: Vicente Ferreira Xavier da Cruz, viúvo por falecimento de sua esposa Maria Francisca Duarte (possivelmente, sua parente), casou aos treze do mês de janeiro de 1840, no sítio denominado São José, da Freguesia de Santa Ana do Matos, do Assú, com Maria Ignácia Rosalinda Brasileira. Ele, filho de Francisco Xavier da Cruz e Lourença Dias da Rosa (esses dados não constam no registro); ela, filha de Cosme Teixeira de Carvalho, falecido, na época, e de sua mulher Maria Ignácia de Carvalho. Vicente era natural da Vila de Angicos, e Maria Ignácia, natural de Santana do Matos. Foram testemunhas José Thomas Pereira e Luiz da Rocha Pitta. Esse José Thomaz, que, também, foi procurador do Padre Felis, no batismo da mãe de J. da Penha,  era filho de Antonio Thomas, um irmão de Cosme Teixeira de Carvalho. 

Cosme Teixeira de Carvalho, bisavô de José da Penha, era natural da Freguesia de Caicó, filho de João Pereira da Silva. Ele foi casado anteriormente, com Aldonsa da Fonseca Pitta. Rita, madrinha da mãe de J. da Penha, era filha de Cosme e Aldonsa, e foi casada com seu primo, José Thomas, citado acima. Quanto à segunda esposa, Maria Ignácia de Carvalho, não descobri seus ascendentes, mas acredito que sejam das famílias dos Fernandes, Silvas e Carvalhos, de Santana do Matos. Absalão Fernandes da Silva Bacilon, avô de Aluízio Alves e Aristófanes Fernandes, era afilhado de Maria Ignácia Rosalinda Brasileira. Além disso, Aluízio se dizia parente de Georgino, sobrinho de J. da Penha, e José Anselmo tratava Aristófanes como parente.

Os pais de Vicente Ferreira Xavier da Cruz, portanto, bisavós de J. da Penha, alferes Francisco Xavier da Cruz e Lourença Dias da Rosa, casaram em 17 de novembro de 1774, aqui na Vila de Extremoz, sendo filhos: ele, de João Barbosa da Costa e de Damásia Soares, moradores no Assú; ela de Antonio Dias Machado e Francisca Lopes Xavier. Uma das testemunhas desse casamento foi o tenente Antonio Lopes Viegas, considerado fundador de Angicos, cunhado do noivo.

Não consegui informações sobre os pais de João Barbosa da Costa e de Damásia Soares, que eram sogros, segundo Aluízio Alves, de Antonio Lopes Viegas. 

Antonio Dias Machado e Francisca Lopes Xavier, primos legítimos, trisavós do capitão José da Penha, casaram em 3 de julho 1757, aqui na Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, ele filho legítimo de João Machado de Miranda e Leonor Duarte de Azevedo, na época defuntos; ela viúva de Nicácio Duarte, e filha de Luiz Duarte de Azevedo e Lourença Lopes Xavier, moradores no lugar chamado Potigi.

Nos registros de batismos mais antigos, da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, aparece, como madrinha, Lourença Lopes, filha de um Antonio Lopes Viegas. Talvez, ela fosse a esposa de Luiz Duarte de Azevedo, irmão de Leonor Duarte, tetravó de J. da Penha. Vários descendentes de tenente Antonio Lopes Viegas tinham Duarte ou Azevedo no sobrenome. É possível que o fundador de Angicos e o próprio J. da Penha descendam desse velho Antonio Lopes Viegas.

É o que pude apurar, até agora, com o que restou dos livros mais antigos. E quem é que está cuidando da preservação e digitalização dos velhos documentos?
Casa da Fazenda São Romão

Maria Ignácia, mãe de J. da Penha





MARIA: A PRIMEIRA MULHER BRANCA NO BRASIL
Por: Gileno Guanabara, advogado.

