domingo, 30 de novembro de 2014

Cada vez mais a gente se apequena. Veja notícia de 1941 do jornal "A Manhã".

Cada vez mais a gente se apequena. Veja notícia de 1941 do jornal "A Manhã".
A Tipografia Lira

Elísio Augusto de Medeiros e Silva (in memoriam)

Quando comecei a me entender de gente, fui apresentado àquela velha oficina gráfica: a Tipografia Lira, a mais antiga de Natal, segundo diziam, que tinha sido do Dr. Alfredo Lira, de quem herdara o nome. Em 1955, fora a mesma arrendada e, posteriormente, vendida a Mozart Silva, seu último proprietário, fato que me deu a oportunidade de conhecê-la.
No escritório, aquela escrivaninha, ao lado da mesinha de máquina, feita de imbuia. Sobre a mesinha, uma autêntica Remington 51, que tinha aposentado a Royal preta, de teclas grandes e redondas, usada em época anterior à guerra. O velho telefone preto Ericson, com o disco ligeiramente oxidado, tocava alto e estridente quando, de fora, discavam 11-40.
Os lançamentos da Willys Overland desenrolavam-se à nossa porta, pois a firma Santos & Cia., nossa vizinha, era a distribuidora daquela associação mercantil e, todas as semanas, ali chegavam Rurais, Jeeps, Aero-Willis e Gordines para vender, ficando os veículos expostos estacionados em frente à Tipografia, ao lado do cartório de Alínio Azevedo.
Eu, ainda menino, sentia-me fascinado por aquele mundo diferente... O mundo gráfico, com cheiros fortes e variados de papel e tinta.
A sala dos tipógrafos, profissão hoje extinta, ficava no final de um comprido salão, com aquelas inúmeras estantes de madeira, possuindo gavetas e mais gavetas, cheias de tipos de todas as fontes. Eram tipos que não acabavam mais! Vocês imaginem! Cada fonte de tipo continha todas as letras do alfabeto, números e sinais ortográficos. Isso mesmo: maiúsculo, minúsculo, negrito, caixa alta, caixa baixa e por aí vai.
O cheiro de gasolina era uma constante, pois a mesma era utilizada como o material de limpeza das chapas, fruto do trabalho minucioso dos tipógrafos ou chapistas. Essas chapas, depois de prontas, iam tirar uma prova para serem submetidas à revisão, antes de serem engradadas nas máquinas, após a correção.
Depois de utilizadas para o serviço, os tipógrafos faziam o trabalho inverso: tinham que desmanchar tudo, com muito cuidado, pois havia o risco de empastelar; e, assim, as letrinhas, com a ajuda de uma pinça, iam sendo colocadas, uma a uma, nos seus lugares originais.
Tipos 12, 14, 16, 20 eram alguns dos tamanhos utilizados, mas, de vez em quando, tornavam-se necessários outros tamanhos, dos quais a tipografia, às vezes, não dispunha. Aí, entrava o espírito do companheirismo, entre as gráficas da época: uma emprestava à outra a fonte necessária para a execução daquele serviço.
As máquinas tipográficas, velhas Heildelberg alemãs, manuais, tinham a capacidade de 1.000 impressos por hora, limite a que nunca atingiam por que os rolos de gelatina, que levavam a tinta dos tinteiros para as chapas, tinham um desgaste muito grande, e necessitavam ser refeitos.
Naquela época, idos dos anos 60, na Ribeira existiam muitas tipografias: Tipografia Santo Antônio, Tipografia Lira, Tipografia Vilar, Tipografia Vitória, Tipografia Galhardo, Tipografia Augusto Leite e Tipografia Internacional, porque, então, todos se utilizavam dos serviços gráficos: para um santinho de primeira comunhão, para um papel timbrado, cartões de visita, e até para os grandes livros de escrituração pública ou comercial.
