quarta-feira, 30 de setembro de 2015

ÚLTIMO DIA PARA REGISTRO DE CHAPAS


INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE – IHGRN

NORMAS EDITALÍCIAS

Art. 1º. A eleição para os cargos da Diretoria e Conselho Fiscal do INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE - IHGRN – TRIÊNIO 2016-2019, se realizará no dia 10 de novembro próximo vindouro, em sua sede da Rua da Conceição, 622 – Centro – Cidade Alta, CEP 59.025-270 – Natal – Rio Grande do Norte, no horário corrido das 8 às 17 horas, para o preenchimento dos seguintes cargos: DIRETORIA: Presidente; Vice-Presidente; Secretário-Geral; Secretário-Adjunto; Diretor Financeiro; Diretor Financeiro-Adjunto; Orador; Diretor da Biblioteca, Arquivo e Museu. CONSELHO FISCAL: Três (03) Membros Titulares e um (01) Membro Suplente.

Art. 2º. Será garantida a lisura do pleito eleitoral, assegurando-se condições de igualdade às chapas concorrentes, inclusive no que concerne à propaganda eleitoral, podendo, para isso, serem nomeados fiscais que atuarão nas fases da propaganda, escrutínio e apuração dos votos.

Parágrafo Único. O voto será secreto, exercido através de cédula específica e depositado na urna previamente designada para tal fim, podendo os Acadêmicos não residentes na sede da Instituição, cumprir o seu dever estatuário mediante carta postada através dos Correios ou entregue à Comissão Eleitoral, até 30 (trinta) minutos antes do encerramento da votação, em envelope lacrado e colocado em urna especial, em separado, o qual será apurado após a verificação do preenchimento das condições de eleitor, adotando-se o seguinte critério:
I - O voto será colocado em um envelope especial, isento de timbre e dizeres e devidamente lacrado;
 II - em seguida será colocado em outro envelope endereçado à Comissão Eleitoral, acompanhado de uma folha de identificação do eleitor, com seus dados essenciais, a saber: nome legível, local, data e assinatura.
III - Recebida pela Comissão Eleitoral, esta decidirá sobre sua computação, tomando as cautelas necessárias para não quebrar o sigilo do voto conforme as regras aprovadas para o respectivo pleito, aplicada, subsidiariamente, a legislação eleitoral pátria, registrando todo o procedimento na ata dos trabalhos.

Art. 3º. O prazo para o registro das chapas se dará entre os dias 21 de agosto a 30 de setembro de 2015, devendo ser entregues no endereço referido no Art. 1º até às 15 horas.

Art. 4º. O requerimento de registro de chapa, com o nome completo dos candidatos, endereçado ao Presidente da Comissão Eleitoral, deverá estar assinado por qualquer dos candidatos que a integram, com lista contendo a anuência dos demais candidatos e acompanhado da prova de quitação dos componentes da chapa com a Tesouraria até 2014.

Parágrafo único. Verificando irregularidades na documentação apresentada, a Comissão Eleitoral notificará o interessado para que promova a regularização, no prazo de 2 (dois) dias, sob pena de indeferimento do pedido.


terça-feira, 29 de setembro de 2015



A Academia se abre. E isso se impõe

Lívio Oliveira [Advogado público e poeta - livioalvesoliveira@gmail.com]


O tempo é caracterizado pela inexorabilidade. As mudanças e as transformações se impõem. Não há muito o que ser feito. E há. Faz-se, refaz-se o mundo, até porque é necessário manter-se criando. Criar é pensar. E ser. É viver em essência. E pensamento requer ação. Ação requer planos. Planos buscam perpetuação do fazer. Tudo gira. A fila anda. Acontece que portas se fecham e se abrem enquanto o mundo e a mente humana descrevem suas circunvoluções e as superluas se posicionam sobre os nossos olhares curiosos que se jogam à escuridão da noite, em busca do sanguíneo e sensual satélite a nos advertir sobre nossas ancestralidades, nossas antiguidades e nossas possibilidades, limitadas ou nem tanto. 

A ideia da imortalidade – ou o apreço à mesma –, como maneira de fugir à mais poderosa das indesejadas personagens e prosseguir vivendo, convivendo com essas ancestrais questões, antigos vínculos humanos e permanentes tratativas em pensamento e obra, está sempre sendo cultivada na mente humana. Daí porque os símbolos fortíssimos dessa realidade se mantêm, firmando-se psíquica e culturalmente. Indivíduos e coletividades. Grupos que almejam essa espécie “salvacionista”. As academias de letras do mundo ocidental são assim. No mundo todo e aqui. São assim. Simbolizam vida eterna (ao menos se faz uma tentativa), muito mais da obra do que do homem ou da mulher que tomam assento nessa espécie de templo intelectual, associação, corporação, confraria, ou como mais se entenda sobre sua natureza. 

Não sou dos que torcem o nariz para as academias. Ao contrário. Antes, percebo-as com a naturalidade e o respeito de quem compreende a importância das instituições como alicerce das sociedades organizadas e enraizadas sob aspectos civilizatórios que se buscam perenes. As academias, em si, não são boas e nem más. Bons ou maus são os homens e mulheres que as compõem. Ali o que se mede são as biografias pessoais e as obras. É assim que deve ser, para que se mantenha a regra basilar do jogo. O jogo da arte literária e da história pessoal, medindo-se como isso pode contribuir com a posteridade. Ora, os maiores beneficiários que uma arregimentação de homens e mulheres podem ter são os homens e mulheres das gerações que lhes são contemporâneas e daquelas que estão por vir. Em suma: um lugar individual ocupado num lugar coletivo como uma academia de letras deve sempre trazer o que há de importante, elevado e digno, essencial à sociedade plural, não a um grupo estanque, vedado, impermeável, ou a um indivíduo egocêntrico, narcisicamente determinado a reinar sozinho.