O registro da primeira mulher branca que pisou no solo do Brasil tem a ver com as notícias das primeiras viagens de colonizadores portugueses e das expedições corsárias aportadas aqui. Considerado o hiato inicial da colonização que vai de 1500 até o ano de 1530, alega-se que Martim Afonso de Souza deixara muitos casais na Capitania de São Vicente. Entretanto, as expedições marítimas vindas de Portugal ou não, praticavam o escambo, faziam o reconhecimento do litoral, ou combatiam a pirataria, em especial a dos franceses.
A feitoria de Pernambuco fora destruída pelos corsários franceses, quando em 1531 o navegador Martim Afonso partiu e chegou no Brasil em janeiro do ano de 1532. Havia já as feitorias de Porto Seguro, de Cabo Frio, e a de Cananeia. Vencida a frota francesa, Martim Afonso seguiu em reconhecimento pelo litoral. Chegou à Feitoria de São Vicente, seguindo até o Rio da Prata, onde naufragou.
Dado o descaso da Metrópole para com a ocupação da fazenda, ocorriam pelo litoral incursões frequentes de franceses e ingleses. Daí a recomendação do Rei João III a Martim Afonso para fundar a Capitania de São Vicente, antes feitoria conhecida por Porto dos Escravos. Pelo resultado econômico obtido da escravatura vermelha, o navegador a ela também se dedicou, o que já era praticado pelos colonos que habitavam a região e exploravam madeiras de lei e incursionavam pelo sertão, aprisionando e comerciando milhares de indígenas, para outras colônias, até para a Europa. 
São várias as indicações que negam a versão de que os primeiros casais e mulheres teriam chegado a bordo das caravelas daquele navegador e distribuídos ao longo do litoral. O Diário da Expedição de Martim Afonso de Souza, encaminhado ao Rei de Portugal, D. João III, escrito pelo seu irmão, Pero Lopes, não faz referência à presença de mulheres ou de casais a bordo da expedição. Na época, em Portugal, o nome brasil era sinônimo de castigo, de pena: homicida, brasil nele; ladrão, Brasil nele; falsificador de moeda, Brasil nele. Os milhares de criminosos trazidos para o Brasil revelam o caráter punitivo das expedições compostas na maioria de condenados arrebanhados nas prisões. Diante da onda de crimes hediondos praticados pela escória que aqui chegou , Duarte Coelho, Donatário de Pernambuco, a chamava de peçonha. Havia a previsão de combates iminentes e a costa marítima era infestada de perigos.  A par dos párias que Portugal remeteu para a Colônia, os desorelhados, se achavam aqui náufragos, homiziados e cristãos-novos sobreviventes da Inquisição, que mantiveram relações com as gentias, fundando os primeiros núcleos de povoamento.
O cosmógrafo espanhol Afonso de Santa Cruz integrante da esquadra de Sebastião Caboto, no ano de 1530, no relato do reconhecimento que fez (Islário) até a Feitoria de Cananeia, descreveu o povoamento de São Vicente, segundo ele, composto de dez ou doze casas de pedras, com esteiras servindo de portas e folhas largas de palmeira por cobertura. Detalhou o escambo de indígenas que ali era praticado. São Vicente se tornou a primeira vila e cidade (1534), haja vista a criação da sua Câmara Municipal.
Outra fonte, a carta de D. João III, rei de Portugal, dirigida ao fidalgo Martim Afonso de Souza, publicada em 1748, por Luis Lobo (Nobiliário, Tomo I) e Antônio Caetano de Sousa (História Genealógica - Provas vol. VI), é um verdadeiro registro da criação da Capitania de São Vicente. Na missiva real datada de setembro de 1532 se encontram as informações segundo as quais as terras de São Vicente seriam a melhor porção da colônia. Orientava o seu povoamento e ordenava a divisão da terra em lotes de cinquenta léguas, desde Piratininga até o Rio da Prata. Noticiou El Rei a ordem dada ao conde de Castanheira, a fim de apartar e doar cento e cinquenta léguas de terra nos melhores limites dessa costa do Brasil, em favor do comandante da esquadra e do seu irmão Pero Lopes.
Em referência à expedição de Martim Afonso, existe ainda a missiva do marinheiro inglês, Thomas Crasley, integrante da esquadra, dirigida a um mercador de Londres, parte da documentação quinhentista, publicada em 1890 pelo editor Goldsmith, de Edimburgo. A carta foi objeto de referência de Oliveira Lima, em conferência que proferiu em Londres, na Real Sociedade de Geografia, no ano de 1911. Revelou aquela correspondência um episódio importante. Durante a passagem pela ilha da Madeira, cristãos-novos pediram ao comandante, Martim Afonso, para embarcar e vir para a Colônia, com suas mulheres e filhos menores, o que não lhes foi permitido, haja vista a alegação de não haver mulheres nem crianças na tripulação, dados os objetivos da expedição.
Portanto, a conclusão que se obtém é que, até o tempo da passagem de Martim Afonso pela Feitoria que lhe outorgou El Rei, depois Capitania de São Vicente, a primeira em terras do Brasil, o pavor do novo mundo desautorizava a vinda de mulheres para cá, o que somente veio a ocorrer anos depois, trazidas do reino e das ilhas da Madeira e dos Açores, conforme noticiam os registros das sesmarias. Inclusive, se facilitou para que colonos aqui já localizados trouxessem suas mulheres e filhos.
Essa informação se agasalha nas informações do livro Memórias da Capitania de S. Vicente (1707), do beneditino Gaspar da Madre de Deus. O padre se refere ao despacho lavrado no mês de julho de 1538, no pedido feito pelo meirinho João Gonçalves, morador da Vila de S. Vicente, dirigido ao padre Gonçalo Monteiro, que era o lugar-tenente da Capitania e vigário da Vila recém-fundada. João Gonçalves pedia uma sesmaria em Iripiranga, com o propósito de plantar, alegando ser casado, com mulher e filho, morador em toda a dita terra, passa de um ano... Teria sido o primeiro homem que veio povoar, estabelecido com mulher e filho, por mais de ano anterior à data daquele despacho, conforme os registros respectivos.
Em face das primeiras notícias relativas ao Brasil, até a chegada de Martim Afonso; da fundação da Capitania de São Vicente e a vinda posterior de casais e de mulheres para a colônia; e das anotações de Gaspar da Madre de Deus, dissiparam-se as dúvidas. A primeira mulher branca que se tem notícia na colônia, no ano de 1536, se chamou Maria da Silva. Era esposa, dera um filho e fora referência do colono João Gonçalves.