Existiam vários tipos de papel: 14, 16, couché, fluor post, linho, apergaminhado, pele de cabra. A utilização do tipo de papel dependia do serviço. O mais barato era o papel jornal, que, normalmente, era utilizado nas últimas vias de talões, ou na confecção de tablóides, que são aqueles jornais de formato quadrado, bem menores do que o jornal tradicional.
Trabalhando ao lado das velhas máquinas tipográficas, existia uma infinidade de máquinas auxiliares, indispensáveis aos serviços. A grande guilhotina alemã, responsável pelo corte dos papéis, era a cabeça do intrincado processo de impressão daquela época. Era ela quem alimentava a praça de impressão. Suas lâminas de aço, grandes e pesadas, eram afiadíssimas e precisavam de uma afiação periódica, pois perdiam o corte. Havia pessoas que prestavam esse tipo de serviço aos proprietários das tipografias.
Ao lado da guilhotina, uma máquina de dourar era a responsável pela gravação de nomes em lombos de livros.
Serena e precisa, havia também a pequena máquina de serrilhar: manual ou a pedal, que depois foi substituída por outra, mais moderna.
Tínhamos ainda o grande grampeador, que grampeava, sem dificuldades, grandes volumes de papel destinados à encadernação.
Na hora da confecção dos blocos ou talões, utilizavam-se o grampeador ou tachas, dessas de sapateiro, que eram batidas em cima de velhos trilhos de trem. Os trilhos também serviam para prensar os papéis na hora da colagem.
Difíceis eram os convites de casamento, ou santinhos de primeira comunhão e os cartões de Natal, quando o cliente queria dourados ou prateados. Na hora da impressão, antes da tinta secar, os papéis rapidamente eram levados para a mesa de dourar, a fim de polvilhar o pó, na cor dourada ou prateada, ao gosto do freguês, que já deixava tudo escolhido, ao fazer a encomenda.
Outra dificuldade daquela época eram os clichês, que tinham de ser encomendados no Recife. As aparas de papel eram convertidas em talões de jogo do bicho, ou em notas de posto de gasolina. Lembro-me do papel em resmas chegando do Recife, em cargas lonadas, que eram descarregadas no depósito, na Rua Câmara Cascudo.
Hoje, praticamente, as tipografias foram substituídas por gráficas rápidas, bem mais modernas. Vale salientar que os santinhos, calendários e convites finos para casamento vinham com a policromia pronta de São Paulo: da Probus, Pombo, Rotschild, etc. Aqui, eles eram apenas personalizados.
E assim, a Tipografia Lira ia andando, até a chegada da década seguinte, quando foi adquirida, em outro Estado, uma impressora plana, de alta velocidade para a época, e que precisou de um operário especializado a fim de operá-la. Era utilizada nos grandes serviços, como por exemplo, na confecção dos talonários do programa “Seu Talão Vale um Milhão”, da Secretaria da Fazenda do Estado. Nesta época, gerenciava a Tipografia o Sr. Moisés Villar, bastante experiente nesse ramo, um eterno aliado de Mozart.
Houve épocas em que a Tipografia Lira funcionava direto das 7 às 23 horas, dado o grande volume de serviços. Os funcionários faziam refeições normalmente na Peixada Potengi, de Heronides, ao lado. Sob o lema: “serviço realizado, cliente conquistado”, Mozart liderou o ramo gráfico, durante anos a fio, no Estado.
Todas as tardes, lá para as 15 horas, passavam em frente à Tipografia Lira o menino das tapiocas de coco, a moça que vendia bolo e a velha das cocadas, para a alegria dos gráficos.
Os dias se seguiam como as folhas impressas nas velhas máquinas. Muitos livros e livretos passaram por lá e, de tipo a tipo, a Tipografia Lira cooperou com a construção da História da Ribeira. Resistiu até o limite, quando cedeu à chegada do progresso, com as modernas gráficas off-set e computadores, pois, aí, a luta tinha ficado desigual.

