quarta-feira, 30 de abril de 2014

Assunto: Base Aérea de Natal/RN

Justa homenagem
Durante a segunda guerra mundial, os americanos estabeleceram uma base aeronaval na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.
O que determinou a escolha do local, não foi o fato de Natal ser uma das mais aprazíveis cidades litorâneas do Brasil, com uma deliciosa e refrescante brisa sempre soprando do mar, mas sim a sua localização estratégica, em uma das extremidades do ponto mais curto de travessia do continente americano para a África.
De Natal até Freetown, a capital de Serra Leoa, são apenas uns 2.900 quilômetros.
Diz a lenda que muitas crianças nascidas naquela época em Natal, foram batizadas com o nome de Usnávi, uma corruptela do "U. S. Navy", que os natalenses viam escrito nos aviões americanos daquela base.
Não sei se isso foi mesmo verdade, ou se é só folclore, mas não deixa de ser uma história divertida.
Quando os americanos finalmente conseguiram convencer o Getúlio Vargas a deixar de lado a sua simpatia pela Alemanha e entrar na guerra tomando o partido dos Aliados, o Brasil recebeu bastante material bélico, para reforçar as suas defesas.
Foi criada uma tal de Lei de Empréstimo e Arrendamento, ou Lend-Lease, que facilitou bastante essa transferência de equipamento militar.
No meio desse armamento todo, estavam incluídos 30 bombardeiros North American B-25 "Mitchell", nas versões B, C, D e J, que chegaram no Brasil entre os anos de 1942 e 1944.
Os B-25 eram bombardeiros relativamente pequenos, mas eram muito eficientes e deliciosos de se pilotar, além de serem resistentes e de fácil manutenção, coisa indispensável em um teatro de guerra.
No total, 9.984 deles foram construídos e ajudaram bastante na vitória dos Aliados contra os nazistas e contra os japoneses.
North American B-25 "Mitchell"
Aliás, foi uma esquadrilha desses B-25 americanos que consegui a proeza de decolar sem catapulta de um porta-aviões e fazer o primeiro bombardeio a Tóquio, em uma espécie de resposta ao ataque a Pearl Harbor.
Esse incrível vôo sem volta, cada um dos 16 aviões que participaram da missão pousou ou caiu onde deu lá na Ásia, aconteceu em abril de 1942 e, além de Tóquio, também destruiu alguns alvos em Nagóia.
Só uns poucos daqueles milhares de B-25 que foram produzidos durante a guerra sobreviveram e hoje estão em museus, ou nas mãos de colecionadores particulares. Não é raro vermos algum desses sobreviventes que pertencem a particulares, se apresentando em shows aéreos nos Estados Unidos.
Foto W.Duck
Era comum os aviões de bombardeio serem batizados com o nome de mulheres, com direito ao nome bem grande e um retrato da homenageada pintados no nariz da aeronave.
Um dos casos mais famosos foi o do Memphis Belle, um Boeing B-17F "Flying Fortress" que foi o primeiro bombardeiro pesado a conseguir completar as 25 missões exigidas das tripulações, antes que elas pudessem dar baixa e voltar para casa.
Conhecidos como Fortalezas Voadoras, esses quadrimotores fizeram um estrago danado na parte nazista da Europa.
O Memphis Belle foi praticamente destruído na última missão, mas mesmo assim conseguiu pousar e, depois de restaurado, foi para um museu dos Estados Unidos, aonde se encontra até hoje.
A senhorita de Memphis que foi a musa desse B-17, se chamava Margaret Polk e era a namorada do então Capitão Robert Knight Morgan, o comandante do avião.
 
United States National Archives
Um outro caso clássico é do Enola Gay, o Boeing B-29 "Superfortress" que jogou a bomba atômica em cima de Hiroshima.
Enola Gay Tibbets era o nome da mãe do comandante da aeronave e também comandante do esquadrão aéreo encarregado do lançamento de todas as bombas nucleares que foram e que seriam produzidas pelos americanos, o Coronel Paul Tibbets.
Arq. pessoal
O Coronel Paul Tibbets, posando ao lado do Enola Gay.
E já que americano pode, brasileiro também pode e, por conta disso, alguns dos bombardeiros da nossa força aérea também tiveram o nome de suas musas pintados na fuselagem.
O caso mais pitoresco foi o da Maria Boa, que foi homenageada por um daqueles B-25 que vieram a reboque da entrada do Brasil na guerra do lado dos americanos. Maria Boa era a dona de um lupanar em Natal onde, além das raparigas, os clientes podiam saborear uma cerveja gelada servida em mesas ao ar livre. Como boa parte dos tenentes, pelo menos uma vez, foi até lá para conhecer e saborear uma cerveja, com justa homenagem lembraram-se da Maria Boa.

