sábado, 31 de maio de 2014

D. Anna Joaquina do Nascimento, a índia braba

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Como registrei no artigo anterior, Joaquim José de Mello Pinto casou em 1833, em São José de Mipibú, com Izabel Maria de Alexandria. No ano de 1834, aos três de dezembro, nasceu Francisco Xavier de Mello Pinto, primeiro filho do casal, que foi batizado aos 31 do mesmo mês e ano, na capela do Ferreiro Torto, sendo padrinhos Francisco de Freitas Costa (que foi testemunha do casamento) e Maria José de Jesus, mãe de Izabel. Nessa data, o casal morava em Tabatinga, aqui em Macaíba. Não encontrei outros filhos de Joaquim e Izabel. Mas, aos três de novembro de 1843, Joaquim José de Mello Pinto ficou viúvo de Dona Izabel, moradora, ainda, em Tabatinga, que foi sepultada na Capela de Jundiaí.
Em setembro de 1865, na Tabatinga, foi batizado Cândido, com dois anos de idade, filho natural de Francisco Xavier de Mello Pinto e de Francisca Genuína Ferreira, tendo com padrinhos Joaquim José de Mello Pinto, avô de Cândido, e Maria Teixeira de Mello. Dois anos depois, em 16 de outubro, na Tabatinga, Francisco Xavier de Mello Pinto casou com Francisca, nessa data, viúva de José Alexandre da Silva. No ano seguinte, ainda, morador de Tabatinga, Francisco faleceu e foi enterrado no cemitério de Jundiaí.
Não encontrei um segundo casamento de Joaquim José de Mello Pinto. Viúvo, é possível que esse Joaquim José fosse o mesmo que faleceu, em 1867, na Casa de Caridade, embora constasse como casado no registro de óbito e, portanto, poderia ser o bisavô do meu primo João Batista.
Mas, eu tinha os anos de nascimentos do velho João Baptista de Mello Pinto e dos seus irmãos. Procurei os registros de batismo, da Freguesia Ceará-Mirim, desses filhos de Joaquim José de Mello Pinto, mas nada encontrei. Aí, procurei os registros de casamento de um deles. O registro do avô do meu primo, João Baptista de Mello Pinto, que casou em Angicos, não continha o nome dos pais dos nubentes. Mas, encontrei o registro do casamento de um irmão dele, conhecido por Zumba, de nome José Gomes de Mello Pinto, que me surpreendeu, e que transcrevo para cá.
Aos vinte e nove de dezembro de mil oitocentos e oitenta e seis, depois de feitas as diligências do estilo, sem impedimento algum, nesta Matriz de Ceará-Mirim, em presença das testemunhas capitão Bonifácio Vieira Goveia e João Baptista de Mello Pinto (esse casou com minha tia-avó Maria Rosa), uni em matrimônio os contraentes José Gomes de Mello Pinto e Maria Clotilde Varella Borges; ele filho natural de Anna Joaquina do Nascimento e ela filha legítima de João Varella Borges e de Maria Varella de Oliveira, e assistiram as bênçãos nupciais no dia dois de janeiro de mil oitocentos e sete, ambos os contraentes naturais e moradores nesta Freguesia. O Vigário Frederico A. Raposo da Câmara. 
Com a informação acima, e as que seguem abaixo, descobri que o avô do meu primo e os irmãos deles eram filhos naturais de Anna Joaquina do Nascimento e, por isso, a procura por filhos de Joaquim José de Mello Pinto, tinha sido infrutífera. Voltei aos batismos para procurar os registros dos filhos de Anna Joaquina do Nascimento. Aí, encontrei os batismos, que seguem abaixo, com exceção de Zumba, pois a microfilmagem dos livros de 1863 está ilegível.
João Baptista de Mello Pinto, branco, filho natural de Anna Joaquina do Nascimento, nasceu aos dez de junho de1860, e foi batizado pelo padre Luiz Fonseca Silva, aos 17 de julho do mesmo ano, sendo seus padrinhos Francisco José de Mello e Rita Coralina do Espírito Santo.
Francisco (do qual não encontrei outros registros posteriores), índio, filho natural de Anna Joaquina do Nascimento, nasceu aos três de fevereiro de 1861, e foi batizado aos trinta de agosto do mesmo ano, pelo vigário Luiz da Fonseca Silva, sendo seus padrinhos José Pegado de Oliveira e Joaquina Maria da Conceição, casados.
Manoel de Mello Pinto, branco, filho natural de Anna Joaquina do Nascimento, nasceu aos dezoito de outubro de 1864, e foi batizado pelo vigário Luiz da Fonseca Silva, aos vinte e oito do mesmo mês e ano, sendo seus padrinhos Joaquim Rodrigues da Silva e sua mulher Maria Rosa do Sacramento e Silva.
Francisco de Mello Pinto, branco, filho natural de Anna Joaquina do Nascimento, natural da Freguesia de São José, e moradora na de Ceará-Mirim, foi batizado aos trinta e um de maio de 1866, na casa de oração da Vila de Ceará-Mirim, pelo padre Targínio Pinheiro de Carvalho, sendo seus padrinhos João Victorino Ferreira Nobre e sua mulher Dona Anna Ferreira Nobre Pelinca.
Nos registros acima, é através do primeiro Francisco, que fica confirmado que Anna Joaquina do Nascimento era índia, além de ser natural de São José de Mipibú. Através de velhos jornais do Acre, onde foi morar, descobri que o segundo Francisco nasceu no dia 1 de maio de 1866.
Segundo os bisnetos João Batista de Mello Pinto e José de Mello Pinto, Dona Anna Joaquina do Nascimento, com a morte do pai dos seus filhos, foi lavar e passar, na Vila de Ceará-mirim, para poder sustentar a família. Dizem mais que ela era muito braba, e que Zumba, seu filho herdou essa brabeza. Zumba foi assassinado em Recife.
Para concluir transcrevemos o casamento de Nestor de Mello Pinto, filho de João Baptista de Mello Pinto e Maria Rosa da Trindade, e neto paterno de Dona Anna Joaquina do Nascimento: Aos vinte de novembro de mil novecentos e dezoito, na Fazenda Santa Luzia, em presença das testemunhas André Avelino da Trindade e Manoel de Mello Pinto, servatis servandis, assisti o recebimento matrimonial de Nestor de Mello Pinto e Luisa Rita da Trindade, solteiros, naturais, ele de Ceará-Mirim, e ela desta Freguesia, e previamente dispensados do impedimento de 2º grau de sanguinidade. Padre Júlio Alves Bezerra (tio do escritor Afonso Bezerra).
Luisa era filha de Joaquim Felippe da Trindade e Rita Emiliana de Assis Barbalho, aquele irmão de Maria Rosa da Trindade, e de André Avelino da Trindade. Manoel de Mello Pinto, tio de Nestor, casou a segunda vez com Anna, irmã gêmea de Joaquim Felipe.
Nestor e Luisa