Por saber disso, sinto-me reconfortado. Por saber e perceber e presenciar a realidade de que a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras está seguindo no rumo correto do casamento com a sociedade culta e com os mais profundos amantes da arte literária, tendo, em evento muito recente, seu dinâmico presidente Diógenes da Cunha Lima anunciado, dentre muitas realizações e metas, lançamentos sequenciados e contínuos da “Revista da Academia”, anunciando também nova comenda da entidade – desta feita, para o entrosamento da arte literária com a arte jornalística, homenageando-se o imortal e saudoso jornalista Agnelo Alves. Também são anunciados diálogos e debates múltiplos entre escritores de várias gerações, com o calendário já sendo construído e com diretrizes sendo estabelecidas. Os intercâmbios literários servirão aos autores-intelectuais e a todos os interessados. Evidente que haverá sólido componente didático-pedagógico, com o chamamento das escolas. E é claro que isso tudo se aperfeiçoará. Há até a possibilidade da criação de um pequeno museu ou acervo que homenageie os patronos e acadêmicos. Acho isso tudo muito importante, como contribuição artística, cultural e histórica ao desenvolvimento do Estado do Rio Grande do Norte. 

Vejo a firme intenção e o trabalho criativo de muitos dos acadêmicos e colaboradores no sentido de que todas as metas sejam alcançadas com rigor. Espero, por tudo isso, que as portas da ANRL – nesses 80 anos quase completados e nos que lhe seguirão – se mantenham mesmo abertas, escancaradas, principalmente para as gerações que vêm impondo seus desejos pétreos de transformações reais. Que fiquem assim as portas, para que o novo ingresse (e vai ingressar) serenamente e a inteligência coletiva perene possa ser, ainda mais e fielmente, louvada e garantida, sob seus vários e ricos aspectos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Fernandes Pimenta


Por Fernando Antonio Bezerra

A genealogia é um ramo da história que nos aproxima das pessoas pelo conhecimento de nossos laços familiares. É muito bom quando nos galhos da árvore genealógica descobrimos novos ramos e nos aproximamos de pessoas que não imaginávamos nossos parentes! Felizmente vários foram os seridoenses que se dedicaram a pesquisar a genealogia e alguns continuam pesquisando, o que nos ajuda a encadear os fatos do passado para compreendermos muitos aspectos do presente.

Um dos troncos antigos do Seridó, iniciado em Caicó, é a família Fernandes, originalmente, chamada “Fernandes Pimenta”. José Augusto Bezerra de Medeiros, político e escritor, descendente do citado ramo familiar, esclarece que “o ramo da família Fernandes Pimenta que habita a região seridoense procede todo elle directamente do casal Cosme Damião Fernandes-Izabel de Araújo, que residiu na Fazenda Cavalcanti, município de Caicó”. Cosme Damião, por sua vez, é neto do português Antonio Fernandes Pimenta e de Joana Francelina (ou Franklina) do Amor Divino. O casal, segundo os pesquisadores, fixou inicialmente residência na cidade de Nossa Senhora das Neves da Paraíba, em seguida em Brejo de Areia, também no estado paraibano e, finalmente, na fazenda Riacho do Pimenta, atual Município de Campo Grande-RN. Do casal Antonio e Joana, dentre outros filhos, nasceu André José Fernandes, pai de Cosme Damião que, como dito anteriormente, é o patriarca da família Fernandes no Seridó.

André José Fernandes casou duas vezes. A primeira, com Ana Francisca do Sacramento com quem gerou uma única filha: Felícia Fernandes Pimenta. Do segundo matrimônio, com Luíza Maria da Encarnação, nasceram três filhos, sendo criados dois: Cosme Damião Fernandes e Manoel José Fernandes. Luíza era filha de Manuel da Anunciação Lyra e Anna Filgueira de Jesus, e irmã do Padre Francisco de Britto Guerra.

Escreve o Desembargador Felipe Guerra, reproduzido pelo grande genealogista e pesquisador Olavo Medeiros Filho, que André José Fernandes indo a uma feira de gado sua mulher – Luíza Maria da Encarnação – “propos-lhe ficar em casa de sua mãe, que morava a poucas léguas de distância, fazenda Jatobá. O marido não concordou. Em sua ausência a mulher realizou a projetada viagem. Por essa 'desobediência' André Fernandes, ao voltar da feira não procurou mais a mulher, vivendo até o fim da vida separado, tendo ido residir em 'Irapuá', entre Apodi e São Sebastião”. Luíza estava grávida de Manoel José Fernandes quando foi abandonada pelo marido.
Manoel, na idade adulta, foi ordenado Padre recebendo a nomeação de Visitador. Uma rua em Caicó, onde morou, o homenageia: Visitador Fernandes. Ele faleceu no dia 10 de fevereiro de 1858 deixando, em testamento, a libertação de seus escravos e uma sincera devoção a Sant´Ana: “(...) minha Padroeira e Gloriosissima Senhora Santa Anna advogada de minha especial devoção; protestando eu morrer firme na Fé Catholica, em que tenho vivido como verdadeiro Cristão e Ministro de Jesus Cristo”.
Sendo irmã do Padre Guerra suponho que Luíza tenha vindo para Caicó em decorrência do apoio recebido pelo irmão. Sobre a mãe de Cosme Damião Fernandes e do Visitador Fernandes, falecida em 1810, Dom Adelino Dantas escreveu: "quanto a Dona Luíza, mãe do Visitador Fernandes, merece ela, nestas comemorações do seu filho, uma evocação especial, foi uma dessas heroínas, dessas esposas e mães sertanejas, mártires do dever. Teria morrido muito jovem, levando para a eternidade as amarguras de um matrimonio atormentado, que cristãmente suportara”.
Sobre Cosme Damião Fernandes, nascido em 1799, que governou Caicó no período de 1840 a 1843, também Dom Adelino Dantas escreveu: “o Major Cosme, assim chamado por ter pertencido à Guarda Nacional, cidadão probo e honrado, hábil carpinteiro, casou-se com uma filha de Felipe de Araújo, tendo residido no Sitio Cavalcanti. Muito amigo do irmão padre, geriu-lhe os negócios civis. Faleceu repentinamente, no dia 3 de setembro de 1851, de sarampo recolhido, deixando numerosa descendência”. 
De fato, é grande a descendência do casal Cosme Damião e Izabel! Rossini Fernandes, ao falar sobre "José Josias Fernandes, perfil de um homem público" conseguiu relacionar os nomes da segunda geração da família em solo seridoense: Maria Izabel Fernandes casada com Joaquim Apolinar; Francisco Rafael Fernandes - sacerdote católico fundador de São Fernando; Ana Filgueira de Jesus casada com o Major Antonio Garcia de Medeiros; Egídio Malalael Fernandes casado com Olímpia Dantas e, em segundo matrimonio, com Maria Paulina de Araújo; Manuel José Fernandes (meu trisavô) casado com Cristiana Fernandes e, em segundo matrimônio, com Maria Rozalina Bezerra Galvão (minha trisavó); Ananias Fernandes Pimenta casado com Maria Senhorinha de Araújo e, em segundo matrimônio, com Vicência Bernardino de Medeiros; Isabel Fernandes casada com Manuel Clementino Dantas; Ezequiel de Araújo Fernandes casado com Josefina de Araújo Nóbrega e, em segundo matrimônio, com Teresa Bezerra Galvão.
Com tanta descendência, a família Fernandes - inaugurada pelo casal Cosme Damião e Izabel no Seridó - está espalhada muito além do solo potiguar, todavia, com as amarras dos laços e entrelaços do parentesco que nos unem ao velho tronco!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