Arq. da Força Aérea Brasileira
Tratava-se de um North American B-25J "Mitchell", que na Força Aérea Brasileira recebeu a matrícula FAB 5071.

Arq. da Força Aérea Brasileira
Infelizmente eu não tenho nenhuma foto "de corpo inteiro" do Maria Boa, a única que tenho é a de um modelo dele, muitíssimo bem confeccionado por sinal.


Aeromodelo construído e fotografado pelo Guick, de Curitiba.
Da homenageada, a Maria Boa, eu também não tenho nenhuma foto de corpo inteiro, somente este pequeno retrato.
Na verdade Maria Boa era só um apelido, o seu nome de batismo era Maria Oliveira Barros.
Nascida em Campina Grande, na Paraíba, ela era a dona do mais famoso e mais agitado bordel da cidade de Natal, naquela época da base aero-naval dos americanos e, depois da guerra, na base aérea da FAB.
Não há como negar que ela foi uma das muitas heroínas da época do chamado esforço de guerra...

Maria Oliveira Barros, a Maria Boa (1920-1995)
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COLABORAÇÃO ENVIADA PELO MÉDICO ROBERTO FURTADO DE MENDONÇA

Toda cidade precisa de um Grande Ponto
Lívio Oliveira – livioliveira@yahoo.com.br
Ainda hoje recordo – nas conversas com papai – das vezes em que fazíamos, no seu fusca branco, o percurso entre o Barro Vermelho e a Cidade Alta, idos dos anos 70. Ele ia em busca de jornais, e eu me metia logo em meio aos gibis exibidos nas bancas do tradicional Grande Ponto. Passear naquele cenário movimentado (durante a semana) e tranquilo (nos sábados à tarde, domingos e feriados) era uma diversão imensa, olhando vitrines e saboreando um clima ameno e saudável de socialização e descoberta do mundo. Papai aproveitava sempre para botar a conversa em dia, no Café São Luiz e nas calçadas em que circulavam simpáticos e familiares transeuntes. Muitas vezes, aproveitávamos para cortar o cabelo no Salão “Pequeno Príncipe”, quando me premiavam com pirulitos e balas após a sessão do corte curtíssimo. Em época natalina, admirava as luzes coloridas e decorações diferenciadas que os lojistas armavam amorosamente em seus estabelecimentos. Havia algum glamour na Cidade Alta, algum perfume, algum sonho a ser realizado, alguma materialização plena da fantasia humana.
Confesso que hoje não frequento mais o Grande Ponto, justamente porque não reconheço ali aquele ambiente agregador de outrora, de certa forma feliz, que via há aproximadamente três décadas atrás. Naqueles anos 70 – e mesmo nos 80 – presenciei importantes eventos políticos, culturais, artísticos, em contato pleno com a ebulição social e a realização humana, o que ia além do comércio e das coisas do capitalismo. Cheguei a conhecer – até certo ponto com algum temor reverencial – o poeta Milton Siqueira escrevendo seus poemas, vestido com roupa toda cáqui e um boné, com uma espécie de bolsa a tiracolo e um monte de papéis amarelados e umas canetinhas bic ou lápis, sentado num batente de loja como se estivesse num trono, altivo e impenetrável no seu olhar sério e profundo. Sabia que ali havia mistérios. Sim, havia. Como gostaria de ter um daqueles poemas, hoje! E vi e ouvi muito mais no Grande Ponto. Muito mais, durante anos a fio.
Hoje, diante desse meu saudosismo, dessa nostalgia que vez por outra teima em invadir o meu espírito, deparo-me com uma publicação literária de exato nome “Grande Ponto”, uma revista de alta qualidade e que insiste em nos lembrar que nesses tempos que mencionei, além de outras décadas mais remotas, o Grande Ponto se fez essencial à vida social, cultural, política e até econômica da nossa cidade. Ainda é assim, mas não com o mesmo brilho.
Hoje, certamente não mais com o glamour e o poder comunicativo e de entrosamento de outros tempos, mas o GP ainda continua lá, fazendo as vezes de pequena ágora da cidade. Lugares como aquele são essenciais a qualquer cidade do mundo. Gostaria muito de ter a certeza de que não foram totalmente substituídos e ultrapassados pelos corredores e praças de alimentação dos shopping centers, pelo bem ou pelo “Mall”. Mas, fazer o quê diante de realidades inexoráveis de nosso tempo?!
Quero destacar que a revista “Grande Ponto” de que falo, já está no terceiro número – capitaneada pelos escritores Leonardo Sodré e Racine Santos –, seguindo como uma publicação rica em iconografia e textos, à qual dou realce e destaque neste momento, ao tempo em que sugiro e indico como leitura de ótimo padrão, por traduzir não somente o espírito do antigo centro nervoso da cidade, mas por espelhar o espírito mesmo da pólis em tempos atrás, talvez quando havia ainda certa ingenuidade, um “tempo da delicadeza”, guardando-se a marca humanística de um congraçamento real (não se tratava de uma ágora virtual) em que as histórias das pessoas, assim como as linhas dos velhos bondes, entrecruzavam-se em torno da mágica aventura da vida. 