sexta-feira, 30 de maio de 2014



CLEANTHO SIQUEIRA (2)

Jurandyr Navarro
Procurador do Estado, aposentado, e Presidente
do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Antes de completar o tempo na Companhia Quadros para tornar-se Reservista, Cleantho Homem de Siqueira passou um tempo servindo como funcionário da Estrada de Ferro, repartição federal onde o genitor, Carlos, ocupava cargo de direção.

Por essa quadra da sua juventude ele tinha amizades, naturalmente, com a meninada da sua idade. Os Pedroza, Walter, Petrônio, Murilo e outros irmãos, da rua Uruguaiana, com os quais queimavam e rasgavam Judas, pendurados nos postes, nos sábados de Aleluia, ao toque das badaladas do sino da igreja da Matriz!

Tomava parte de brincadeiras outras, de brigas, as incontáveis brigas de ruas, que faziam confluência com a da Estrela, com Demóstenes e os irmãos Leléu e Fafá; Rui Parrudo, Lourival Cara-olho, da rua dos Tocos; Nilo da rua Mossoró; e outros.

Quando não, era a subida aos morros do Tirol, a descida à praia do Meio e ao Rio Potengi, assistir brigas de galo, caçar sibite, sanhaçus do papo amarelo e outros pássaros, em quintais, armados de baladeira, e outras diversões.

Proibido mesmo era ficar parado.

O avanço da idade ia mudando as amizades. Chega a vez dos irmãos Bezerra, Luiz, José e Manuel Augusto nos verões da Areia Preta e Praia do Pinto, eles, sempre acompanhados de José Mauro de Vasconcelos, o célebre autor de “Meu Pé de Laranja Lima”. Ao lado deles, apareciam, de vez em quando, Armando Viana e, às vezes, o irmão brincalhão, Aldo, irmãos que eram da bela Nair, namorada de Cleantho.

Por esse tempo, predominava a pesca e a natação, naquela ponta de mar, da praia encantada.

Evoluindo no seu deleite pela pescaria, Cleantho se torna, salvo engano, um dos fundadores do Pâmpano Sport Clube, cuja sede funcionava na Praia do Meio.

E numa dessas partidas ou torneios do Pâmpano, sucedeu o episódio que quase se transformou em tragédia, do então menino que ficou, durante horas, numa das locas do chamado Poço do Dentão, episodio que Cleantho presenciou e que deu o seu esforço para salvá-lo.

Essa inclinação pelo esporte, levou-o a pertencer, ao lado de Aluízio Menezes e Luiz G. M. Bezerra, ao Conselho Regional de Desportos e da Fundação de Esportes de Natal.