domingo, 23 de fevereiro de 2014


Keynes e a ação do Estado na economia

Tomislav R. Femenick – Mestre em Economia e Contador

Quando se discute o papel do Estado na economia, sempre são lembradas as teorias de John Maynard Keynes desenvolvidas nas décadas de 20 e 30 do século passado, no bojo da grande crise provocada pela quebra da Bolsa de New York em 1929, que gerou um grave desequilíbrio conjuntural nos Estados Unidos e na economia mundial.

Foi nesse cenário que se destacou um dos postulados do keynesianismo: quando algo provoca desequilíbrio no mercado, ocasionando a retração do nível de consumo e/ou de investimento por parte dos agentes privados, o Estado deve intervir na economia em grau e em áreas tão diversas quanto necessário seja como forma de evitar o desemprego e garantir o estado de bem-estar social. Embora originalmente um liberal, Lorde Keynes se posicionou contra a liberdade desenfreada do mercado, propondo a intervenção do Estado na economia como forma de defesa da livre iniciativa. Embora essa fosse uma postura aparentemente de posições antagônicas – o liberalismo com intervenção estatal –, suas ideias se mostraram racionais, pois o que ele defendia era uma maior atuação estatal nos assuntos da economia por entender que, em certas ocasiões, esse seria o único meio disponível para evitar a quebra do sistema capitalista e garantir o funcionamento da livre iniciativa.

Keynes aceita essa intervenção do governo tão somente como uma forma de suplementar insuficiência conjuntural da demanda do setor privado, porém rejeita a propriedade estatal dos meios de produção e o Estado como agente produtor, quando afirma que “não se vê nenhuma razão evidente que justifique um Socialismo de Estado abrangendo a maior parte da vida econômica da nação. Não é a propriedade dos meios de produção que convém ao Estado as sumir”. É bom que se repita: as teorias de Keynes têm por objetivo encontrar meios para evitar ou solucionar as crises que periodicamente afetam o funcionamento normal das sociedades capitalistas.