terça-feira, 29 de abril de 2014

Deífilo


Cultura Potiguar Urgente: Lembrando
o Mestre Deífilo Gurgel

Luciano Capistrano - luciano.capistrano@natal.rn.gov.br

Historiador/Comissão Municipal da Verdade

Professor/Esc.Est. Myriam Coeli

         “O pião entrou na roda, dessa roda ele não sai, porque, quando entra na roda ele gira, gira e cai”. Neste verso, do pesquisador e poeta Deífilo Gurgel, encontramos a beleza das brincadeiras de infância, em um tempo sem os games eletrônicos, de hoje, e o ato de brincar não era uma ação solitária, mas sim, um momento de sociabilização. O poeta expressa, assim, a cultura de seu povo. Em outro verso, diz o poeta: “ No pilão se pila o milho para fazer o xerém e muitas coisas gostosas o pilão pila também”. São os saberes e fazeres do povo, digitais de sua cultura.

            Neste ano, ano da Copa do Mundo, no mês junino, aproveitando a luz das fogueiras, façamos uma reflexão sobre a nossa cultura, nosso Patrimônio Imaterial, ou seja, aquilo que nos faz brasileiro, nordestino, enfim, potiguar. O que aconteceu com nossos folguedos, as danças,  as apresentações de João Redondo, as folias do Boi Calemba e os Romanceiros?

            Deífilo Gurgel, estudioso do folclore, cita Mario de Andrade, Ascenso Ferreira, Theó Brandão e Câmara Cascudo, expoentes da pesquisa folclórica no Brasil, como admiradores das manifestações da cultura potiguar. É o próprio Deífilo, em seu “Espaço e Tempo do Folclore Potiguar”, quem faz um alerta:”... e elas( danças folclóricas) sobrevivem hoje, sabe Deus, à custa de quantos sacrifícios”.

            O filho ilustre de Areia Branca, professor Deífilo Gurgel, nos alertou sobre a “morte” dos folguedos populares, ao tempo em que apontou o caminho de sua preservação. A escola, segundo o mestre Deífilo, deve ser o lugar de resistência dos saberes e fazeres do povo. No campo legal existe, em âmbito estadual, a instituição do estudo do folclore norte-rio-grandense, nos níveis fundamental e médio de ensino. Esta é uma das alternativas para a divulgação e preservação das manifestações culturais da terra potiguar. 

            Outro caminho, não menos importante, é o desenvolvimento de uma política de apoio aos diversos grupos e mestres da cultura norte-rio-grandense. Neste sentido é bom assinalar a Lei nº 9.032/2007, iniciativa do deputado Fernando Mineiro, que institui o Registro do Patrimônio Vivo da Cultura Potiguar. Esta Lei, prever uma bolsa financeira de ajuda, aquém dedica toda uma vida em prol da cultura popular.

            Preservar é fazer viva as diversas manifestações culturais. Um bom exemplo vem do “país de Mossoró”. A Cidade Junina, consegue envolver os diversos segmentos da sociedade mossoroense, no resgate de suas tradições. Seja através do espetáculo “Chuva de Balas no País de Mossoró”, ou nos autos populares e no festival de quadrilhas, toda a cidade respira cultura. Importemos então para todo o estado a boa idéia nascida na Capital do Oeste. Lembro, também, o legado deixado pelo ex-prefeito Djalma Maranhão, homem publico de grande sensibilidade, sua administração foi marcada pela realização de festivais de folclore e dos folguedos populares nos diversos bairros de Natal.