BULA MEDICAMENTOSA

Valério Mesquita*

Jesus Cristo, o amado mestre, falava através de parábolas. O ser humano comum, quando muitas vezes quer dizer uma verdade, escreve por linhas tortas. Esse preâmbulo indefectível vem esbarrar num assunto que desejo abordá-lo via deduções preterintencionais, comparativamente a uma bula medicamentosa. Repleta de disse-me-disse. Falo do famigerado coeficiente eleitoral, a mais afiada faca de dois gumes do processo eleitoral brasileiro. Modelo injusto e antidemocrático, que eleva ao podium o lanterninha em detrimento do mais votado. O resultado, muitas vezes, de uma eleição, não reflete a manifestação da maioria, principio fundamental de qualquer processo decisório.
O escorre das votações ou proclamação de resultados, em qualquer atividade institucional ou não, baseia-se na lógica numeral dos sufrágios. Nos plenários do Legislativo, do Judiciário, dos Tribunais de modo geral, no placar das competições esportivas, no Vaticano, no sindicato, na OAB, no ABC, no grêmio escolar, enfim, em qualquer seguimento coletivo a expressão dos mais sufragados - é a respeitada. Até a lei de Gerson é a da vantagem. Somente o processo eleitoral brasileiro é liquidificado, diluído, triturado, para inverter e subverter a escolha popular que deu três mil votos a um candidato mas o que se elege é aquele dos quinhentos. Acho perverso esse sistema. A maioria dos pequenos partidos que abunda o elenco eleitoral é useira e vezeira na prática de registrar candidatos fajutos apenas com o intuito de alimentar a legenda.
O coeficiente eleitoral, assim, é semelhante a bula medicamentosa. Esta tem efeitos colaterais pois ofende a todo organismo da eleição. Elege quem não devia. Retira do eleitor a primazia de escolher o melhor, retirando do túmulo do processo o opaco e o onomatopaico. Envia para a casa do povo o que não deve ir – o lôgro. Verifique o resultado das urnas, à luz mortiça das reações adversas que o coeficiente eleitoral tem provocado nos legislativos de modo geral só para atender ao cálculo equivocado que premia o caricato partido político e derruba o valor pessoal, humano, valorativo e majoritário do candidato. Ainda dentro da posologia sobre o assunto as minhas precauções residem no fato de entender que o homem deve ficar acima da agremiação. A proliferação das legendas têm trazido mais problemas para a democracia do que o político solitário. Afinal, o mensalão, o lava jato e outros escândalos foram obras da proliferação de partidos nanicos.
A superdosagem de corticóide no coeficiente eleitoral mascara o exercício da democracia. Além de alarmante, a sua aplicação penaliza, deturpa a face das urnas, a liquidez da escolha, a lisura da lei. Vamos construir um Brasil eleitor. Respeitando o direito da maioria do povo e não o artifício matemático, algébrico, trigonométrico do computador eleitoral. O voto é algo numeral e ordinal. Sentar na cadeira do eleito o menos votado é invenção escabrosa. É gambiarra, “morcego” e tapeação. Voto é maioria e não medicamento controlado e manipulado. Tarja preta para o coeficiente eleitoral! Aceito tudo o que for eletrônico numa eleição menos o coeficiente digitalizado porque nega o direito da maioria

(*) Escritor.

H O J E

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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

   
Lívio Oliveira
Navarro se espraia por nossos dias 
(Lívio Oliveira) 

Todos os dias, invariavelmente, ponho-me logo cedo diante da janela do meu quarto e fico a (ad)mirar por entre os dois leques invertidos da Ponte Newton Navarro. Tenho a sorte de ver os azuis de Navarro daqui da minha “nuvem” (lembro do nome dado por Neruda a sua poltrona em Valparaíso), ao tempo em que enxergo toda a estrutura da ponte, que corre em perpendicular aos olhares que lhe aponto. Não deixo de afirmar que a estrutura arquitetônica é uma bela homenagem a um poeta, escriba mágico, bem como a um artista visual que sempre esteve em movimento, construindo ligações entre passado e futuro, entre o difuso das cores e formas e a edificação real ou surreal das palavras, que sabia usar na ponta do lápis e na ponta da língua. O texto e a textura. O real e a poesia. Navarro e Natal. E o mundo todo em Navarro. E suas descobertas “newtonianas” das belezas que há, onde nossa visão quiser e puder ver. E a homenagem da arquitetura da ponte se torna maior porque fincada em solo e águas da garganta que recebe mares da Europa, mares da África, mares da América. 