Na realidade o que o economista inglês intuiu foi uma simbiose do Estado com a economia de mercado, sendo o primeiro (o Estado) um fator de regulação e de equilíbrio das atividades produtores, visando evitar a quebra ou restabelecer o nível de emprego e renda, e o segundo (o mercado) o objeto e o instrumento do equilíbrio desejado. Então, o Estado seria o fator (ou o interventor) que buscaria evitar, compensar ou corrigir os elementos que perturbam o sistema de correlação de forças entre os agentes econômicos.

Tomando-se esse conceito desenvolvido por Keynes, a política fiscal, o grau de endividamento do governo, as taxas de juros e o nível dos investimentos (entre outros) devem ser os instrumentos de que o governo deve fazer uso, sempre que haja perturbações que ameacem o crescimento do capital ou a redução do padrão de vida dos assalariados. Além dos resultados meramente materiais que esses recursos usados pelo Estado têm na produção e na renda, outro fator deve ser adicionado como resultado da intervenção estatal na economia: o reflexo psicológico que pode resultar no aumento dos investimentos, na geração de novos empregos e, consequentemente, na elevação da renda dos trabalhadores.

Embora muito discutido – uns aceitando outros não –, o keynesianismo é pouco compreendido. O que se vê são teóricos de várias tendências querendo trazer Keynes para suas respectivas praias ideológica ou afastando-o para bem longe. E muito deles nunca leram se quer um texto de Keynes; apenas sabem o que seus gurus falam sobre as ideias de um dos maiores economistas do século XX, o que empobrece sobremaneira o “estado da arte”.

Tribuna do Norte. Natal, 23 fev 2014.

O Mossoroense. Mossoró, 14 fev. 2014.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014


1915 – Uma partida de football em Natal

 

Elísio Augusto de Medeiros e Silva


Empresário, escritor e membro da AEILIJ

Após a sua chegada a Natal, uma das maiores novidades que Tibério aguardava conhecer era o “bate bola”, gíria pela qual era conhecida o football que, a partir de 1910, tinha se incorporado aos hábitos da sociedade natalense.

Ao chegar ao local onde seria futuramente construída a Praça Pedro Velho, próximo ao centro hípico (Sport Club Natalense), notou que uma pequena multidão já aguardava ansiosa o início da partida que se realizaria entre dois times locais.

No enorme terreno baldio dois grandes retângulos desenhados no chão, que soube, pelos amigos, tratar-se do campo de jogo.

O terreno livre de qualquer mato estava perfeitamente nivelado, com esparsa grama. De cada um dos seus lados situava-se um dos times, aguardando o início do jogo.

Nos fundos de cada um dos lados desse terreno havia uma trave de madeira serrada, formada por duas linhas em paralelo e unidas no topo por uma outra que ficava na posição horizontal.

Claro que, a princípio, Tibério não entendeu absolutamente nada, mas, atento, passou a observar o movimento daquelas pessoas que circulavam pelo campo. Homens, meninos e até algumas senhoras.

Logo chegaram os dois times de jogadores – cada um deles vestia calções apertados nas pernas e camisas coloridas de cores diferentes. Cada grupo se posicionou em um dos lados do, digamos assim, gramado.

Veio um terceiro elemento, vestido de outra maneira, e colocou um esférico no centro do terreno. Após ser dado início à partida os homens, tanto de um lado como de outro, passaram a correr loucamente e a chutar a tal bola, em direção a cantos totalmente opostos.

A cada chute vigoroso dos tais atletas, os gritos e palmas vinham dos espectadores, alguns soltavam um “Aaaah!”, quando a bola batia em uma das traves - pelo que Tibério notou uns torciam para um determinado grupo de jogadores, enquanto outros para os rivais destes.

Não demorou muito para Tibério perceber que as regras do tal jogo eram bastante simples. Apenas os dois homens que se encontravam abaixo das grades em cada lado do campo podiam pegar no esférico com as mãos. Os demais apenas a tocavam com os pés.

Vez por outra, os homens em campo se zangavam, discutiam, xingavam, gritavam e o homem – o mesmo que colocara a bola no centro do campo no início do jogo -, corria desesperado de um lado para outro e parava o jogo. As suas ordens eram obedecidas por todos os jogadores.