No tempo da conclusão do Curso da Companhia Quadros, que fez ao lado de Aluízio Alves, este depois, grande político, Cleantho foi convocado para o Exército. E no posto de Sargento, se inscreve como voluntário  à Força Expedicionária Brasileira, partindo, em 1944, para a Itália.

Fazia parte do décimo primeiro Regimento de Infantaria de São João del-Rei, das Minas Gerais.

Permaneceu alguns meses em solo italiano, antes de retornar ao Brasil. Contou, certa vez, que terminado as suas hostilidades, presenciou cenas horripilantes, com a miséria instalada nas cidades e povoações arruinadas pela guerra, onde imperava a fome, e as crianças desamparadas, doenças e violências indomadas.

Passou dias e noites  intermináveis sofrendo no corpo e na alma, as agruras de uma guerra que ele tomou parte ativa, em terra estranha.

Não foi acometido de neurose como tantos outros, porém, contava ter tido pesadelos que o atormentaram por algum tempo.

Certa vez, em escaramuças de trincheira, uma granada, lançada pelo inimigo, explode perto dele, sangrando os seus ouvidos, fato que o fez baixar ao hospital de campanha.

De volta à pátria, durante a viagem, tem o nome relacionado para continuar no Exército, a seu pedido.

Instala-se em São João del-Rei, nas Alterosas. Nos ares mineiro conhece uma linda moça de nome Maria de Lourdes, com quem contrai casamento. Desse enlace matrimonial nasceram oitos filhos: Carlos, Eleonora, Pedro Marques, Henrique Afonso, Everaldo, Ana Maria, Gustavo e Rodrigo.

Retornando a Natal é incorporado no décimo sexto Regimento de Infantaria e depois passa a servir no Quartel-General da Guarnição.

A sua reforma dá-se no ano de 1973, na patente de Major. Tem 51 anos de idade.

É lembrado pelo então Magnífico Reitor, Genário Alves da Fonseca, que o leva para a UFRN, onde permanece até 1991, aos 69 anos.

Na Universidade ele dirige a Divisão de Atividades Desportistas e depois a Coordenadoria do Restaurante Universitário.

No governo estadual ele exerceu vários mandatos na Comissão de Moral e Civismo, chegando a presidi-la, por algum tempo.

Como militar recebeu várias Medalhas, a saber: - Medalha de Ouro (30 anos de bons serviços prestados ao Exército); Cruz de Combate de Segunda Classe e Ordem de Mérito Militar, no grau de “Cavaleiro”.

Pertencente a uma família de ascendentes inteligentes, ele também o foi. Admirava a todos a sua precocidade em ler jornais aos seis anos incompletos de idade, numa época em que a meninada iniciava a soletrar aos sete anos!

Já em idade madura, teve a idéia ou foi sugerido por amigos, para escrever um livro sobre a guerra que participara. E ele, depois de alguma reflexão, o fez. Trata-se de uma obra bem escrita, com estilo claro e de conteúdo importante para os anais da nossa História, já que relaciona todos os riograndenses do norte que participaram daquele conflito bélico.

Tive o grato ensejo de prefaciá-la. Tem ela as suas orelhas apresentadas pelo historiador Olavo de Medeiros Filho, de saudosa memória.

O livro em questão foi re-editado pela Editora da UFRN.

Antes de adoecer, chamou-me à sua casa e deu-me um presente régio: - uma bela enciclopédia de doze volumes, contando cento e cinqüenta e seis colaboradores. Uma beleza!

Cleantho Homem de Siqueira deixou escritos esparsos e algumas Palestras por ele proferidas em ambiente militares e em Colégios, ministradoras do civismo pátrio, uma dessas palestras recebeu o elogio público do intelectual Veríssimo de Melo.

Foi ele um cidadão honrado, católico praticante, amigo dos amigos, tolerante, apaziguador e exemplar pai de família.

Deixou saudades.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O guerreiro




CLEANTHO SIQUEIRA



Jurandyr Navarro

Do Conselho Estadual de Cultura


A despedida foi pesarosa no último momento. A família e amigos se reuniram, no ritual religioso da encomendação da alma de um justo.

Momento de reflexão e saudade, dos anos passados. A evocação remonta o tempo decorrido, de floridas primaveras. A casa da tia Aracy, na rua da Estrela, com o imenso salão, onde se almoçava, ouvindo o melodioso gorgeio dos passarinhos, em viveiros encerrados. As brincadeiras no imenso quintal, de paisagem bucólica, parecido mais com um sítio. O futebol na rua Apodi. Os encontros, quase  diários, na residência do avô Rodrigo Afonso, na rua Camboim. As festas de aniversários dos irmãos e primos, sob o som da saudosa vitrola.