Navarro é mar. É Atlântico e além. Navarro é rio. É Potengi e além. Além é Pacífico, Mediterrâneo, Tejo, Sena. É o fluido e colorido que corre na aldeia e o que foge para o encontro com o mundo, o rendez-vous inadiável. É o encontro de tudo isso com o céu azul e com seus chumaços de nuvens branquinhas, branquinhas. Navarro é a fortaleza nas vizinhanças. E é a suavidade delicada dos seus traços. É a madureza da sua palavra inteligente, ousada, viva de emoção e verdade. Navarro é a infância ingênua do sonho alimentado de eterno. Navarro vem em ondas, como o mar, para não esquecer jamais um outro grande poeta boêmio, Vinicius de Moraes, seu amigo, que também vivia de paixões, vivia sempre de paixões. 

A paixão de Navarro era pela luz. Viveu para a luz e para a cor que era banhada por ela. A luz do sol que jogava raios dourados sobre o Potengi e sobre os muitos mares que circundam a nossa quase-ilha Natal. Navarro narrava a luz. E dizia o que ela era. Dizia e diz para todos os viventes, vez que sua obra permanece e se espraia, doando ainda e crescentemente o amor às formas sensuais, aos personagens bem desenhados em palavras ou traços. 

Navarro existiu? Não existiu? É lenda? É mito? É realidade que teima em aquecer e enriquecer os seus conterrâneos e aqueles de terras distantes que incorporou ao repertório e à saga? Por que tão pouco vi Navarro? Saudades de uma única e valiosa conversa regada a cerveja num barzinho (nem sei se ainda existe) da Salgado Filho. Lembra, amigo e colega Fábio Hollanda, da aula que perdemos e da aula que ganhamos naquela noite boêmia em que saímos do Campus da UFRN e encontramos o mestre colossal numa solitária mesa e nos dispusemos a acompanhá-lo em longa conversa até a chegada do seu táxi previamente combinado? 

E Navarro permanece. Permanece e está mais vivo, que é o que se dá quando o espírito é grandioso e a arte é marcante. “Ars longa, vita brevis”. Navarro é a própria ponte. Não está somente representado nela. É a ponte que permite ligar artes e tempos. Fico mais convencido e tranquilizado acerca disso quando vejo homenagens preciosas como o belíssimo livro organizado por Angela Almeida (“Newton Navarro – os frutos do amor amadurecem ao sol”, EDUFRN), recentemente lançado no espaço cultural da resistente e valorosa livraria da Cooperativa Cultural da UFRN, sob os auspícios do dedicado e íntegro professor Willington Germano, mostrando a continuidade corajosa dessa obra coletiva (a Cooperativa), orgulho para a UFRN e para o Rio Grande do Norte. 

No livro publicado por Angela Almeida, que conta com muito competente projeto gráfico de Rafael Sordi Campos e de Wilson Fernandes de Araújo Filho, constam inúmeras fotos que a pesquisadora fez ao se debruçar sobre as obras em pintura de Navarro pertencentes a acervos diversos. Paisagens exuberantes e iluminadas, figuras humanas com seus ricos conteúdos em sentimentos e expressões, movimentos: o balanço lúdico das crianças, o balanço das pipas no ar, o balanço azul das ondas no mar, o balanço do pano das jangadas, o balanço da rede que engole a bola chutada em curva, o balanço das asas dos pássaros que sobrevoam Natal desde a Fortaleza dos Reis Magos até a saída para outras terras. E hoje temos outros autores/pesquisadores que, tão amorosamente quanto Angela Almeida, vêm fazendo um grande e imprescindível balanço da obra, em palavra e em imagem, de Newton Navarro, nosso artista múltiplo mais exuberante. Por uma razão somente: Navarro se espraia sobre todos nós, os que sabemos entender como ele foi grande nesta terra. E sempre teremos novas notícias dele. Não importa quanto tempo passe.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O IHGRN HOMENAGEIA O GRANDE LÍDER


Em 2013 o grande jornalista, recentemente falecido e um dos baluartes da Maçonaria Ticiano Duarte, publicou um elogio ao exemplar líder maçônico ARMANDO DE LIMA FAGUNDES que partiu para a outra dimensão da existência. Não poderia descrever esse extraordinário homem do Bem de forma melhor como o fez Ticiano, agora reproduzido, com pequenas adaptações:

A gratidão da Maçonaria

Ticiano Duarte - jornalista
As minhas palavras de homenagem ao grande líder maçônico, Armando de Lima Fagundes, um dos seus fundadores e veneráveis, por mais de 08 anos, em diversos mandatos, quando comandou a luta pela construção da sede própria, do Templo, da Escola, que tem o nome do seu pai, Bartolomeu Fagundes, um dos grandes expoentes da maçonaria nordestina que segurou uma bandeira primeiramente desfraldada pelo avô, o vigário Bartolomeu, o memorável sacerdote, político e maçom, que fez história pelo gesto desassombrado e autêntico, no episódio da Questão Religiosa. Este é um episódio histórico que não pode ser contado em pouco espaço de jornal e que está registrado em livros, entre os quais se destacam os do professor Antônio Fagundes e do saudoso irmão, José Coutinho Madruga.

Na síntese que fiz sobre o trabalho maçônico de Armando, do bisavô, do avô, Emídio Fagundes, do pai acima mencionado, falei que maçonaria se faz com muito amor, desprendimento, renúncia, tolerância e humildade. Lembrei as palavras de Paulo, apóstolo, quando se referia ao amor verdadeiro. Dizia ele: “Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbolo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens e ainda que eu entregue o próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará”. E Paulo conclui seu belíssimo ensinamento ao afirmar que o amor não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade.