sábado, 29 de novembro de 2014

A GRANDE FESTA DA ASSEJURIS


H O J E

O PRESIDENTE DA UBE/RN - ROBERTO LIMA DE SOUZA - CONVIDA PARA A NOITE DE AUTÓGRAFOS DA CONFREIRA JANIA MARIA SOUZA. A REALIZAR-SE EM 29-11-2014, NA LIVRARIA NOBEL DA AV. SALGADO FILHO, ÀS 19 HORAS.


 
JANIA SOUZA

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

CAARN CONVIDA - DIA 28 NOVEMBRO


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A injeção miraculosa

Elísio Augusto de Medeiros e Silva (in memoriam)

As barbearias do sertão, lá pelos anos de 1920, tinham as suas características próprias. Essa a que me refiro tinha duas portas antigas, de madeira, com ferrolho e cadeado, as paredes internas caiadas de branco e a fachada azul com o nome: “Barbeiro”.
Dentro, descia do teto um chicote de luz ligado à pera de acender e apagar. A cadeira de braços importada, de encosto reclinável, era forrada de chita estampadinha e ficava em frente ao espelho grande e à bancada de madeira com gavetas.
Em cima da bancada: tesouras, pentes, navalhas “Solinger” alemãs, loção, pedra-ume, pincel, toalhinhas de morim, toalha grande para o cliente que ia cortar o cabelo e o amolador de navalhas. Sempre disponíveis ao barbeiro a cumbuca de alumínio e o frasco de sabonete para fazer espuma.
Na parte de trás, cadeiras para a freguesia esperar a sua vez, um lavatório na parede com depósito de água em cima da torneira, uma bacia para aparar a água e a toalha de algodão branco.
Uma das características inerentes a todo barbeiro era a de tirar prosa com o freguês. Nas barbearias, as notícias corriam orais e velozes entre os frequentadores que ali iam regularmente. Foi numa dessas antigas barbearias que escutei o fato que vou transcrever a vocês.
Essa curiosa história aconteceu em Serra Negra no século passado, final da década de 1920 e início de 1930. Naqueles tempos no sertão nordestino era comum a cura por prática de charlatanismo.
Um paraibano de nome José Fábio tinha uma farmácia em Guarabira, e nos anos do Estado Novo foi morar em Mossoró. Não demorou muito, e a Saúde Pública do Estado caiu em cima dos seus processos, e ele, simplesmente, desapareceu da Cidade.
Então, inesperadamente, ele surgiu em Serra Negra, vindo de Brejo da Bananeira, onde já era dado à prática de fornecer receitas e consultas ao povo.
Ao chegar em Serra Negra, passou a aplicar umas injeções de um líquido a que atribuía poderosa eficácia no tratamento de quase todas as enfermidades.
A notícia foi circulando entre o povo, e o movimento na Cidade aumentava a cada dia. De manhã, quando abria as portas, já estava a casa cheia de pessoas que viajavam em busca da prometida cura. Vieram pessoas ricas, parentes de médicos, de padres e de autoridades, de muito longe.
A figura estranha do curandeiro atraía multidões fanatizadas para a cidadezinha do Seridó, que, nessa época, era apenas um velho arruado, nas terras fronteiriças da Paraíba.
A injeção não custava nada, era gratuita, mas, o paciente, antes de entrar, para ser atendido, entregava à sua secretária a importância de R$ 50 mil réis, a título de “contribuição”. Alguns, inclusive, doavam mais, a título de donativo.
No centro da sala, em cima de uma mesa forrada de tecido de algodão branco, um vidro transparente, do que se usava em antigos boticários, ocupado até a metade com um líquido claro e pegajoso, do qual não se sabia a origem, nem por que processo tinha sido obtido. Na verdade, era “cuspe”.
Assim, ele ia fazendo as suas aplicações miraculosas, e a fila de incautos crescendo, junto com as curas que se iam processando, em meio a inúmeras versões contadas: paraplégicos jogam fora as muletas, cegos passam a ver, e outros, que tinham chegado em redes ou padiolas, saem andando felizes. Dizem que até doido saía curado.

Porém, o fanatismo tem vida curta, e, certo dia, um homem rico e importante da região morreu, depois de tomar a injeção. Então, José Fábio, o curador miraculoso, encerrou as suas atividades e desapareceu, para nunca mais ser visto.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Joaquim Rodrigues Ferreira, lá do Alto do Rodrigues

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG
Em alguns testamentos e inventários, mais antigos, já faltam algumas folhas. O testamento de Joaquim Rodrigues, escrito de próprio punho, por exemplo, começa na página 4, e lá está escrito: ...for aberta a sucessão, serão herdeiros da referida terça os meus filhos, que existirem do segundo leito. Peço e espero que meus filhos do primeiro casamento não verão nesta disposição manifestação de menos amor e amizade às suas pessoas por minha parte.

Declaro que quero ser sepultado no cemitério do lugar em que falecer e que meu enterro deverá ser simples e sem pompa, correndo as despesas, por este feito, por conta de minha terça. Nomeio meus testamenteiros a minha mulher Ricardina Rodrigues Cavalcanti, Bacharel João Alves de Oliveira e Salustiano Francisco Cacho, na ordem que estão indicados: a todos e a cada um dos quais rogo, queiram aceitar esta minha incumbência.

Este é meu testamento e a última vontade para ser cumprida depois de minha morte e por ele revogo qualquer outro que por ventura exista. Recife, dez de março de mil oitocentos e noventa e nove. Joaquim Rodrigues Ferreira.

Esse testamento foi levado ao cartório do tabelião Apolinário Florentino de Albuquerque Maranhão, rua Dr. Feitosa, Recife, sendo testemunhas: Henrique Bernardes de Oliveira, José Carlos de Sá, Joaquim dos Anjos Nogueira, João Batista de Sá e Julião Barbosa de Souza, moradores em Recife.
No dia 24 de março de 1804, na cidade de Macau, em casa de residência do testador Joaquim Rodrigues Ferreira, a viúva Dona Ricardina, entregou ao Juiz João Teixeira de Souza, o testamento do seu marido, que faleceu, em seu sitio denominado Alto do Rodrigues, no dia anterior, às duas horas e vinte minutos da tarde, pouco mais ou menos.

Dona Ricardina apresentou, como filhos do coronel Joaquim Rodrigues Ferreira, os nomes que seguem. Do casamento com D. Generosa (Bela) Rodrigues da Silveira: Dona Olympia Rodrigues de Souza, 45 anos, casada com o tenente-coronel Joaquim Ildefonso Virgulino de Souza, residente em Macau; Odorico Rodrigues Ferreira, com 40 anos, casado (com Amélia Rodrigues Ferreira), morador e residente na Pendência; Anna Rodrigues Ferreira, de 35 anos, casada com Manoel Teixeira de Carvalho Filho, residente em Macau.