Com a chegada do mês de setembro, os preparativos eram feitos antevendo a descida da Praia da Areia Preta, para os banhos de mar do veraneio. A estação quente trazia a pescaria com o anzol e do aratú, esta, em noites de lua cheia, com a maré sêca.

E ele, sempre o guia, com o facho de óleo aceso, a iluminar as locas dos caranguêjos.

As chuvas repentinas, do cajú, marcavam a subida aos morros e a descida de prancha no morro do Pinto.

O futebol na praia e defronte à casa do “velho” Rodrigo, nosso avô.  A saida, à madrugada, para a caminhada, à beira-mar, até Barreira-Roxa, local do piquenique programado, e noutra data, na Fortaleza dos Reis Magos.

E a nataçao, nas ondas bravias, na maré alta do mês de janeiro.

Dias, em que os ventos eram favoráveis, para soltar corujas ou papagaios, com linha vinte, comprada na bodega da turca, na Praia-do-Meio. Ou, então pregar corropios nas colunas de madeira do alpendre da casa.

Quando soprava o vento norte, trazendo frieza era sinal da  volta à cidade, para o início das aulas, no colégio Marista.

A sua  vida é rica de fatos havidos, envolvendo a sua pessoa, cheia de ardor cívico e dotada de índole pacífica.

Convocado para o serviço militar, ele se apresenta como voluntário, para as fileiras da Força Expedicionária. E participa da batalha de Monte Castelo, na Itália.

Anteriormente, três fatos ocorridos com ele, gravados ficaram na minha memória.

O primeiro deles foi a queda do alto do pé de genipapo, no quintal da sua residência, da mencionada rua da Estrela, fraturando uma de suas costelas.

Outro, quando pescava numa tarde na praia da Areia Preta. O peixe pescado foi ele mesmo. É que, ao fazer o lance para atirar a linha com o anzol, na água, o dito anzol cravou-se-lhe nas próprias costas. Inúteis as tentativas para a sua retirada. Até mesmo um pescador, que passara na ocasião, impossibilitado ficou de fazê-lo.

Chegando em casa o meu pai foi o “cirurgião”, retirando o anzol, cortando o couro das costas com uma tesourinha, a crú, ficando a assepsia por conta de meio vidro de álcool e fechado com iôdo, gase e esparadrapo!

O terceiro caso é pitoresco. Numa frondosa mangueira do dito quintal da sua casa, ele têve a idéia de fazer uma cama, sim, uma cama, nos galhos altos da árvore! Às vezes, à tarde, nela tirava uma soneca!

A evocaçao gera a saudade, de um tempo perdido no tempo e que não volta mais.

Tempo em que ele, o primo mais velho, era o guia, em muitos momentos, o guia da parentela em idade juvenil.

E o tempo que manda em tudo, vai mudando o rítmo dos acontecimentos e então chega a idade quase adulta, responsável pela separação. E cada um vai tomando o seu rumo. Mesmo assim, a união consaguínea permanece e esse vínculo natural mantém a amizade fraterna.

O tempo avança e mesmo na fase adulta e subsequente, da “melhor idade”, os primos mais “moços”, em ocasiões especiais, com ele se reuniam, para no encontro festejar e dele ainda ouvir seus sábios conselhos.

quarta-feira, 28 de maio de 2014



F R A G M E N T O S   D O   T E A T R O   E M   S Ã O   P A U L O
Por: Gileno Guanaraba, sócio do IHGRN

            A primeira notícia fora a encenação da catequese pelos jesuítas. Nos alfarrábios do Instituto Histórico de São Paulo, nos tempos coloniais do Conde de Sarzedas, o primeiro teatro localizado no largo do Palácio, chamado Casa da Ópera. No seu  camarote nº 11, em noite de gala, o padre Ildefonso Xavier Ferreira proclamou D. Pedro, rei do Brasil. Ali, o sábio francês Saint Hilaire assistiu a encenação da comédia O Avarento. Os atores eram mulatos; acadêmicos travestidos; e as atrizes, mulheres públicas. A plateia era dividida, homens de um lado e mulheres do outro.

 Depois o Teatro S. José, cuja construção data do ano de 1852, só em 1864 foi inaugurado provisoriamente, com a encenação de três peças: Tunica de Nessus, de autoria do acadêmico Sizenando Nabuco (irmão do diplomata e escritor Joaquim Nabuco); O Bobuletismo; e Por Direito de Conquista, encenadas por artistas locais.