Depois de falar sobre as figuras que fundaram a Loja Bartolomeu Fagundes e de agradecer ao trabalho dos deputados Ricardo Motta e Walter Alves na batalha pela solução da legalização do terreno onde está construída sua sede, os quais abriram as portas para que chegássemos à audiência com a governadora do estado e depois com a ajuda substancial para aprovação, na Assembleia Legislativa, do projeto de lei enviado pelo Poder Executivo, em tempo recorde, falei sobre a união dos maçons, do seu significado para o engrandecimento do trabalho maçônico e da difusão dos seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Disse que a nossa Confederação Maçônica do Brasil, COMAB, tem na sua bandeira, estandarte uma legenda de muita significação-Ut omnes unum sint-que todos sejam um só, como exaltação à união. A interpretação, segundo os maçonólogos, é que a vida é importante e geradora dos melhores frutos ao vivermos em união, que todos sejam um só.

Relembrei o grande tribuno, Padre Vieira que ao falar sobre a união, dissera entre outras coisas que toda a Vida (ainda das coisas que não têm Vida) não é mais que uma União. Até o homem (cuja vida consiste na união de corpo e alma), com a união é homem, sem a união é cadáver. 

Citei o poeta, ao dizer quer Armando, aos 95 anos, ainda pode evocar as lições de vida de seu pai: Sangue do meu Sangue, boca do meu pão, água que te dou mata minha sede.  O mundo te espera: é tua pirâmide. Ergue a tua mão no dia magnético. Ergue a tua mão para a continência que és não só meu praça, também meu soldado. Meu filho varão”.

 
 

 
  
Marcelo Alves
 

Sobre “O sol é para Todos” (I)
Há alguns anos, quase numa só tirada, escrevi aqui, misturando Cinema e Direito, sobre alguns “filmes de tribunal”, que, em inglês, como uma subdivisão do gênero “legal films” (filmes cujo enredo, de uma forma ou outra, tem considerável ligação com o Direito), são chamados de “trial movies”, “trial films” ou “courtroom dramas”. Se a memória não me prega uma peça, dei aqui meus pitacos sobre clássicos desse (sub)gênero, tais como “Doze Homens e uma Sentença” (“12 Angry Men”, de 1957, dirigido por Sidney Lumet e com Henry Fonda no papel do jurado que, no confinamento da sala secreta, obstando a unanimidade, consegue convencer os demais onze jurados para fins de absolvição do jovem réu), “Testemunha de Acusação” (“Witness for the Prosecution”, de 1957, talvez o melhor dos “courtroom dramas”, dirigido por Billy Wilder e baseado em peça homônima de Agatha Christie) e “Anatomia de um Crime” (“Anatomy of a Murder”, de 1959, filme de Otto Preminger, estrelado pelo queridíssimo James Stuart).

À época, prometi, um dia, (re)assistindo mais um tanto desses grandes “filmes de tribunal”, voltar a escrever sobre o tema. Cumpro hoje minha promessa, tratando de “O Sol é para Todos” (“To Kill a Mockingbird”, no original), filme de 1962, baseado no romance homônimo (de 1960), vencedor do prêmio Pulitzer (de 1961), da escritora norte-americana Harper Lee (1926-).

Confesso que a escolha de “O Sol é para Todos” (“To Kill a Mockingbird”) para retomar a temática dos “filmes de tribunal” não foi aleatória. Foi motiva pelo recente lançamento, nos Estados Unidos da América, do novo livro da escritora Harper Lee, “Go Set a Watchman”, redigido nos anos 1950 como um primeiro esboço do romance “O Sol é para Todos” (“To Kill a Mockingbird”). “Go Set a Watchman” tem causado polêmica nos EUA e, talvez por isso mesmo, ali batido recordes de venda. Para se ter uma ideia, em “Go set a watchman”, Atticus Finch (personagem principal da trama) é um homem racista e intolerante, em claro contraste com o Atticus Finch de “O Sol é para Todos” (no filme maravilhosamente interpretado por Gregory Peck), advogado honrado que, no conservador Alabama pós Crise de 1929, defende um homem negro, acusado de haver estuprado uma jovem branca. Com lançamento no Brasil previsto para outubro (pelo que sei), “Go Set a Watchman”, muito provavelmente, será assunto, no futuro, de uma nova conversa nossa por aqui. Essa é minha intenção, pelo menos.

Sobre o filme “O Sol é para Todos” (“To Kill a Mockingbird”), é importante que se diga, antes de mais nada, que ele faz parte do período de ouro dos “trial films”, que vai dos últimos anos da década de 1950 aos primeiros da década de 1960 (de fato, já tive a oportunidade de registrar na crônica “Filmes de tribunal” que são desse período alguns dos maiores clássicos do gênero e, por que não dizer, do cinema como um todo).

Por sua qualidade, no Oscar de 1963, “O Sol é para Todos” acabou levando três estatuetas, melhor ator (Gregory Peck), melhor roteiro adaptado (por Horton Foote) e direção de arte em preto e branco, sendo o grande vencedor daquela edição, merecidamente, o premiadíssimo “Lawrence da Arábia” (“Lawrence of Arabia”, 1962), dirigido por David Lean.

Dirigido por Robert Mulligam, “O Sol é para Todos” conta no seu elenco com o premiado Gregory Peck (no papel de Atticus Finch), Mary Badham (Jean Louise “Scout” Finch), Phillip Alford (Jem Finch), John Megna (Dill Harris), Brock Peters (Tom Robinson), James Anderson (Bob Ewell), Robert Duvall (Arthur “Boo” Radley), Wilcox Paxton (Mayella Ewell), Estelle Evans (Calpurnia), Rosemary Murphy (Miss Maudie Atkinson), Frank Overton (Xerife Heck Tate) e Paul Fix (Juiz Taylor), entre outros.