            Em tempos de globalização, ergamos barricadas culturais, não contra o que vem de fora, simplesmente, mas objetivando preservar nossos elementos culturais. Façamos uma campanha Cultura Potiguar: Urgente, como o mestre Deífilo alertou.

Referências

Gurgel, Deífilo. Espaço e Tempo do Folclore Potiguar. Natal: Governo do Estado, 2006.

_______. Os bens aventurados. Natal: RN Econômico, 2005.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Petróleo



EUFORIA, DESÂNIMO E ESPERANÇA;
UMA HISTÓRIA DO PETRÓLEO POTIGUAR
Tomislav R. Femenick – Historiador, membro da diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

No final dos anos 1960 já estava provado que existia petróleo no oeste potiguar e na região costeira norte do Estado. Entretanto havia um problema para sua exploração: a produtividade dos poços era pequena, o que indicava perspectivas antieconômicas. Explicavam os técnicos que o custo para tirar o petróleo do solo potiguar era maior do que o preço internacional do óleo bruto, que então girava em torno de US$ 2,90 o barril.
Porém esse cenário foi alterado pelo crescimento desse preço para US$ 11,65 e US$ 40.00, na chamada “primeira crise do petróleo”, em 1973, e US$ 80.00, na “segunda crise do petróleo”, em 1979. Foram essas elevações dos preços que tornaram viável a exploração de nossas jazidas petrolíferas.

Novos Preços, Novos Poços

A partir do poço RNS-3 – descoberto em 1974 em Macau –, uma série de eventos pontuaram na história do petróleo potiguar, provocando reações de expectativas ora ufanistas, ora comedidas. Naquele mesmo ano foi divulgado que a descoberta da jazida de Macau “dobraria o volume de reservas nacionais conhecidas do ouro negro” e que a sua exploração representaria a criação de mais de 1.200 novos empregos na região. No ano seguinte os poços que forneciam água para o abastecimento da cidade de Mossoró foram novamente contaminados por vazamento de petróleo e o óleo saiu nas torneiras das residências de dois bairros. Dois anos após entrou em operação o campo de Ubarana, na costa marítima de Guamaré.
Entretanto novas perfurações realizadas pelo Petrobras se mostraram economicamente inadequadas, mesmo com os novos preços internacionais. Porém o elevado número de ocorrências de óleo forçou a estatal a criar em seu organograma o Distrito de Produção da Bacia Potiguar-DIGUAR, abrangendo os Estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba.
Em 1979, quando era realizada a perfuração de um poço que forneceria água para as piscinas do Hotel Thermas, novamente apareceu petróleo em Mossoró, desta vez com uma surgência mais significativa. Foi esse poço, o MO-13, deu origem ao Campo Mossoró. No ano seguinte a perfuração do MO-14 apresentou mais petróleo ainda e resultou no primeiro poço terrestre viável do Estado, por ponto de vista empresarial.
Nos anos de 1980 foram intensificadas as prospecções nos municípios de Mossoró, Areia Branca, Macau e Alto do Rodrigues. Em 1981, a Bacia Potiguar produzia, em média, 157 barris por dia; os poços exploratórios eram 27 e outros 35 unidades estavam programadas para furar o solo do Oeste. Daí para frente à produção foi em escala crescente: em 1983, a produção de petróleo chegou a 38,9 mil barris por dia; o ano seguinte, esse volume alcançou 57,4 mil; em 1985, 59 mil; em 1986, 71,2 mil; em 1994, 96,9 mil.
Com o êxito dos novos poços, em 1994 o Rio Grande do Norte já era o segundo maior produtor de petróleo do Brasil e o primeiro em produção terrestre. Essa posição fez com que a Petrobras desse cada vez maior importância ao nosso Estado, inclusive alterando por mais três vezes o seu organograma administrativo. Em 1987, o Distrito de Produção da Bacia Potiguar foi substituído por um novo setor, o departamento Região de Produção do Nordeste Setentrional; em 1995, pela gerencia de Exploração e Produção do Rio Grande do Norte e Ceará, e, em 2000, pela Unidade de Negócios do Rio Grande do Norte e Ceará.