No ano de 1876, aquele espaço cultural foi restaurado, retomando a sua importância para as artes cênicas. Com a sua reinauguração, organizou-se uma companhia dramática, para trabalhar no Teatro inteiramente reformado. Faziam parte empresários e os atores Joaquim Augusto; Henrique Costa; João Eloy Quesado; Paulo Petit; e as atrizes Maria Velluti; Júlia Carlota; Minervina Gonçalves; Maria Lima; Balbina Montani, dentre outros. Nesse tempo, apresentou-se a Companhia Lírica Italiana, com a ópera Lúcia de Lamermoor (soprano Adelina Cortesi; tenor Selmi; cantores Spallazi, Silvestroni e Frivero).  

Em 1898, o São José foi alvo de um incêndio e finalmente demolido em 1912. Três dias antes do sinistro e a dúvida da última encenação: ou a peça Há caça...e caça, direção de Moreira Sampaio, da Companhia do Teatro Apolo do Rio de Janeiro; ou a Morgadinha de Valflor, de Pinheiro Chagas, pelo grupo de amadores Gil Vicente.

            O Teatro S. José acolheu artistas renomados, dentre eles o italiano Ernesto Rossi, na época, um dos maiores interpretes de Shakespeare. Chegado pelo trem do Norte, foi recebido na estação. De lá a multidão o acompanhou até o Grande Hotel, de cuja sacada discursou em agradecimento aos que o aplaudiam. Apresentou a tragédia Othelo. Seguiram-se Romeu e Julieta, e Hamlet. Tomado de entusiasmo, um dos espectadores não se conteve: O orador vale o ator. Ambos são grandes. A influência de Rossi  contaminou os acadêmicos que se sentiam os próprios príncipes dinamarqueses, a repetirem, de capa espanhola e bengala: Essere o non essere. Eco il problema.

            A boa lembrança de Ernesto Rossi perdurou, enquanto os espetáculos se sucediam e remanesciam os seus efeitos. Quando da apresentação por artistas amadores da peça Quem é o pai da Criança ?, a dúvida suscitada diretamente à plateia, um excelentíssimo senhor doutor acadêmico respondeu de bate pronto: Pois não sabe, seu calouro ? O pai é você. Mas se não for você, é o Rossi”.

            O ator Giovanni Emanuel, também interprete de Shakespeare, representou no São José Othelo e Rei Lear. Nesta última, causou espécie a cena em que o rei reclama a demora dos cavalos e lança a maldição sobre os filhos que se esqueceram dele e lhes dirige a maldição dos netos.

            Gloriosa foi a passagem da musa francesa Sarah Bernhardt por São Paulo, em junho de 1886. A sua estreia constou do drama Fedora de Vitoria Sardou. Ao encerrar a sua apresentação, o público em delírio a conduziu ao Grande Hotel, enquanto os acadêmicos estendiam as suas capas pretas, a fim de a atriz não pisar no chão. De um espectador entusiasmado: Pensava que raios de inteligência fossem figuras de retórica. Mas, não são. Eu vi tudo isso em Sarah Bernardt”.

            O Teatro S. José abrigou personalidades da ópera lírica (Maria Durand; Taragno; Batistini; Storti; Bulterini, Faletti, dentre outros). Ecoaram as apresentações de Huguenotes; Dinorah; Fausto; Gioconda; Carmem; Guarany; Salvador Rosa; Tosca e outras.          Marcou época a apresentação do maestro Antônio Carlos Gomes. Recebido com ovação, a multidão o conduziu até a Rua da Imperatriz (atual Rua 15 de Novembro), onde se hospedou. Ao final da apresentação de O Guarani, foi saudado pelo bacharel Affonso Celso Júnior: Maestro, o povo e a classe acadêmica de São Paulo fizeram do seu entusiasmo uma escada para chegar até vós, que sois a mais bela gloria nacional.

            O Teatro S. José acolheu sessões cívicas, cujos oradores notabilizaram-se nas letras e na política: Castro Alves, José Bonifácio, Assis Brasil, Affonso Celso, Silva Jardim, Rui Barbosa, dentre outros tribunos. Das celebridades que deixaram no livro de registro suas passagens pelo teatro, o autógrafo de Sarah Bernardt: Messieurs. C’est avec une profunde émotion que je responde à votre simpathie.....et votre pensée rencontrera la mienne torjours émue et reconnaissante. Vive le Brésil.   

No ano de 1873, inaugurou-se em São Paulo o Teatro Provisório Paulistano, por iniciativa de Horácio de Souza Muniz e Cia. A cerimônia de batismo constou de discursos e foi apresentado o drama Helena, pelo grupo dramático Seis de Janeiro. Ganhando novas instalações, recebeu o nome de Teatro Sant-Anna e funcionou até o ano de 1911, quando foi demolido e deu lugar ao Viaduto Boa Vista. Na inauguração do Paulistano foi apresentado o drama A Calúnia, escrito pelo poeta Carlos Ferreira, antecedida pela recitação do poema A Arte !, do mesmo autor, pela atriz Rosina Muniz. Durante a inauguração foi encenado A República dos Pobres, com   participação do Coral Germano, cânticos alemãs sob a direção do maestro Gabriel Girandon.     