Do casamento com a inventariante, Dona Ricardina, listou os seguintes filhos: Rosa Rodrigues Cacho, com 27 anos, casada com Antonio de Castro Cacho, residente em Macau; Ricardo Rodrigues Ferreira, com 24 anos, casado, residente na cidade de Recife; Álvaro Rodrigues Ferreira, com 23 anos, solteiro, residente em Macau; Rodrigo Rodrigues Ferreira, com 22 anos, solteiro, residente em Macau; Laura Rodrigues de Oliveira, 20 anos, casada com José Fernandes de Oliveira, residente em Macau; Irineu Rodrigues Ferreira, com 19 anos, solteiro, residente em Macau; Delmiro Rodrigues Ferreira, 14 anos, residente em Macau; Marfisa Rodrigues Ferreira, com 13 anos, residente em Macau; João Rodrigues Ferreira, 11 anos, residente em Macau; Francisco Rodrigues Ferreira, 9 anos, residente em Macau.

No inventário aparecem vária terras que foram compradas pelo testador, em diversos municípios. A fim de reconstituir os nomes dessas localidades e seus donos, listamos aqui esses bens de raiz do falecido: Sítio denominado “Alto do Rodrigues” no município de Macau, compreendendo uma posse das sobras das terras do antigo Sítio “Sacco”, comprada a Rufino Álvares Clavassino Costa; noventa e seis braças de terras, no lugar denominado Ponciana, do município de Macau, comprada a João Albano Cabral e sua mulher (Justina Maria da Conceição); mais seis braças e meia de terras, no mesmo lugar Ponciana, a margem do Rio Assú, extremando-se com a terra de Theodoro Alves Guimarães, compradas aos herdeiros de Francisco de Sales Urbano; 22 braças de terras, em Macau, a margem direita do Rio Assú, comprada a Dona Josefa Ferreira Monteiro; nessa mesma Tabatinga, 12 braças de terras compradas a Dona Anna Rosa Fernandes de Jesus; nessa mesma Tabatinga, 14 braças de terras, compradas a Manoel Joaquim de Lima; 30 braças de terras, nessa mesma Tabatinga, compradas a Jerônimo Fernandes Gomes; meia braça de terras, na Tabatinga, comprada a Manoel Luiz Ferreira das Neves; 43 e 1/2 braças de terras no lugar denominado Buraco do Estevam, compradas a José Francisco dos Anjos; uma parte de terras em Gaspar Lopes, município de Angicos, comprada a Francisco Quilidônio da Costa Machado; duas partes de terras, no lugar denominado de Serra Aguda, município de Angicos, compradas a Francisco Xavier da Cunha Vasconcelos; 400 braças de terras, com fundos de 4 500 braças, no lugar denominado Baixa do Pau Branco, comprada a Francisco da Rocha Freire Cabeleira; uma posse da data de terras Curralinho, em Angicos, atualmente denominada Santa Rosa, comprada a Francisco Xavier de Souza e sua mulher; Uma parte de terra, no lugar denominado São Julião, comprada a Julião Barbosa de Souza e sua mulher.

Joaquim Rodrigues Ferreira era filho do português Manoel Rodrigues Ferreira e da assuense Izabel Martins Ferreira, que foram moradores na Ilha de Manoel Gonçalves.
Herdeiros de Joaquim Rodrigues Ferreira

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

AUGUSTO COELHO LEAL CONVIDA



"ROSINHA DOS LIMÕES"
DIA 25 DE NOVEMBRO
18,30 HORAS
ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LETRAS

domingo, 23 de novembro de 2014

A PRAÇA ANDRÉ DE ALBUQUERQUE PEDE SOCORRO

Por: ORMUZ BARBALHO SIMONETTI

... adeus, minha praça onze, adeus, já sabemos que vais desaparecer
leva contigo a nossa recordação, mas ficarás eternamente em nosso coração
e algum dia nova praça nós teremos e o teu passado cantaremos.
(Erivelto Martins)


        É com imensa tristeza que vejo a maioria de nossas praças em estado de penúria e extremo abandono. Abandono esse que não se prende somente a parte física, e sim o abandono da nossa própria história. Nesse caso, a história desse herói chamado André de Albuquerque Maranhão, senhor do engenho Cunhaú, Cavaleiro da Casa Real, coronel comandante da Divisão do Sul, que em 1817, também lutou ao lado dos revoltosos na Revolução Pernambucana.
                                André de Albuquerque Maranhão

        Chefiou a Revolução no Rio Grande do Norte e lutou ao lado do padre Miguelinho (Miguel Joaquim de Almeida Castro) na derrubada do governador José Inácio Borges. Dirigiu a cidade por um período compreendido entre 29 de março e 25 de abril de 1917, tendo sido deposto após a derrota de Pernambuco o que resultou no enfraquecimento do movimento. Foi preso no Forte dos Reis Magos onde veio a falecer.
     