Produção cai e a Crise Bateu à nossa Porta

Em 2012 já se podia ver o piscar da luz amarela: muito embora as reservas de petróleo do Rio Grande do Norte tenham aumentado em cerca de 20%, se comparadas com o volume registrado em 2003 (passou de 455,7 para 547,2 milhões de barris 355,6 em terra e 191,6 no mar). Todavia há uma diferença entre a existência de reservas de óleo e extração desse mesmo óleo. O fato relevante é que a produção anual de óleo caiu de 31,7 milhões de barris em 2000, para 21,7 milhões em 2012. Também comparada com os dados de 2003 a produção efetiva de gás natural liquefeito (LGN, em inglês) recuou de 2.549 para 1.524 mil barris, uma queda de 40,21%.
  Em março de 2013 a Petrobras, as empresas que lhe prestam serviços e outras ligadas à indústria petroleira demitiram quase dois mil empregados na região de Mossoró. De lá para cá, calcula-se que cerca de três mil pessoas – que trabalhavam em atividades diretamente ligadas a exploração do petróleo e gás na região petrolífera do Estado – já tenham perdido emprego.
A redução dos investimentos, dos negócios e do número de empregos está se refletindo diretamente nas outras atividades econômicas: retração nas vendas do comércio, na construção civil (mais de 1.500 demissões), na ocupação dos hotéis (55% a menos) e nas vendas dos restaurantes, no setor de transporte (quase 300 demissões), nas receitas do Estado e dos Municípios da região. Cento e vinte empresas que prestavam serviço para a Petrobras fecharam suas portas; umas por iniciativa própria, outras simplesmente quebraram.
            As noticias ruins não pararam por ai. Nos dois primeiros meses de 2014, a Bacia Potiguar registrou o menor volume de produção dos últimos quatro anos. Em janeiro, foram extraídos 57.188 barris de petróleo por dia, a menor produção desde dezembro de 2010. Em fevereiro produzimos 58.707 – uma queda de 3,82% se comparado ao mesmo período do ano passado, quando a produção diária chegou a 61.045 barris.

Causa

            E qual a causa desse recuo? Os analistas apontam em primeiro lugar o fato de que a Petrobras teria alterado o foco de seus investimentos, direcionando todos os seus recursos para a exploração dos campos do pré-sal (rochas existentes no fundo dos oceanos sob uma camada de sal petrificado, abaixo da qual há ocorrência de hidrocarboneto; petróleo, gás natural, carvão etc.), campos esses que projetam um maior potencial de êxito. Para o Estado, o plano da Petrobras seria realizar a recuperação secundária de poços antigos e com histórico de produção satisfatória, mas que atualmente apresentam baixa produtividade ou mesmo que estejam desativados. Eles estão sendo trazidos de volta ao sistema produtivo via injeção de água, vapor ou gás, objetivando forçar a surgência do óleo. Trezentos poços localizados em Alto do Rodrigues, Ubarana, Fazenda Belém e Campo do Amaro já teriam recebido esse tratamento. O projeto de injeção contínua de vapor (vaporduto), na região do Vale do Açu (RN), é o primeiro a operar com vapor superaquecido. Ele é considerado o maior do mundo, com uma extensão aproximada de 30 km.
            Todavia, essa recuperação de poços via injeção de água, vapor ou gás (embora indispensável) não tem o alcance necessário para promover a recuperação da Bacia Potiguar como grande produtora de petróleo. Somente a ampliação e a intensificação de novos projetos de pesquisas e prospecção em busca de novos sítios produtores é que teria condições de realizar essa tarefa. E isso a Petrobras não está fazendo. A verdade é que não há novos grandes projetos de exploração no Estado. Enquanto esse é o cenário, engenheiros e outros técnicos da estatal estão sendo transferidos para outras regiões do país, notadamente para a Bacia de Campos, no Estado do Rio de Janeiro, e áreas de pesquisas do Pré-Sal.

Descobertas Recentes Trazem Novas Expectativas

            Em Janeiro de 2012, o consorcio formado pela Petrobras e o grupo empresarial português Galp, encontraram indícios de petróleo em um poço em terra na bacia Potiguar. No fim do mesmo mês, a Petrobrás encontrou vestígios de petróleo em terra em outro poço no bloco da Bacia Potiguar, embora na ocasião o poço não tivesse sido declarado comercialmente viável.
No leilão realizado pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis-ANP nos dias 14 e 15 de maio de 2013, o Rio Grande do Norte teve um total de 30 blocos ofertados, sendo 20 em terra e 10 em águas profundas. Em termos de oferta de blocos, o total da Bacia Potiguar ficava atrás somente das ofertas das Bacias Amazônicas e Tucano (esta na Bahia). Em agosto de 2013 outros blocos de exploração localizados na Bacia Potiguar foram contratos com a Agência Nacional do Petróleo.