Ao mecenas e prefeito da cidade, Antônio da Silva Prado, os paulistas devem muito pela existência do Teatro S. José, bem como pela concepção do suntuoso Teatro Municipal de São Paulo, que o substituiu, construído e mantido até os dias atuais com a mesma pompa arquitetônica clássica, desde 1912. Naquele ano, foi reinaugurado em Natal o Teatro Carlos Gomes, obra do arquiteto Herculano Ramos.

           

terça-feira, 27 de maio de 2014



        O poeta e a Praça
Augusto Coelho Leal, engenheiro civil


            Não conheço outra Praça em Natal cantada em versos, pode até ter, mas sinceramente não conheço. “Pio X praça que desapareceu/Praça de muitas recordações/Foi lá que o nosso amor nasceu/ Onde guardei meu coração.” Este é um pequeno trecho da música – Praça Pio X de autoria do poeta, cantor, compositor e violonista Airton Ramalho.

            O poeta. Airton nasceu em Campina Grande, Paraíba. De uma família de músicos, primo de Hianto de Almeida, ainda criança veio morar em Natal. Traz no sangue a verve dos poetas e escritores paraibanos. Quando moço, seresteiro, boêmio, bom violonista, fez muitas serestas para moças natalenses, cantado e acompanhando outros jovens da sua época. As suas composições mais famosas são: Praça Pio X, Baião do negrinho, A vedete do Seridó, O passarinho, Esta última em parceria com outro grande artista potiguar, nosso, Chico Elion.

            A Praça.  A Praça Pio X, ficava onde hoje é a nossa Catedral Metropolitana. O terreno onde foi construída pertencia a Diocese de Natal, falam que sua construção iniciou lá para os anos de 1900. Era o pároco de Natal o padre João Maria. Foi ele que teve a idéia de construir a nova Catedral. Para se ter uma noção de tempo, o local era um grande sítio, onde existiam arvores, e um grande matagal.

            O padre João Maria com muita luta para conseguir recursos e com ajuda do povo que ia buscar pedras nas praias de Natal, começou a construção da Nova Catedral, para época, um prédio de uma arquitetura grandiosa. O padre morava um pouco distante e andava a pé para coletar recursos, por isso a população deu de presente um burro, que lhe servia de montaria. O padre João faleceu no ano de 1905, e com ele foi para o tumulo, o sonho da construção da Nova Catedral.

            Os arredores daquele terreno passaram a ser habitados por pessoas ilustres e com boa situação financeira. O que ficou em pé da construção, teve que ser demolida, a Prefeitura resolveu construir uma praça, que servia como parque. Depois construída a Praça, que tomou todo quarteirão formado pela Avenida Deodoro, Rua Açu, Rua Jundiaí e a Rua Fontes Galvão.

            Diferente da Praça Pedro Velho, a Praça Pio X quase não tinha árvores grandes. No local durante o dia, fazia muito calor, por isto era frequentada mais no final da tarde e a noite, onde servia de encontros para namorar sentado nos bancos (eram poucos) ou bater papo. Também lá não existia quadra para práticas esportivas, nem parques para crianças, era uma praça mais de passeio a pé.

            A Praça se não me falha a memória, tinha o piso em ladrilhos hidráulicos de cores branca ou cinza, e vermelho contrastando com a cor clara, formando vários desenhos em grandes faixas. No centro havia um coreto em forma de avião, que tinha uma escada que dava acesso ao pavimento superior um cimentado liso, com muretas e postes de iluminação, que servia para retretas das bandas de músicas e show de alguns artistas. Na parte inferior, funcionava um bar, ponto obrigatório das madrugadas de jovens e adultos.  Do alto do avião, tinha-se uma vista panorâmica de toda Avenida João Pessoa, incluindo aí o famoso Grande Ponto. A praça servia também para festas religiosas e populares, além de comícios políticos. Lembro-me bem da Festa da Mocidade, que era um grande parque de diversão, frequentada pela sociedade de Natal, com divertimentos para adultos e crianças. Lembro-me que eu e meus irmãos juntamente com papai e mamãe íamos com as melhores roupas para este evento. Roda gigante, carrossel de carrinhos e cavalinhos, carros elétricos conhecidos como bate e volta, trem fantasma, vários jogos para adultos, tiro ao alvo e outros.

            Ao lado da praça, ficava um grande prédio onde funcionou o Cinema Rio Grande, o melhor cinema de Natal e um dos maiores prédio da cidade. Em frente funcionava o Centro Cearense que na minha juventude, um ponto de encontro para jovens e adultos.

            “Praça o teu nome vão guardar/ E quem lá foi namorar/ Não esquecerá/Breve tu serás a Casa de Deus/ Eis aqui nossa homenagem/E também o nosso adeus.”