Depois de alguns instantes e muita reclamação tudo reiniciava para a alegria das pessoas que assistiam.

Após tensos minutos do início, apesar de todos os esforços do homem que ficava sob a trave, a bola cruzou a baliza. “Gol, gol”, várias pessoas gritavam. Houve então uma grande comemoração – dentro e fora do campo - aplausos, assobios, gritos e várias pessoas até chegaram a saltar de alegria e a abraçarem-se.

Depois de alguns minutos de jogo, isso se repetiu novamente. Desta feita na trave do lado oposto. Os torcedores que haviam comemorado da primeira vez mantiveram-se calados, enquanto as do outro grupo adotaram o mesmo procedimento de alegria.

E assim o jogo continuou até o seu final, ocasião em que a multidão dispersou feliz. Pelo que Tibério presenciou esse esporte logo ganharia muitos simpatizantes.

 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014


A TRAGÉDIA DA RUA DAS FLORES
Por: Gileno Guanabara, advogado

A motivação da presente crônica não trata da viela que se chamou Rua das Flores nas cercanias da cidade do Açu, a qual lhe foi dado o nome de “Rua Prefeito Manoel Pessoa Montenegro”. Nela estarão sempre presentes os sobrados, os moradores ilustres e os seus mistérios. Permanece o espírito dos lá nascidos, imorredouras lembranças dos primeiros anos de vida. É como se o quarto onde Machadinho viveu a sua segunda infância estivesse “intacto, suspenso no ar”, no dizer do poeta. Saibam os barnabés que “navegar é preciso” e o nome da Rua das Flores em Açu persiste. Nela, como em qualquer outra via de casas calcetadas, em cor de cal e de números desiguais, a vida corre fagueira e nos comoverá sempre a sua doce lembrança.

Os pensadores no recôndito de suas elucubrações elegem, anotam e legam para o futuro a integralidade das ruas, seus encantos, glórias e emoções vividas. Ou se reportam a outra face, a parte medonha dos desconsolos, das histórias do nunca e dos dramas ocorrentes. São marcas indeléveis da existência humana. Operetas felizes ou acontecências trágicas que se passam nas calçadas ou nos rios de quaisquer cidades, tendo a parcimônia de nos tornar iguais na alegria ou no padecimento. A felicidade é mais fácil de nos arrebatar, às vezes por razões que a própria razão desconhece. Os registros soçobram incólumes em algum lugar, contendo a lavratura temporal de ruas, de personagens ou de acontecimentos raros. Deles a posteridade não tomaria conhecimento, caso não fossem descobertos a tempo.

 Luis de Camões atingido em combate ficou cego de um olho e sobreviveu a um naufrágio. Com uma das mãos amparava o seu tratado, o registro da glória e conquistas lusitanas. Com a outra mão aplacava o mar indômito. A epopeia que relatou em Os Lusíadas assegurou ao mundo conhecer o tempo infinitamente glorioso dos portugueses. Camões sabia dos rumos tomados desde a Torre no Rio Tejo, fortaleza imponente com suas canhoneiras e cordames em pedra, traços mouriscos, orientais e góticos, de onde se aventuravam os marinheiros e as caravanas que seguiam em busca da pecúnia e da riqueza. Camões morreu pobre de Jó.

Ou a façanha do genovês Cristovam Colombo que se lançou ao mar bravio, vencendo resistências no propósito de fazer a guerra do comércio contra os ímpios.  Ao final descobriu o Novo Mundo, sem que se lhe prestassem a merecida justiça. A América, na nomenclatura dos mapas que passaram a retratar a forma convexa dos oceanos, até então desconhecido pelas ciências, consagrou a vida e obra de outro navegador, Américo Vespúcio.