                     Fuzilamento do Padre Miguelinho 

   A praça criada em 1818, por iniciativa da Câmara Municipal de Natal, que, naquela ocasião, renomeava a antiga Rua Grande para o nome atual.
        Desde o Século XIX, a praça sofreu alterações dos mais diversos governos, modificando seu paisagismo, acrescentando monumentos, aparelhos públicos etc. Em 12 de junho de 1937, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte inaugurou um monumento aos heróis da Revolução de 1817. O projeto da estátua coube aos engenheiros André Rebouças e Willy Fischer, que foram contratados pelo próprio Instituto Histórico e Geográfico para esse fim.
        Matriz Velha                                                         
                                                                 IHGRN e Matriz Velha
       
Memorial Câmara Cascudo                            
        Aquele local considerado o marco zero, nascedouro de nossa cidade, ladeado pela Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, também conhecida como Igreja Matriz ou Catedral Velha, o Instituto Histórico e Geográfico, o museu Câmara Cascudo, prédio que outrora abrigou a Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional, a Igreja de Santo Antônio (Igreja do Galo), que forma com outros prédios históricos o corredor cultural da cidade, chão abençoado dos nossos antepassados.
                        Igreja de Santo Antônio - Igreja do Galo

        Desde a eleição da atual diretoria do IHGRN, ocorrida em março de 2013, compareço à instituição juntamente com alguns de seus membros, de segunda a sexta-feira e, às vezes, nos fins de semana, numa cruzada sem trégua na luta para preservar as instalações físicas e o rico acervo documental do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, com mais de 300 anos de história que abrange os períodos imperial, colonial e republicano. Tal circunstância me levou a convivência diária com essa incômoda e revoltante situação.
   Instituto Histórico e Geográfico do R.N.

        A praça se encontra em total abandono. Há tempos foi tomada de assalto pela marginalidade do centro da cidade. Seus atuais frequentadores são flanelinhas, prostitutas, mendigos, traficantes e usuários que fizeram daquele local “minha praça, minha vida”. Lá eles tomam banho, exercem seu comércio ilegal, lavam suas roupas e as estendem por cima das poucas plantas que ainda resistem, além de utilizá-la como sanitário e não raro, também motel.
                                                                 


       Os mendigos incomodam os poucos transeuntes que por desconhecimento do perigo, coragem ou mesmo necessidade, cruzam por seus passeios. Ladrões abordam suas vítimas em plena luz do dia na certeza da impunidade. Os canteiros onde outrora eram ocupados com jardins floridos e bem cuidados, há anos desapareceram. Em seu lugar, podemos ver somente o chão de terra batida, que nas quintas-feiras é palco para um público de comportamento duvidoso que se diverte ao som de grupos musicais da periferia. Nesse ambiente, onde boa parte de seus frequentadores são menores de idade, a festa é regada a drogas e álcool, para a alegria dos comerciantes e fornecedores desses produtos. Ao amanhecer podemos ver alguns funcionários da Prefeitura limpando o local. Latas e garrafas de todo tipo de bebida são empilhadas em vários cantos da praça aguardando a remoção pelo poder público.

        Durante o dia, principalmente no turno da manhã, é comum se ver vários adolescentes com farda de seus colégios, com seus namorados de sexo oposto e também do mesmo sexo, que teimam em gazear as aulas, em troca de um novo aprendizado com aulas mais calientes. Por sua vez, os traficantes aguardam pacientemente seus clientes, sentados à sombra das árvores em bancos de cimento, pois os de madeira, por falta de manutenção, já não se prestam a finalidade a que foram ali colocados. Isso tudo acontece bem vizinho ao prédio do Tribunal de Justiça e ao primeiro Distrito Policial.
       Prédio do Tribunal de Justiça do RN
       
Os pedintes circulam ao seu derredor principalmente na área próxima a igreja, em maior número nessa época em que se comemora o aniversário de sua padroeira - Nossa Senhora da Apresentação.

        Alheio a tudo isso, empoleirados nas copas das centenárias árvores que adornam aquele logradouro, os sanhaços, bem-te-vis, cebites, e outros pássaros cantantes gorjeiam suas melodias maravilhosas saudando o milagre de mais um o dia que se inicia, na esperança de que, muito em breve, a Praça volte a ser o que o que fora antigamente, E, assim, nos poupar do vexame que passamos todas as vezes que temos que informar aos turistas e visitantes do IHGRN, onde nasceu nossa querida cidade de Natal.

       Vivemos em uma cidade que pouco tem se preocupado com a preservação de sua memória. O bairro da Ribeira, por exemplo, onde se concentra o maior acervo de prédios históricos da cidade, palco de grandes acontecimentos no século passado, apesar de tímidas tentativas de revitalizá-lo, continua “tudo como dantes no quartel de Abrantes”.