            Assim escreveu e cantou o poeta, prestando suas últimas homenagens a praça dos seus sonhos. A praça de suas belas recordações, de uma juventude feliz e sadia. As imagens saíram dos seus olhos, mas ficaram e ficarão eternamente em suas lembranças.

           

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A voz do povo



O Puxa-saquismo na Boca do Povo

(*) Gutenberg Costa

            Na cultura do povo ele é conhecido como chaleira, cheleléu, bajulador, estende tapete, prepara a cama, serviçal pra tudo. Não existe raça pior de gente nesse mundo para o povo. O puxa saco é irmão legitimo do delator. Pobre não tem puxa saco e rico nenhum dele escapa... Na boca do povo ele não é bem elogiado...

            Todo puxa-saco de político é como gato, se acomoda fácil a um novo dono, desde que tratado bem com um cargo comissionado. Caindo peixe ou carne debaixo da mesa do poder, o tal puxa-saco logo engorda e roça agradecido o rabo na perna do governante, que antes nem bem conhecia ou havia votado. Alguns se expõem ao ridículo de providenciar duas bandeiras ou dois adesivos, para serem usados em caso de vitória de um dos mais fortes a chegada ao poder. Todo puxa-saco fica em cima do muro esperando pular para os braços do vencedor e é feito tapioca – vira de lado instantaneamente conforme um possível convite a ocupar um disputado e sonhado birô. Adora ser chamado de chefe e andar em carro oficial. Organiza divinamente aniversário ou casamento, seja de seus superiores ou agregados. Riem de piadas velhas contada nos gabinetes e até choram ao tomarem conhecimento da morte do papagaio ou cachorro de quem lhes indicou para o tal cargo que ocupam. Nenhum matemático ou físico calcula a fortaleza de um puxa-saco de plantão sedento de um cargo no poder. Tem gente que assume cargo comissionado há mais de 30 anos aqui no RN. Para o puxa saco não existe partido político... Agrada a Deus e o diabo ao mesmo tempo! Alguns sobreviveram à ditadura e ultrapassaram os tempos das bandeiras verde e vermelha do aluizismo/dinartismo. Pode ter servido os Maias, como pode agradar hoje ao PT. Vergonha não existe em seu dicionário! Topa tudo por todos os meios. Será que o apóstolo Pedro não teria puxado o saco de Cristo, ao cortar a orelha daquele soldado? 

            Das duas uma, ou são muitíssimos competentes ou muitíssimos subservientes. Esse tipo de puxa-saco é tal qual peixe fora dágua. Sem o cargo morrem, por falta de ar (ar-condicionado e motorista particular). Tem poderes que até o sobrenatural duvida. Ou seja, são muitos mais fortes do que até mesmo o poder transitório do RN. Estes grudam no poder que nem cola super bonde. Estrategicamente se organizam, sem ter sindicatos. Bajulam a Deus e ao diabo ao mesmo tempo. A sua religião, o seu time de futebol e o seu partido politico são o do chefe!

O assunto ‘bajulação’ já rendeu até livro de autoria do escritor Nestor de Holanda, com titulo – O Puxa-saquismo ao alcance de todos – Cartilha da Puxação sem Mestre, 205 paginas, editora Letras e artes, RJ. Segundo o citado autor, Puxa-saquismo vem do latim - ‘adulatio’. Esta maldita arte também é chamada de chaleirismo ou puxação de saco. O tipo puxa-saco é também agraciado com as denominações populares de ‘adulador’, ‘bajulador’ ou ‘louvaminheiro’. Seu santo protetor é Santo Onofre, devido o mesmo ser retratado puxando um saco. Dizem que todo político adora ter por perto um puxa-saco. Aquele que carrega a sua bolsa, atende ao seu celular e outras coisinhas mais... Tem puxa-saco que até perdeu ou deixou amigavelmente a sua mulher para o patrão ou chefe. O que mais importa para um puxa-saco é aumento de salário e graduação - mulher é o de menos... Entre os nossos Índios não havia essa praga, mas sabe-se que o puxa-saquismo foi historicamente trazido nas Caravelas de Pedro Álvares Cabral. O Rei foi logo adulado nas cartas de Pero Vaz de Caminha. E haja bajuladores ao senhor seu Rei. A nossa história é recheada de históricos aduladores, segundo o literato Nestor de Holanda. O ‘Chalaça’ bajulava Dom Pedro I, O Conde ‘d’Eu’ chalerava o sogro Dom Pedro II. ‘Amaral Peixoto’ puxava o saco de seu sogro Getúlio Vargas, embora o bajulador oficial fosse ‘Gregório Fortunato’. ‘Felinto Müller’ e ‘Golbery do Couto e Silva’ eram chaleiras de militares e presidentes da ditadura. Collor tinha ‘seu’ ‘PC Farias’. Carlos Lacerda teve em vida vários bajuladores, o mais conhecido foi o ‘Raul Brunini’.