Miguel de Cervantes Saavedra nos legou a obra mais universal das que o gênio humano produziu. Nela estão agasalhados os dois polos que impulsionam o ser humano: a fé e a razão, como lhe referiu Unamuno ao se reportar a Don Quixote. A cidadela natal de Cervantes não foi Sevilha, nem Madrid, nem Córdova, mas uma quinta sem rua, de nome conhecido “Alcalá de Henares”. Aventureiro e insatisfeito com a própria vida que levava, alistou-se nos regimentos espanhóis e participou da batalha de Lepanto, na qual foi ferido e teve inválida uma das mãos. Na viagem de regresso a Espanha foi aprisionado por piratas berberes. A vida de prisioneiro descreveu em duas obras: “Los Baños de Argel” e “Los tratos de Argel”. A vida mísera, sem recursos, mesmo assim teve forças para publicar “La Galetea”. Enveredou pela dramaturgia, pelas novelas, pela poesia.

 Porém, a obra monumental de Cervantes é “Don Quixote”, a criação mais humanamente dramática que se imaginou. Eis a luta diuturna dada pelo cavaleiro louco, suas peripécias e as fatalidades da vida, apontando contra a psicose intolerante e a decadência do absolutismo castelhano.  Em resumo: a tragédia pessoal de quem sobrepunha acima das misérias terrenas a sua fé inabalável. Faleceu em plena atividade de escritor, pobre e sem reconhecimentos, que só lhe foram prestados tempos depois.

Finalmente, A Tragédia da Rua das Flores que titula o manuscrito deixado por Eça de Queiroz, inédito e inacabado, dado a conhecimento público, passados cem anos depois de sua morte. O estudo que ora se faz e a edição preliminar (Obras de Eça de Queiroz, - Livros do Brasil - Lisboa, novembro/2003) preservam as imperfeições, incorreções, repetições, o ritmo alucinante da caligrafia original, as anotações marginais, ou os cortes esboçados pelo autor.

A ocorrência do incesto é recorrente em Eça, com força desde O Primo Basílio, ou em Os Maias. No entanto, o pecado vê-se sublimado em o drama situar-se exatamente na Rua das Flores. Em verdade, caso não se configurasse como tragédia, embora com o mesmo tema, resumir-se-ia a uma proposta de comédia burlesca, simplesmente. A Tragédia da Rua das Flores, pois, consagra personagens e intrigas de época presentes em outras obras clássicas do autor. No entanto, cada rascunho marginal e até as censuras sobrepostas de próprio punho, dão azo a um Eça já equidistante do rigor das motivações do enredo original.

Procederam-se consultas através de fotocópias, a fim de se esclarecer as dúvidas e as repetições, já que não são mais viventes os familiares de Eça, ou quem intimidade tivera com os seus escritos. Superados os questionamentos, oxalá no futuro possa se ter a edição definitiva e o alcance da última obra de Eça de Queiroz.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Instituto Histórico do RN espera parecer de Iphan para reforma

Publicação: 19 de Fevereiro de 2014 às 00:00 (Tribuna do Norte)              
Prestes a completar 112 anos no próximo dia 29 de março, o Instituto Histórico e Geográfico do RN ainda não obteve anunência do Iphan-RN para prosseguir com as obras de recuperação de sua sede na Cidade Alta. A obra foi embargada no final de novembro do ano passado, após remoção indevida do piso de ladrilho hidráulico instalado no auditório da mais antiga instituição cultural do Estado há pelo menos meio século. Mesmo com parte da estrutura interditada, a direção da entidade resolveu reabrir as portas nesta segunda-feira (17) para atender visitantes e pesquisadores.
Yuno SilvaObra do auditório permanece parada até parecer do IphanObra do auditório permanece parada até parecer do Iphan

“Aguardamos o parecer do Iphan-RN para retomarmos os trabalhos. Nosso desejo é que, até o fim de março, possamos fazer a festa de aniversário do Instituto e comemorar o primeiro ano da nova gestão em um ambiente limpo e organizado”, disse o presidente do IHGRN, Valério Mesquita.

Porém, passados quase três meses do embargo, a superintendência regional do Iphan informou que ainda não recebeu todos os documentos solicitados para embasar o parecer. “Essa demora foi provocada pelo próprio IHGRN”, garantiu Onésimo Santos, superintendente do Iphan-RN. “Estamos pedindo coisas simples como cópias de documentos pessoais e a planta com o projeto de intervenção. As cópias entregaram um dia desses, mas aguardamos os projetos. De qualquer forma o processo está tramitando. Estamos cumprindo todos os prazos”.