Em novembro de 2013, a OGX Petróleo de Eike Batista (o então rei Midas da economia brasileira e que também tinha realizados empreendimentos especulativos por aqui) anunciou a venda de parte de bloco de petróleo na bacia do Estado para a ExxonMobil, empresa dos Estados Unidos. A área tinha sido arrematada pela OGX na 11° rodada de licitação da ANP, realizada em maio do mesmo ano. A entrada da Exxon Mobil Corporation (sucessora da Standard Oil Company, de John D. Rockefeller) na Bacia Potiguar representa a participação de um dos maiores e mais tradicional grupo petrolífero do mundo, o que pode beneficiar a região com a internação de novas tecnologias de produção, logística e administração da produção de petróleo.

 

A melhor notícia

 

No dia 14 de março passado, a Petrobras divulgou o seguinte comunicado ao mercado: “A Petróleo Brasileiro S.A-Petrobras informa que concluiu a perfuração do poço pioneiro [...] localizado em águas profundas da Bacia Potiguar. Os resultados comprovaram a descoberta, [...] de óleo médio de 24º API [Petróleo de densidade média, na escala do American Petroleum Institute-API, cujo maior grau é 30º. Quanto maior o grau API, maior o valor do produto no mercado]. Denominado informalmente de Pitu, o poço localiza-se em profundidade d’água de 1.731 metros, a uma distância de 55 km da costa do estado do Rio Grande do Norte. O poço atingiu a profundidade final de 5.353 metros e constatou uma coluna de hidrocarbonetos de 188 metros. Foi realizado teste de formação que confirmou as boas condições de permeabilidade e porosidade do reservatório. A partir dos resultados obtidos, o consórcio dará continuidade às atividades exploratórias previstas, com objetivo de propor a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) um Plano de Avaliação da Descoberta para a área. A Petrobras é a operadora da concessão BM-POT-17, com 80% de participação, em consórcio com a empresa Petrogal Brasil S.A., que detém 20%”.
            Notícias boas. Mas essa descoberta, para produzir efeito, demanda de muitos investimentos e três ou quatro para estruturação dos projetos, aquisição e implementação de equipamentos e produção efetiva.
Tribuna do Norte. Natal, 27 abr 2014.

domingo, 27 de abril de 2014


ATHENEU!  ATHENEU! ATHENEU! 180 anos de História

Luciano Capistrano -

Historiador/Comissão Municipal da Verdade Luiz Maranhão

Em 2012  a convite do fotografo Esdras Rebouças e das professoras Naldemir Saraiva e Nilza Carvalho, com o apoio dos gestores Marcelle Lucena e Bartolomeu Carneiro, organizamos uma Caminhada Histórica, uma exposição fotográfica e uma palestra, todas essas ações voltadas para a temática da memória de nossa cidade Natal. Momentos de muita alegria e emoção ao falarmos sobre temas como Patrimônio Histórico, tendo como palco uma das Instituições mais tradicionais do nosso estado: ATHENEU NORTE RIOGRANDENSE.

Naquele momento a escola mais antiga do Brasil, fundada em 03 de fevereiro de 1834, no governo de Basílio Quaresma Torreão, passava por um completo abandono, faltava professores, em diversas disciplinas, estruturas danificadas, o ginásio Sylvio Pedroza, antes palco de grandes eventos esportivos e do Congresso de restruturação da UMES nos anos de 1980, sem condições de uso, enfim era um caos.

Indignados com essa situação foi lançado um movimento em defesa do ATHENEU, através da Associação dos ex-alunos a sociedade potiguar organizou um abraço a escola. No dia 20 de novembro de 2012, alunos, ex alunos, gestores, organizações sindicais, enfim, a sociedade de forma simbólica abraçou o ATHENEU, abraçou a defesa da educação pública e de qualidade. A mobilização saiu vitoriosa, demorou, agora, hoje o AHTENEU NORTE RIOGRANDENSE, está em reforma.

Uma escola que respira história. Sim caro leitor (a), andar pelos corredores do ATHENEU, é “ouvir’ e “sentir” a presença de grandes mestres como Celestino Pimentel, João Tibúrcio, Luís da Câmara Cascudo, Esmeraldo Siqueira, Djalma Maranhão, Luiz Maranhão Filho, e, tantos outros professores ilustres, formadores de cidadãos potiguares, antes alunos e alunas, hoje se destacando em diversos setores da sociedade. O ATHENEU foi o nosso grande celeiro de talentos.