A voz do povo diz que o puxa-saco é quem grita quando o chefe leva uma topada. Fulano é tão baba-ovo que se atirar nos testículos de seu chefe é capaz de acertar em sua boca. O puxa-saco é o último a acreditar na derrota eleitoral de seu chefe político. Ele sempre procura trazer novas fofocas que agradem ao seu chefe. É oferecido para tudo, desde preparar churrasco em dia de domingo a levar os filhinhos de seu chefe à escola. Esse tipo lambe – botas está sempre por perto a elogiar tudo que é feito pelo chefe. O lema do puxa-saquismo é esse: ‘Manda quem pode, obedece quem tem juízo’. Tem genro que chama sogro de ‘paizão’ e logo consegue um bom emprego com o sogro. Alguns depois de efetivados, tratam logo de deixar a filha querida do besta do sogro. É o chamado ‘conto’ do genro puxa-saco. Diz o povo que só os loucos e as crianças não puxam – sacos. Quase todo mundo puxou o saco de alguém pelo menos alguma vez na vida. E a boca do povo afirma que o diabo aceita todo tipo de gente no inferno, menos dois: o delator e o puxa-saco! Sendo assim os folcloristas, aconselham a quem não é puxa saco a procurar outro lugar alternativo, pois o céu está cheio deles...


(*) É presidente da Comissão Norte Rio Grandense de Folclore.

domingo, 25 de maio de 2014

O GÊNIO DE MACAÍBA



AUGUSTO SEVERO

 

Jurandyr Navarro

Do Conselho Estadual de Cultura

 

"Onde estiver o PAX estará o Brasil", proclamara o aeronauta rio-grandense-do-norte na sua empolgação sonhadora.

Augusto Severo foi um gênio inventivo. Notável pela invenção da aeronave no Brasil. Imitou, de certa forma, Leonardo Da Vinci que desenhou aeroplanos e estudou o voo das aves.

O sonho humano tornou-se realidade. Tudo começou com a fábula de ícaro com suas asas de cera...

Severo sucedeu a Jacques Montgolfier, que inventou o balão aerostático, auxilia­do pelo irmão Etienne. Ambos descobriram que o ar quente expande-se, ficando, assim, mais leve que um volume igual de ar frio. A experiência fora aplicada em balões, com êxito positivo, em Paris, quando no ano de 1783, um balão de ar quente conduziu, elevando à atmosfera, o físico François Pilatre de Pozier e um companheiro. Foram eles os primeiros astronautas da História (Asimov, 1989).

Inteirado estava também Severo da contribuição do gás hidrogênio - ar de fogo -, estudado por Cavendish, gás mais leve que o ar quente e possuía uma flutuabilidade muito maior e permanente. E que, em agosto de 1783, Charles construiu o primeiro balão desse gás, conseguindo, pioneiramente, subir com ele à altura de aproximada­mente três quilômetros. Um século depois, um inventor germânico, Ferdinand Adolf August Heirich von Zeppelin, concebeu a ideia genial de aerodinamizar um balão, para que sofresse menos a resistência do ar. Conseguiu sucesso, concebendo-o na forma de um charuto, com a novidade de ser auto-manobrado, não ficando como antes, à mercê dos caprichos dos ventos. Para atingir esse resultado foi aclopada uma gôndola que carregava um motor de combustão interna e um propulsor. Recebeu o nome de balão dirigível, abreviado, depois, para dirigível, simplesmente ou chamado,também de Zeppelin, nome do seu inventor.

Esses e outros inventos foram acompanhados na sua evolução científica pela mente arguta e penetrante do nosso conterrâneo ilustre.

Roger Bacon, monge franciscano (1214-1294), precursor do método experimen­tal, prognosticara:

"É possível fazer máquinas para a navegação sem remos, de modo que os grandes navios serão movidos por um único homem, e com mais velocidade do que se estivessem cheios de tripulantes (... ) Máquinas voadoras também poderão ser construídas e nas quais o homem gire um mecanismo com asas artificiais no ar como um pássaro em vôo. Também se poderá fazer uma pequena máquina para caminhar pelos rios e mares, e até mesmo no fundo, sem perigo".

Augusto Severo foi o primeiro aeronauta brasileiro, com o dirigível "Bartholomeu de Gusmão", em 1894, em Realengo, Rio de Janeiro, assinalou o historiador natalense Luís da Câmara Cascudo.

No seu tempo, Alberto Santos Dumont também tratou da ciência aeronáutica, que daria, com o passar dos anos, um gigantesco impulso ao progresso civilizatório.