No livro “100 filmes: da literatura para o cinema” (organizado por Henri Mitterand; publicado no Brasil, em 2010, pela editora BestSeller), o enredo de “O Sol é para Todos” está assim competentemente resumido: “Estado do Alabama, Grande Depressão da década de 1930 [precisamente, 1932]. Desde a morte da mulher, Atticus Finch, advogado idealista, cria sozinho os dois filhos, Scout [que narra, em forma de “flashback”, toda a estória] e Jem. Encarregado de defender um operário negro [Tom Robinson] acusado de espancar e violentar uma jovem branca [Mayella Ewell], Atticus enfrenta o ódio e o racismo da população local, em um julgamento de grande repercussão. Após uma tentativa de linchamento comandada pelo pai da vítima, Bob Ewell, o operário é condenado, apesar das provas de sua inocência. Desesperado, ele tenta fugir, e é abatido. Algum tempo depois, Scout e Jem são brutalmente agredidos por Ewell, mas Boo Radly, vizinho simplório [e com visíveis transtornos psiquiátricos] da família Finch, interfere e mata acidentalmente o agressor. O caso é abafado por Atticus e pelo xerife da cidade, tanto mais que uma forte suspeita recai sobre Ewell no caso do estupro de sua filha”.

“O Sol é para Todos” tem tudo que se requer de um excelente “trial movie”. Parte da estória se passa perante uma corte de justiça em pleno funcionamento, com advogado, promotor, juiz e júri realizando suas performáticas peripécias jurídicas. Como pano de fundo filosófico, há a tensão entre a falibilidade/hipocrisia/injustiça do sistema (ou da “justiça humana”) e a noção, com forte apelo no Direito Natural e na igualdade entre os homens, do que é a verdadeira Justiça. No mais, ao lado da imaginação poética da infância encarando a realidade da vida dos adultos (que seria o enredo “humano” do filme), o enredo “jurídico” de “O Sol é para Todos” foca no advogado generoso e idealista que é Atticus Finch, no controverso instituto do júri e, sobretudo, na absurdez de uma justiça (e de uma sociedade como um todo) racista e desigual.

Embora “O Sol é para Todos” possa nos levar, em alguns momentos, a visões equivocadas sobre a realidade do sistema judicial norte-americano (afinal, essencialmente, como quase todos os “filmes de tribunal, ele é uma obra de ficção), vale muito a pena estudar alguns dos seus temas “jurídicos”.

E é isso que faremos, se Deus permitir, na semana que vem.

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Mestre em Direito pela PUC/SP

domingo, 20 de setembro de 2015

EULÁLIA BARROS é A NOVA IMORTAL DA ANRL






 

















Em Assembleia Geral Extraordinária da última terça-feira, dia 15 de setembro, sob a presidência do acadêmico Diogenes da Cunha Lima, realizou- se a sessão da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, especialmente convocada para a eleição da nova ocupante da Cadeira nº 13 cujo patrono é Luis Fernandes, fundador Luis da Câmara Cascudo e sucessores Oriano de Almeida e Anna Maria Cascudo Barreto. Concorreram ao pleito as escritoras Eulália Duarte Barros e Naide Gouveia. 
Abertos os trabalhos precisamente às 16 horas, foi designada uma Comissão Eleitoral formada pelos Acadêmicos Carlos Roberto de Miranda Gomes, Leide Câmara de Iaperi Araújo, sob a presidência do primeiro, para a recepção de votos e apuração do resultado. A eleição ocorreu de forma absolutamente cordial até às 17h30 quando foi encerrado o processo de recepção de votos e iniciada a fase de apuração, com o seguinte resultado:  
Contados os sufrágios foi constatada a existência de 26 votos, entre as cédulas colocadas de forma presencial, em número de 20 e outras enviadas por correspondência, em número de 06. Não houve votos em branco ou nulos, nem ocorreu qualquer anormalidade, impugnação ou recurso, tendo todos os votos válidos sufragados em favor da candidata EULÁLIA DUARTE BARROS, em razão do que foi proclama pelo Presidente da Academia como eleita, sendo sido a mesma cientificada e solicitada a data para a posse.
A candidata eleita nasceu em Goianinha (1935), filha de Manuel Duarte Filho e Maria Nazareth de Andrade Duarte. Casada com o médico Genibaldo Barros. Graduada em Letras, curso de Bacharelado pela UFRN, tem pós-graduação, Mestrado em Educação pela própria UFRN. Como professora adjunta IV, foi fundadora do Núcleo Educacional Infantil, diretora do NEI por oito anos, assessora para assuntos da educação na  Biblioteca Central Zila Mamede.  É membro da União Brasileira de Escritores-UBE/RN e tem as seguintes obras publicadas:

Uma Escola Suíça nos Trópicos, 2000
Verdes Campos, Verdes Vales, 2004
Alguns Aspectos da Literatura Infantil
Escola Doméstica de Natal - 100 anos em retratos, 2014
É colaboradora com diversas revistas (Revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, Todas as Cores, Tribunal de Contas do Rio Grande do Norte, Revista Monsenhor).
Parabéns à nova imortal, de quem se espera uma profícua atividade em favor da cultura potiguar.