                                           
                                                                     

   

 De minha parte, só restam às boas lembranças dos anos 50 quando, nessa mesma época, meus pais me lavavam para assistir a famosa Festa da Mocidade. Ali todo ano era armado o parque São Luiz, de Severino Francisco, num parceria com a Igreja, para animar a quermesse. As famílias passeavam em torno da praça ou simplesmente sentadas em cadeiras nas calçadas, assistiam a tudo ao som das amplificadoras onde os namorados ou os pretensos, ofereciam musicas diversa, tipo: “de um alguém para outro alguém”, ou dos dobrados e retretas executadas pela banda da gloriosa Policia Militar, acomodada no majestoso coreto que se destacava no centro da praça, infelizmente destruído pela insensatez dos nossos gestores públicos. 

sábado, 22 de novembro de 2014

A Gestante

Elísio Augusto de Medeiros e Silva (in memoriam)

Corria o ano de 1904, os bondes a tração animal ainda desciam e subiam, vagarosamente, pela Junqueira Aires. Os meninos caçavam passarinho e lagartixa, com baladeira, e jogavam pião nas calçadas existentes. Nas escolas, era adotado o livro de leitura de Felisberto de Carvalho.
A nossa personagem, Aninha, menina-mulher, casara bem nova, com 14 anos apenas estava grávida, e era o alvo das preocupações de toda a família. O sogro, homem de posses, residente no sertão, quando em Natal, era um dos frequentadores da Potiguarânia, na Rua Ulisses Caldas.
Quando Aninha começou a ficar com o estômago embrulhado, escurecimento de vista, vomitando e enjoando a comida e as pessoas, foi logo diagnosticado: “Está grávida”, disseram as comadres.
A partir daí, todos se desmanchavam em atenções e cuidados, com gravidez tão precoce.
– Leve esse docinho de araçá para Aninha, que ela pode estar com desejo...
Aninha, com tantos dengos, por sorte, não enjoou o marido, que se desdobrava em atenções e carinhos.
Como ele trabalhava no Palácio do Governo, à Rua do Comércio, todo dia, às tardinhas, trazia um cacho de coco verde para ela, pois diziam ser muito bom para as gestantes...
Difícil mesmo foi quando ela passou a ter uns desejos estranhos, e... Por que não dizer?... Impossíveis: chupar caju no mês de outubro, comer bolo de milho e canjica fora da época junina.
Mas, todos faziam o máximo para atender os seus desejos.
O maior medo da família era ela perder a barriga, abortar. Do sertão vinham alfenins, batidas e queijos de coração, regularmente, trazidos pelos tropeiros.
Então, a cada desejo novo, várias pessoas eram mobilizadas para o seu fiel atendimento.
O pai, todo orgulhoso, mal via a hora do herdeiro nascer: seria o primeiro neto.
Na rua era só no que se falava. Os amigos mais chegados justificavam: é o primeiro filho, depois ele se acostuma.
O enxoval da criança vinha todo de Caicó, onde, desde o terceiro mês de gestação, havia sido encomendado às bordadeiras. Mas, não sabiam ainda se era menino ou menina.
Não existiam as ultrassonografias modernas. As senhoras da Rua São Tomé, mais experientes, falavam: se a barriga for redonda é menina; pontuda, é menino na certa.
Existia até uma simpatia que mandava a mulher encostar-se na parede e, depois, começar a andar. Se o primeiro passo fosse dado com o pé direito é menino macho, caso contrário, mulher. O professor Veríssimo de Melo contava que existia uma crendice popular no Rio Grande do Norte que dizia: “A primeira pessoa que bater em casa, no momento em que a mulher gestante começar a contar o enxoval do filho, também indicará o sexo: se for um homem, a criança será do sexo masculino; se for mulher, do sexo feminino”.
O feto, a esta altura, já se movimentava muito na barriga de Aninha, motivo por que alguns garantiam que seria homem.
Depois de vários testes e afirmações diversas, aproximava-se o dia tão esperado por todos. Aí se agravava o problema do enxoval: qual cor escolher... Azul ou rosa?
Em Caicó, onde residia a sua sogra, o enxoval já estava sendo providenciado. Bicos e rendas das mais finas. As bordadeiras eram as melhores de Timbaúba e Acari. Fraldas, camisas de pagão, toucas, sapatinhos, lençóis, fronhas, tudo encomendado, mas... E a cor?!...
Até os frangos já estavam enchiqueirados para o resguardo de Aninha. O marido já preparara os licores que serviria aos visitantes.
A parteira Dona Júlia, que morava nas Rocas, já estava de sobreaviso.
Aninha, como toda grávida, era o centro da atenção de toda família. É verdade que tinha perdido o viço da juventude, engordado uns vinte quilos, não parecia ter 15 anos.
As crendices mais populares eram seguidas à risca:
- Não podia atravessar água corrente
- Não podia olhar para o sol durante um eclipse
- Não podia visitar pessoas mordidas por cobra
- Não podia ter susto
- Não podia brincar com animal peludo
- Não podia passar por cima de corda estendida
Cercada de todos esses cuidados, Aninha tinha uma gravidez saudável e feliz. Quando se aproximou os nove meses, começou a apresentar as dores do parto. Não que ela fosse escandalosa... Mas, as dores só sabe quem já as sentiu. Nesse dia, aumentaram muito, e, ligeiro, foram buscar Dona Júlia, nas Rocas, que já trazia a oração que amarrava no pescoço das parturientes. Foram rápido, pois, nessa época, em Natal, ou se andava a pé ou no lombo de cavalos ou burros.
A casa logo ficou cheia de gente, ávida por notícias. Na cozinha, a panela enorme fervia na trempe, sobre as brasas, e o marido de Aninha andava de um lado para o outro. Dando nós nas fraldas da camisa.
As histórias nas salas eram todas relacionadas com parto. Um mensageiro foi enviado a Caicó, pois era uma viagem longa pelo “Caminho do Sertão”.
O parto transcorria em paz, e todos na sala ao lado rezavam para Nossa Senhora do Bom Parto.
Lá para as 17:00 h, é escutado o choro da criança. A preocupação era se a criança tinha nascido laçada, pois, nesse caso, poderia morrer enforcada.
Alguém saiu do quarto e anunciou: “É menino macho! Louvado seja Nosso Senhor!”.
Na mesma hora ouvia-se, ao longe, o sino da Igreja do Bom Jesus, na Ribeira, que convocava os fiéis para a missa.
O parto transcorreu normal e, depois de expelida a placenta, a lavagem com ervas para estancar a hemorragia, em meio a muitas toalhas brancas.
Em seguida, a placenta é enterrada na porta da casa para, segundo a tradição oral, o menino ser caseiro.
Em meio a muita alegria, todos comemoram a chegada do neném.
No outro dia, pela manhã, a casa cheia de amigos, parentes e compadres, que vinham conhecer o recém-nascido. No ar o cheiro de alfazema e do licor de jenipapo, servido franco.
Aninha, de resguardo, iria passar, no mínimo, dez dias tomando caldo de galinha, e, nem de longe, comida carregada.
O nome da criança foi escolhido: Evaristo. Uma homenagem ao santo do dia 27 de outubro, Santo Evaristo, quarto sucessor de São Pedro.
O pai e os amigos e familiares tomaram, depois que o umbigo do bebê caiu, “o mijo do menino”, olhando o pôr-do-sol no Potengi.
Em tempo: tinham acertado a cor do enxoval.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014