Como o edifício é tombado pelo patrimônio histórico, Onésimo recorda que a direção do Instituto removeu os ladrilhos hidráulicos antes de qualquer autorização formal do Iphan-RN. Em vez de aplicar multa, ficou decidido em comum acordo que a direção do Instituto Histórico e Geográfico irá compensar a remoção do piso antigo com a realização de um estudo memorialista sobre o histórico da entidade. “A documentação formalizando o acordo (da compensação) está pronta e será encaminhada amanhã (hoje) para o setor jurídico regional que funciona em Pernambuco. Eles têm um prazo de até 180 dias para devolver o contrato”, adiantou. A notícia é um balde de água fria na meta determinada pelo diretores do IHGRN.

Questionado sobre a possibilidade do IHGRN se organizar para receber comemorações no final de março, Onésimo Santos explicou que o embargo não impede do local ser limpo e de serviços simples como pintura serem retomados. “O mal feito foi feito (a remoção do piso sem autorização) e a reparação demora. Por enquanto, até que seja definida qual a solução, o auditório ficará sem o piso”, frisa.

O embargo da obra no Instituto coincide com o bom momento financeiro da entidade: valério Mesquita contou na manhã de ontem ao VIVER que o Instituto, finalmente, recebeu parte das emendas aprovadas pela Assembleia Legislativa para o orçamento de 2013 – recursos que serão utilizados para concluir os reparos na estrutura física, incluindo melhorias nas redes elétrica e hidráulica; mais acomodação, limpeza e levantamento completo do acervo.

“Dos R$ 400 mil aprovados na AL ano passado, temos R$ 100 mil disponível em conta. O Governo do RN publicou, no Diário Oficial no dia 15, outros R$ 200 mil que teremos acesso em 30 dias”, disse Mesquita, informando que é chegada a hora de aplicar esses recursos. Paralelo às obras de recuperação, há um projeto arquitetônico em fase final de elaboração que prevê a ampliação e readequação do IHGRN, como a construção de um auditório no subsolo e de um café no pátio. Mas os planos terão que aguardar um pouco, até a proposta ser avaliada pelo Iphan-RN.

Lembranças de J. da Penha

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
 
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Hoje, transcrevo para cá um artigo postado no Diário de Notícias, no dia 21 de abril de 1954, pelo escritor cearense, membro da Academia Brasileira de Letras, R. Magalhães Júnior, que juntou suas lembranças às do escritor norte-rio-grandense,  Jaime Adour da Câmara. O título desse artigo é “Lembranças de J. da Penha”. O capitão J. da Penha, natural de Angicos, Rio Grande do Norte, foi assassinado no Ceará, no dia 22 de fevereiro de 1914, um século atrás. Segue o artigo.

Numa interessante conferência, improvisada à base de reminiscências de sua infância e de sua juventude no Rio Grande do Norte, o escritor Jaime Adour da Câmara lembrou, há poucos dias, a figura do capitão J. da Penha, desaparecido há precisamente quarenta anos. Pintou o autor de “Oropa, França e Bahia, com aquela fluência e precisão verbal que todos lhe reconhecem, um excelente retrato daquele oficial, de figura imponente, barbas frondosas e grande coragem, de cujos lábios ouvira, pela primeira vez, em comícios, a palavra “povo”. Não em referências indiretas, mas como um apelativo, como um chamamento, uma convocação. Disse o conferencista que ele proferira a palavra: “Povo!”, seguida de uma exclamação, apoiando-se na primeira sílaba, acentuada, porém breve, de tal sorte que parecia um tiro, um estampido. E que poder havia naquela palavra, que força magnética, que atração! Por que? Porque era uma palavra nova, alguma coisa de estranho, de inusitado, no vocabulário político da época. O capitão J. da Penha, diante daqueles que o cercavam, estudantes, operários, funcionários, meros curiosos atraídos eventualmente pela aglomeração que se formara, não distinguia classes ou particularizava grupos sociais. Enfeixava-os todos naquela palavra mágica, naquele tiro de fuzil saído de sua boca rodeada de espessas e negras barbaças:”Povo”.