sábado, 19 de setembro de 2015

Academia Potengiense de Letras



DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA

“OPTIMUS INTERPRES VERBORUM QUISQUE SUORUM”
Ocupo, nesta Casa, com alegria profunda, GAUDIO PERFUNDI, a Cadeira de nº 22 cujo Patrono é o inesquecível Dom José Adelino Dantas, falecido em Natal, em 24 de Março de 1983. DIES SUPREMUM VALE! Um Homem Digno, um Príncipe da Igreja.  Foi um dos maiores Latinistas da nossa Igreja. Sacerdote de sensibilidade e cultura, sua vida foi uma exaltação à Verdade. Sua simplicidade arrastou até os incrédulos. Era de gesto manso e acolhedor, tinha a capacidade de sempre reunir e nunca de dispersar. De uma profunda cultura filosófica e teológica, foi eleito Bispo para servir à sua Igreja. Seu Lema Episcopal era de profundo sentido cristão, palavras cheias de Unção: “IN FINEM DILEXIT”. Ele era, em primeira linha, um Liturgo, e a partir deste seu predicado primeiro, um Mestre e um Pastor. Acompanhava e vivia as Determinações do Concílio Vaticano II, principalmente, na Desejada Renovação de toda a Igreja, OPTATAM TOTIUS ECCLESIAE RENOVATIONEM. Foi Membro da Academia Norte-Rio-Grandese de Letras, tendo tomado posse, exatamente, no dia 13 de Setembro de 1949, hoje, completando 66 anos, em substituição ao Cônego Luiz Gonzaga do Monte, ocupando a Cadeira de nº 22. A Solenidade aconteceu, na Sede do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, presidida pelo então Acadêmico, Paulo de Viveiros. Dom José Adelino Dantas, um Acadêmico que honrou a “Imortalidade”, um dos nomes mais altos com que pôde contar uma Academia de Letras. Tinha um domínio absoluto dos Clássicos. Poeta de grande estilo e de grande valor. Conhecia o maravilhoso segredo de dizer as coisas e tudo dizia com aquela nobreza de estilo e com aquela austera e linda disciplina. Era um homem sábio, sim, sabia tratar das coisas externas, sem perder a concentração interna; era um místico por dentro e um ativo por fora; homem de implosão mística e de explosão ética; um Pedagogo do Evangelho, educava pela presença, pela amizade, pela convivência, pela defesa dos valores da vida. Possuia sabedoria intuitiva, sem se derramar pela ciência analítica; guiava os outros sem os constranger; não se cansava de servir, não se cansava de ser útil. A este Homem de Cultura e de Fé minha homenagem, AB IMO CORDE, do mais íntimo do coração. Hoje, na Eternidade, a dizer ao seu Deus: – “ECCE EGO QUIA VOCASTI ME” – Chamaste-me e aqui estou. ADELINUS EPISCOPUS, ECCE SACERDOS MAGNUS, NOMEN MEMOR NOSTRUM SEMPER ERIT. PAX ET LAUS TIBI, COLUMNA LUCIS! MIHI PLACET LEGERE VESTIGIA TUA.
Sinto-me feliz em pertencer a esta Casa de Cultura e de Saberes. Isto redunda em honra para mim – ID MIHI LAUDI EST. Casa já enriquecida pelo Verbo dos que aqui, já convivem, fraternalmente, em Emulação, o que significa vida para as Letras e para a Cultura desta Cidade. Esta Academia é de Letras e também de Artes. Nela, há cultores também específicos de outras atividades intelectuais que não as Letras IN INGENUIS ARTIBUS VERSARI, mas todos, enfim, dominando os recursos linguísticos, na exposição do Pensamento. Todos dominando a Língua que traduz a nossa vida, a Língua que nos introduz à Nacionalidade, a Língua em que expressamos nossas raízes, nosso cotidiano, nosso futuro, a Língua Portuguesa, a Última Flor do Lácio, Inculta e Bela, no dizer de Olavo Bilac.
Esta Academia tem um Lema bonito e profundo: “SAPIENTIAM VOLUMUS” – Queremos Sabedoria. Todos nós nascemos com Inteligência, uns mais, outros menos, cabendo a cada um desenvolvê-la, no decurso da vida. A Sabedoria, porém, é um Dom de Deus, recebe-a quem assim for merecedor, quem se colocar, diante de Deus, com Humildade. O homem prepotente nunca a terá, daí a grande diferença, entre o Homem Inteligente e o Homem Sábio. “DOCTUS VIDERI POTEST, ESSE AUTEM SAPIENS NULLO MODO”, disse Santo Agostinho. Poderá parecer douto, inteligente e culto, porém, de modo algum, será sábio. Somente respirando o Húmus dos nossos defeitos é que podemos chegar perto de Deus. Do contrário, permanecemos como bêbados cambaleantes, amargando nossas solidões sem rumo. O remédio para todas as patologias da alma é a Humildade. O Húmus escondido que fertiliza e fecunda todas as nossas ações. Prepotência é fraqueza e miséria do Homem: Sonho de uma sombra. Para ser feliz é necessário Virtude e, principalmente, Moderação. “Não procures ser um Deus” – MÈ MATEÚSE THEÒS GENÉSTAI – disse o Poeta Grego Píndaro, que nas suas Odes, cantava os Felizes do Mundo.
O homem, na verdade, não se impõe pelo seu grau de escolaridade ou pela sua erudição. O homem se impõe pela sua Sabedoria que o torna capaz de extrair da própria vida, os elementos que lhe permitem compreendê-la. Ela é atividade do Espírito, esse Espírito que age, através dos nossos desejos, de nossas aspirações, de nossa inteligência. Ele é o elã de nossos sentimentos, o invólucro de nossas palavras. Ele é maior do que nossas impressões. Ele nos leva a fazer o caminho da Interioridade e a Descoberta do avesso de todas as coisas. Ele é o motor secreto de todo compromisso, Aquele entusiasmo que anima, Aquele fogo interior que alenta as pessoas, na monotonia das tarefas cotidianas, Aquele que permite manter a soberania e a serenidade, nos equívocos e nos fracassos da vida. Nossa Sabedoria se avalia pela abertura ao Espírito, na disponibilidade à Sua ação, num silêncio habitado. É no Silêncio do Coração, que aprendemos a discernir Sua presença e a ouvir Seus passos. Sabedoria, enfim, não é conhecimento intelectual, é algo que tem o gosto do desconhecido. Somos todos buscadores do Infinito, nômades no encalço da plenitude da vida. Fomos feitos para ir além, sempre além. Ninguém tem o direito de habituar-se e de satisfazer-se, no meio da estrada, é preciso buscar o que pode plenificar. Por detrás das coisas de todos os dias, estamos tentando nos deixar guiar por Aquele que mostra Caminhos, que aponta para a Luz. Estamos sempre fazendo e refazendo. Tudo está feito e tudo precisa ser refeito. “NIHIL ACTUM, SI QUID AGENDUM”.