Nossa Senhora da Apresentação, Igreja, Freguesia e Imagem


João Felipe da Trindade
jfhipotenusa@gmail.com

Toda capela ou igreja tem o seu orago, isto é, o seu santo da invocação. Nossa Senhora da Conceição era o orago das capelas da Ilha de Manoel Gonçalves, de Jundiaí e de Guamaré; Nossa Senhora do Socorro era a de Utinga; enquanto São Miguel e Nossa Senhora dos Prazeres da matriz de Extremoz.
O dia 21 de novembro é celebrado como do dia em que Joaquim e Ana fizeram a apresentação da filha Maria ao templo de Jerusalém, segundo tradição da Igreja Católica. Diz Cascudo: foi nesse dia do ano de 1753 que Nossa Senhora da Apresentação procurou sua freguesia. Segundo o mestre: nessa época, numa manhã, foi visto, encalhado numa pedra que as marés respeitam, um caixão. Trazido para a praia, aberto numa curiosidade de terra menina, encontraram a imagem duma Nossa Senhora. Pequena e simples, o manto cobrindo-lhe a cabeça na convenção ritual para a cercadura da coroa simbólica, a Santa sustinha o Deus Menino na curva do braço esquerdo e estendia a destra, dedos unidos e vazios, num gesto de suspender o rosário ou de abençoar, timidamente.
Quando do início da colonização, após a construção do Forte dos Santos Reis Magos, em 1598, começou o trabalho de pacificação dos nossos índios a fim de garantir a fundação da nossa cidade do Natal, que se concretizou em 25 de dezembro de 1599. Nessa data nossa Matriz, na sua forma primitiva estava concluída. Não se sabe a data exata em que foi criada a Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, mas ela já existia muitos anos antes da aparição da imagem, coisa que muita gente não sabe.
Já tive oportunidade de apresentar, em vários artigos publicados no “O Jornal de Hoje”, batismos realizados na nossa Matriz, antes de 1700.
Aqui, para efeito de confirmação documental, apresento a imagem de um batismo que foi realizado no ano de 1691, na nossa Matriz de Nossa Senhora da Apresentação. O livro, de onde foi tirada essa imagem, está hoje no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano.
Batismo na Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, 1691

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

20 de Novembro - Dia Nacional da Consciência Negra

O Dia Nacional da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, e reivindica essa figura histórica como símbolo de resistência.