Classificou-o Jaime Adour da Câmara de “mistagogo” e reconhece que muitas das coisas impressionantes que J. da Penha então dizia eram frases feitas, lugares comuns da oratória de comício, vulgaridades de almanaque positivista. Contudo, confessa que foi J. da Penha, com sua oratória inflamada, quem lhe transmitiu a noção de que era povo. Dele ouvira também uma palavra estranha e jamais ouvida: desoligarquização. Sustentava J. da Penha a necessidade de promover-se a desoligarquização dos Estados para que pudesse reinar no Brasil um clima de liberdade política. Na verdade, havia frondosas oligarquias de Norte a Sul do país. Não é preciso lembrar todas elas. Basta citar o longo e desafiador domínio do Sr. Borges de Medeiros no Rio Grande do Sul e a prolongada permanência dos Acioli no governo do Ceará. O desoligarquizador J. da Penha, que conseguiu levantar uma parte da população do Rio Grande do Norte, com os seus comícios e suas estranhas palavras, tão diferentes das que falavam os homens que detinham o poder, cometeu o erro supremo na escolha do candidato que deveria enfrentar  a oligarquia local. Foi buscar, não um filho da terra, não um homem que tivesse aparecido ao seu lado nos comícios, não alguém que tivesse raízes no Estado ou nele vivesse, mas um jovem e ausente oficial do Exército, o tenente Leônidas Hermes da Fonseca. Podia ter o tenente muito merecimento pessoal e condições para se transformar num grande administrador. Era, porém, o filho do presidente da República, marechal Hermes da Fonseca, e tal escolha fazia supor que J. da Penha, queria substituir uma oligarquia de âmbito estadual por uma oligarquia de âmbito nacional. Fraco o movimento a que se dedicara, o capitão J. da Penha, adotara uma tática funesta: a de tentar obter o apoio ou a pressão do governo central para o seu candidato, sem lembrar-se de que tal pressão seria tão condenável quanto a da máquina estadual em favor do candidato da oligarquia. O resultado foi a derrota do movimento de J. da Penha. As lembranças desfiadas pelo conferencista Jaime Adour da Câmara nos fazem refletir sobre os atos dos que querem preservar a democracia, baseada na vida dos partidos, com a escolha de candidatos fora dos partidos, ou seja, com a negação destes e de suas finalidades. Não parece a singularíssima desoligarquização de J. da Penha?

Ao desastre do bravo capitão no Rio Grande do Norte seguiu-se o seu desastre final no Ceará. Esse Estado fora há pouco, desoligarquizado: tinham sido alijados os Acióli e a estes se seguira o governo de um militar, o então coronel Marcos Franco Rabelo. Para reagir contra os restos da oligarquia, tinham entendido que só um homem forte. Mas Franco Rabelo, em vez de forte, era fraco. Contra ele, ergue-se o padre Cícero, com sua jagunçada, e a figura sinistra de Floro Bartolomeu, eminência parda do velho fanático. Criminosos de cinco ou seis Estados formam nas forças irregulares de Juazeiro, bem armadas e bem municiadas. Batidas as forças governistas em alguns encontros, J. da Penha se apresenta no Ceará e aceita o comando das mesmas. Marchou para o interior e caiu numa cilada perto de Iguatu. 

Dias depois, chegava a Fortaleza um vagão ferroviário conduzindo o cadáver de J. da Penha. Ainda me lembro da emoção daquele instante: parecia que a cidade inteira tomava luto. Assumiu J. da Penha o relevo de um herói popular. Os cantadores o glorificavam em seus versos.

Lembro-me de uns que diziam;
Deus te dê a salvação
Boca que nunca mentiu
Braço de herói destemido
Mão forte que resistiu

Assim acabou o homem evocado há dias pelo conferencista Jaime Adour da Câmara. Ás lembranças dele junto as minhas. Naquele instante, parecia que o Brasil estava acabando e que o nome de J. da Penha passaria à história como o de um herói. Mas, agora, a quarenta anos de distância, quantos ainda se lembrarão dele?

No próximo artigo, neste jornal, escreveremos sobre os ascendentes do capitão J. da Penha.
Capitão J. da Penha