O Lema da nossa Academia é um Dístico latino. Os Lemas das Instituições do Passado eram todos em Latim, bem como, por exemplo, os Tratados filosóficos, teológicos, os Prefácios dos Tratados de Medicina, como os de Dioscórides, Antístio e Hipócrates, sem falar das Encíclicas Papais e das Constituições Dogmáticas da Igreja. Latim, Língua Nobre, Culta, Erudita. Latim, Idioma requintado que nos permite uma liberdade, praticamente, absoluta do emprego da ordem indireta, permitindo aos bons Prosadores e Poetas uma sonoridade verbal que deleita os ouvidos e uma concisão de linguagem que nos encanta a mente. Língua riquíssima e harmoniosa, cuja Literatura representa, talvez, a mais perfeita expressão do Belo, reflexo da Beleza Infinita. A inegável gravidade e solenidade deste Idioma faz com que QUIDQUID LATINE DICTUM SIT, ALTUM VIDETUR, ou seja, qualquer coisa dita em Latim, soa profundo. Latim, Idioma de Virgílio, Ovídio e Horácio, Poetas latinos que tive a honra e o privilégio de traduzi-los, quando Aluno e quando Professor, no Seminário de São Pedro, “MIHI PRAETER OMNES, HIC FORMOSUS ANGULUS RIDET”. “ITA VIXI UT NON FRUSTRA NATUM ESSE EXISTIMEM”.
Casa Religiosa onde conheci noites e madrugadas, debruçado sobre Livros, aprofundando-me, nos conhecimentos do Mistério da vida. Aprendi que o orgulho mata a Bondade e a impaciência destrói a Esperança; que a dúvida condena o Sorriso e o medo torna o Amanhã impossível. Seminário onde a dinâmica da Educação definia, claramente, qual a atividade natural da Inteligência, dando-nos a orientação intelectual e espiritual, impulsionando-nos a alma em direção ao Absoluto, fazendo-nos acreditar que nascemos para destinos mais altos. Para mim, foi um tempo KAIROLÓGICO, tempo privilegiado, qualitativo e proveitoso. Tempo em que minhas palavras estavam sempre tecidas de silêncio e, sem ele, elas não teriam sido audíveis. Não era um mero calar-se, era um estado de vida, uma maneira de ser. Assim entendia que o meu silenciar não era apenas um ato civilizado, mas também um gosto pela palavra ouvida no coração. Palavra que expulsava o temor, suprimia a tristeza, infundia alegria, dilatava a compaixão. Palavra que constituia o acontecimento de tudo – VOX VERO VERBI OMNIS EVENTUS REI. Enfim, o silêncio não me era um abismo vazio, mas o que me permitia escutar bem a vida, condicionando-me à Ação Sagrada. Sobre tudo isto, “NON POSSUM NON LOQUI”, ou seja, não posso ficar calado. HOC MIHI HEREDITATE VENIT. Recordemos as palavras do Profeta que diz: – “O ato de olhar para o passado nos permite vislumbrar a esperança futura”. A vida sempre junta coisas do Passado e do Presente e assim a pessoa vai avançando, porque engloba no seu Presente, o Passado pela Memória, e o Futuro pelo projeto a ser realizado. Tudo o que foi, sempre é. O Velho e o Novo aparecendo entrelaçados entre si. O Novo crescendo do Velho e o Velho encontrando, no Novo, uma explicação mais plena. Eis o adágio que formula, em palavras lapidárias, as relações entre o Passado e o Presente. Diz, explicitamente, que o Antigo se manifesta no Novo, como o Novo está latente no Antigo – “VETUS IN NOVO PATET, NOVUM IN VETERE LATET”.  Se se perde a memória histórica, perde-se o rumo também. Quem perde o seu Passado, perde, também, as balizas do seu Futuro. Preservar o Passado é Tradição. Uma Tradição que nos possibilita ouvir, verdadeiramente, as vozes extintas do Passado.
Agradeço a todos a Bondade de me acolherem nesta Casa. Sou simplesmente um Ser humano em busca da Luz, em busca da Sabedoria. Digo como Fernando Pessoa: – “Não sou da altura que me veem, mas, sim, da altura que meus olhos podem ver”. Ninguém melhor que Blaise Pascal para expressar o Ser complexo que somos: – “O Ser humano, disse ele, é um nada diante do infinito, e um tudo diante do nada; um elo, entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde é tirado e o infinito para onde é engolido”. O Teólogo Teilhard de Chardin completa dizendo: – “Nele, o Homem, cruzam-se os três Infinitos: O infinitamente pequeno, o infinitamente grande e o infinitamente complexo”. Diante de tudo isto, podemos concluir dizendo: – Sentimo-nos todos incompletos e ainda nascendo. Estamos sempre na pré-história de nós mesmos, somos um projeto infinito que reclama seu objeto adequado, também infinito, chamado Deus. Não podemos aceitar que o Sal se torne insípido e a Luz fique escondida. Caminhamos rumo a um horizonte que nos transcende, vamos além da nossa própria finitude, buscando as coisas do Alto, e com asas bastante vigorosas para nos lançarmos ao vácuo. QUAE SURSUM SUNT QUAERITE. Disse o Poeta latino Ovídio, no começo de “As Metamorfoses”: “PRONAQUE CUM SPECTENT ANIMALIA CAETERA TERRAM / OS HOMINI SUBLIME DEDIT, CAELUMQUE TUERI / IUSSIT ET ERECTOS AD SIDERA TOLLERE VULTUS” – E, ao passo que os outros animais se inclinam para a terra, Ele, (o Criador), deu ao Homem um rosto voltado para o Alto, mandando-o encarar o Céu e contemplar os Astros. Finalizando, digo a todos que este Momento me marcou. Acredito que vocês me receberam, não tanto no espaço de uma Casa, mas, sobretudo, no afeto e na alegria de uma vida acadêmica de nível elevado. “FORSAN ET HAEC OLIM MEMINISSE IUVABIT” – Um dia, será bom relembrar essas coisas. NON DEPONERE POSSUM MEMORIAM – Não posso esquecer o que, aqui, aconteceu.

São Paulo do Potengi, 13/09/2015
José Ferreira da Rocha
Escritor