Nestes 180 anos de existência o ATHENEU ultrapassou os limites de uma simples escola. O ATHENEU NORTE RIOGRANDENSE, é desde 2010 Patrimônio Histórico, Tombado pelo Município de Natal, através de iniciativa da SEMURB com a coordenação da arquiteta Andrea Garcia, á época chefe do Setor de Patrimônio Histórico. A edificação construída na década de 1950 no bairro do Tirol para abrigar a escola, tem a proteção legal de sua preservação. Antes o ATHENEU, funcionava no largo Junqueira Aires, onde hoje funciona a SEMUT, desde 1954, esta no prédio atual.

Mais meu caro leitor (a), claro que uma Instituição de 180 anos tem muitos fatos marcantes, gostaria de compartilhar de um ocorrido nos conturbados anos de 1940, quando o mundo viveu seu pior momento, a Segunda Guerra Mundial, como todos sabem nesta época Natal foi transformada em Trampolim da Vitória, sediando as tropas americanas em nosso solo.

Bem , na década de 1940, era diretor do ATHENEU, o jovem e ousado professor, Alvamar Furtado. Este diretor,  organizou uma série de conferências, o ano de 1943 é marcado em nossa pequena cidade, pelas “Conferências do Colégio Estadual”.

Relembro essas conferências para demonstrar o pioneirismo e a qualidade do ensino público praticado no ATHENEU NORTE RIOGRANDENSE. Uma série de conferências realizadas por alunos apresentados pelos professores, as noites de Natal, brilhavam nas salas da ESCOLA. O Sebo Vermelho, publicou uma edição fac-símile das conferências. Nomes como dos professores Américo de Oliveira, Edgar Barbosa, Esmeraldo Siqueira e dos estudantes, Antônio Pinto, Luiz Maranhão João Wilson. Nomes que confirmam o ensino de excelência da nossa mais antiga Instituição de Ensino.

Não é objetivo deste artigo, deixemos para outro momento, relatar o descaso sofrido ao longo dos anos pelos sucessivos governos. Sim caro leitor, o ATHENEU NORTE RIOGRANDENSE, foi criminosamente sucateado. Queremos sim, festejar, celebrar e conclamar a todas e todos à refletirem sobre os caminhos e descaminhos do ATHENEU em seus 180 anos de história. Termino, com as palavras do Mestre Câmara Cascudo:

“Possa eu ter a alegria de ouvir, nas competições esportivas e nas horas de euforia estudantil, a conclamação entusiasmada e vitoriosa que sacudia, os nossos nervos vibrantes de alunos e de professores: Atheneu! Atheneu! Atheneu!”.

                               UM CACIQUE NA CORTE DA INGLATERRA
GILENO GUANABARA, do IHGRN

            Foram vários os interesses comerciais que se fizeram presentes no Brasil, após sua descoberta em 1500. A presença de franceses no atual estado do Rio de Janeiro e do Maranhão; a de holandeses no Nordeste; ou a de espanhóis, estão fartamente documentadas. Os ingleses também visitaram estas bandas e foi presença inusitada que despertou D. João III, rei de Portugal, para a gravidade da situação.

            A documentação organizada por Richard Hakluyt (English Navigations, 1548, Crashey, Londres), republicada em 1890 por Goldsmid, de Edimburgo, dá-nos a notícia acerca da presença do capitão inglês William Haukins, ao do Sul do Equador.  Foi tesoureiro da Armada Real, tinha prestígio junto à corte inglesa, navegou por mares dantes navegados pelos portugueses, que se aventuravam abrindo caminho, se apossando, ou apresando navios inimigos, sob o fogo cerrado de seus canhões.

            Numa das viagens que fez a bordo do seu veleiro, “Paule of Plymouth”, em 1532, o capitão Haukins visitou a Costa da Guiné, onde comprou escravos negros, dentes de elefante e outras mercadorias. De passagem pela costa brasileira, deparou-se com a frota de Martin Afonso de Sousa, a quem ajudou com a canhoneira de seu veleiro a destruir uma frota francesa no litoral da Bahia. Dada a sua habilidade e o trato fidalgo – íntimo da Corte de D. Henrique VIII, rei da Inglaterra – Haukins foi regozijado pela esquadra portuguesa. Em terra firme, embarcou pau-brasil e fez camaradagem com os indígenas que conhecera e a quem prometeu voltar.