 
     
     
     
Monumento a Zumbi dos Palmares em Salvador, Bahia* 
Monumento a Zumbi dos Palmares em Salvador, Bahia*
O Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, foi instituído oficialmente pela lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. A data faz referência à morte de Zumbi, o então líder do Quilombo dos Palmares – situado entre os estados de Alagoas e Pernambuco, na região Nordeste do Brasil. Zumbi foi morto em 1695, na referida data, por bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho. Maiores informações podem ser consultadas no textoHistória do Quilombo de Palmares.
A data de sua morte, descoberta por historiadores no início da década de 1970, motivou membros doMovimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial, em um congresso realizado em 1978, no contexto da Ditadura Militar Brasileira, a elegerem a figura de Zumbi como um símbolo da luta e resistência dos negros escravizados no Brasil, bem como da luta por direitos que seus descendentes reivindicam.
Com a redemocratização do Brasil e a promulgação da Constituição de 1988, vários segmentos da sociedade, inclusive os movimentos sociais, como o Movimento Negro, obtiveram maior espaço no âmbito das discussões e decisões políticas. A lei de preconceito de raça ou cor (nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989) e leis como a de cotas raciais, no âmbito da educação superior, e, especificamente na área da educação básica, a lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira, são exemplos de legislações que preveem certa reparação aos danos sofridos pela população negra na história do Brasil.
A figura de Zumbi dos Palmares é especialmente reivindicada pelo movimento negro como símbolo de todas essas conquistas, tanto que a lei que instituiu o dia da Consciência Negra foi também fruto dessa reivindicação. O nome de Zumbi, inclusive, é sugerido nas Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africanacomo personalidade a ser abordada nas aulas de ensino básico como exemplo da luta dos negros no Brasil. Essa sugestão orienta-se por uma das determinações da lei Nº 10.639, que diz no Art. 26-A, parágrafo 1º: “O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.”
A despeito da comemoração do Dia da Consciência Negra ser no dia da morte de Zumbi e do que essa figura histórica representa enquanto símbolo para movimentos sociais, como o Movimento Negro, há muita polêmica no âmbito acadêmico em torno da imagem de Zumbi e da própria história do Quilombo dos Palmares. As primeiras obras que abordaram esse acontecimento histórico, como as de Edison Carneiro (O Quilombo dos Palmares, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 3a ed., 1966), de Eduardo Fonseca Jr. (Zumbi dos Palmares, A História do Brasil que não foi Contada. Rio de Janeiro: Soc. Yorubana Teológica de Cultura Afro-Brasileira, 1988) e de Décio Freitas (Palmares, a guerra dos escravos. Porto Alegre: Movimento, 1973), abriram caminho para a compreensão da história da fundação, apogeu e queda do Quilombo dos Palmares, mas, em certa medida, deram espaço para o uso político da figura de Zumbi, o que, segundo outros historiadores que revisaram esse acontecimento, pode ter sido prejudicial para a veracidade dos fatos.
Um dos principais historiadores que estudam e revisam a história do Quilombo dos Palmares atualmente é Flávio dos Santos Gomes, cuja principal obra é De olho em Zumbi dos Palmares: História, símbolos e memória social (São Paulo: Claro Enigma, 2011). Flávio Gomes procurou, nessa obra, realizar não apenas uma revisão dos fatos a partir do contato direto com as fontes do século XVI e XVII, mas também analisar o uso político da imagem de Zumbi. Segundo esse autor, o tio de Zumbi, Ganga Zumba, que chefiou o quilombo e, inclusive, firmou tratados de paz com as autoridades locais, acabou tendo sua imagem diminuída e pouco conhecida em razão da escolha ideológica de Zumbi como símbolo de luta dos negros.
Além dessa polêmica, há também o problema referente à própria estrutura e proposta de resistência dos quilombos no período colonial. Historiadores como José Murilo de Carvalho acentuam que grandes quilombos, como o de Palmares, não tinham o objetivo estrito de apartar-se completamente da sociedade escravocrata, tendo o próprio Quilombo dos Palmares participado do tráfico e do uso de escravos. Diz ele, na obra Cidadania no Brasil: “Os quilombos que sobreviviam mais tempo acabavam mantendo relações com a sociedade que os cercava, e esta sociedade era escravista. No próprio quilombo dos Palmares havia escravos”. (CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 48).
As polêmicas partem de indagações como: “Se Zumbi, que foi líder do Quilombo de Palmares, possuía escravos negros, a noção de luta por liberdade nesse contexto era bem específica e não pode colocá-lo como símbolo de resistência contra a escravidão”. A própria história da África e do tráfico negreiro transatlântico revela que grande parte dos escravos que a coroa portuguesa trazia para o Brasil Colônia era comprada dos próprios reinos africanos que capturavam membros de reinos ou tribos rivais e vendiam-nos aos europeus. Essa prática também ressoou, como atestam alguns historiadores, em dada medida, nos quilombos brasileiros.
Nesse sentido, a complexidade dos fatos históricos nem sempre pode adequar-se a anseios políticos. Os estudos históricos precisam dar conta dessa complexidade e fornecer elementos para compreender o passado e sua relação com o presente. Entretanto, esse processo precisa ser cuidadoso. O uso de datas comemorativas como marcos de memória suscita esse tipo de polêmica, que deve ser pensada e discutida criteriosamente, sem prejuízo nem das reivindicações sociais e, tampouco, da veracidade dos fatos.
* Créditos da imagem: Commons
Por Me. Cláudio Fernandes