            O curioso de uma segunda visita de Haukins ao Brasil foi o fato de ter deixado em terra um conterrâneo, Martin Cockeran e vários marinheiros de sua tripulação, os quais, ao tempo em que permaneceram no Brasil, estreitaram relacionamento com os nativos. A estada dos ingleses teria sido em garantia da volta do cacique indígena, a quem Haukins convidou, convenceu e levou consigo, no seu veleiro. Chegado em Londres, o cacique se hospedou na corte do Henrique VIII, rei da Inglaterra.

            Como haveremos nós outros, hoje, passados 500 anos, de avaliar a admiração que causou a presença exótica do cacique na corte, perante o trato do rei e de seus cortesãos. O cacique seminu, cobrindo a vergonha com penugens coloridas, de flecha em punho, tinha furos na pele do rosto, onde atravessavam ossos de animais, símbolo de elegância e bravura. Trazia uma pedra preciosa incrustada em orifício, na parte inferior do lábio. Tamanha glória o cacique despertou em todos os que o visitavam no palácio real. Foram dias de graça e mordomia durante um ano.

 Em respeito ao compromisso assumido, Haukins conduziu de volta o visitante ilustre de sua majestade. No entanto, dadas as diferenças de clima e alimentação, com a saúde debilitada, o cacique faleceu durante o percurso de volta. Sua morte não provocou reação dos nativos contra os ingleses.

            Na historiografia desse período, Portugal velava por outros interesses. Da Índia, recebia ouro, pedras preciosas, marfim, tecidos e especiarias. Da Guiné, a navegação trazia igual fortuna em escravos negros. O Brasil só lhe oferecia pau-brasil, macacos e papagaios. Coube ao português Antônio Gonçalves introduzir a venda dos primeiros escravos negros na Europa, no ano de 1442 (Arthur Young, Hist. das Índias Ocidentais” – 1801). O lucrativo negócio escravagista atuante desde o reinado do rei D. Henrique, o Venturoso, se tornou uma atividade bancada pela corte. Já naquele ano, falava-se da presença de 4.000 negros vindos da Guiné, trabalhando na Europa, negócio de comerciantes portugueses. No ano de 1562, John Haukins, filho do navegador inglês que estivera no Brasil, havia vendido na Inglaterra 500 negros, trazidos da Guiné. O lucrativo comércio negreiro ampliara-se e atraíra outros países da Europa.

            A qualificação da força produtiva do negro era superior a do indígena sul-americano, sendo mais rentável o investimento comercial obtido através das viagens ao Oriente. Mas, a par das insistentes incursões piratas, o ineditismo da presença inglesa na costa do Brasil vasou através dos caminhos diplomáticos de Portugal junto à corte de Londres. Afinal de contas, a Inglaterra era a senhora dos mares. Portanto, a presença dos ingleses que visitaram e aqui permaneceram, enquanto um cacique amigavelmente viajara, se hospedara e causara soçobros na corte de Henrique VIII, foi considerada muito grave. A acolhida local aos ingleses e a expansão do comércio de escravos negros, fez o rei D. João III arregimentar a esquadra que confiou a Martin Afonso, em 1532, a fim de colonizar as terras recém descobertas, doar capitanias, criar povoações pelo litoral e, ainda, combater a pirataria.

            Martin Afonso (1532) viera com 800 soldados, 350 degredados e apenas 56 camponeses e artífices, que iam sendo dispersos pelos povoados. Era muito pouco. Portugal não dispunha de população suficiente para, por si só, promover a colonização das terras da América, obter lucro e barrar o apossamento alienígena. Com a denunciação da presença inglesa no Brasil feita pelo rei de Portugal ao rei da Inglaterra, ficou acertada a compra de pau-brasil diretamente de Lisboa, reconhecido o monopólio e o domínio português. A escravatura negra veio ao encontro das necessidades de mão-de-obra do Nordeste açucareiro, português, eclesiástico, medieval e monocultor. Cristãos novos, comerciantes da metrópole, agentes nativos locais e chefes tribais africanos, organizaram o mais importante tráfico pré-capitalista com braços na América, só compatível à estrutura econômica do açúcar idealizada pela comunidade sefardita luso-holandesa. O negro escravo tornou-se parte integrante dessa engrenagem. No Sul, pela audácia dos mamelucos paulistas, mesmo contrariados pela ação dos “homens de preto” que eram os jesuítas, o ouro descoberto nas minas gerais serviu para fomentar a revolução industrial inglesa que se avizinhava.