quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Um acontecimento relacionado à Ilha de Manoel Gonçalves, 1828

Por João Felipe da Trindade
Isso aconteceu na praça de Recife. O anuncio foi feito por meu trisavô, José Martins Ferreira


Convite de Lançamento do Livro: ILHA DE MANOEL GONÇALVES

Este livro será lançando no dia 8 de dezembro de 2016
No Espaço Hipotenusa, Rua Marize Bastier, 207
A partir das 17 horas
Telefone de contato: 84 99982-7116 
e-mail: jfhipotenusa@gmail.com




terça-feira, 29 de novembro de 2016

SAUDADE - RESPEITO - PAZ








 



Onde nasceu Laranjeiras

14/09/2016



Por Gustavo Sobral, fotografia acervo da familia

O engenho era a fábrica de se produzir açúcar, os torrões transportados em lombo de animal até Igapó e ali de canoa pelo Potengi até os armazéns da Ribeira em Natal. Aquele engenho era movido a besta na almajarra, nele conduziam a lida, tirador de cana, cambiteiro, mestre do açúcar, os trabalhadores. A cana plantada no solo de massapê, fértil, rico, fecundo, que bebia no rio Ceará-Mirim.

Engenho em um único edifício abrigava todas as funções para o fabricação do açúcar, moenda, caldeira, casa de purgar. Lá no alto o bueiro e a casa grande, plana, comprida que ao engenho se irmanava. Ainda havia a pastagem dos animais, o sítio de fruteiras, as mais diversas, e um roçado.

A manga bacuri de Laranjeiras era o sabor inesquecível daquele tempo. "Luzia feito gemas nos caçuas de cipô", escreveu sinhazinha Magdalena Antunes, que menina viu na feira. O caldo que escorria da moenda seguia para o paiol e do paiol para os tachos aquecidos pelo fogo da fornalha onde começava o cozimento e as chamas subiam o bueiro e ganhavam todo o vale.


Formava-se o mel de engenho que seguia para bater e depois para a casa de purgar onde era despejado nas formas.  Assim o melaço terminava de cristalizar e virava o mais doce açúcar.


   
Marcelo Alves

 
Sobre “O vento será a tua herança” (III)

Como prometido aqui na semana passada, hoje analisaremos “juridicamente” o filme “O vento será a tua herança” (“Inherit the Wind”), de 1960, direção de Stanley Kramer (1913-2001), anotando/discutindo uma meia dúzia aspectos da sua narrativa que estão vinculados, direta ou indiretamente, ao direito. 

Comecemos anotando, na esteira do que também fazem Steve Greenfield, Guy Osborn e Peter Robson (em “Film and the Law: the Cinema of Justice”, Hart Publishing, 2010), que “O vento será a tua herança” (“Inherit the Wind”) é memorável pelas suas várias cenas de tribunal, talvez em particular a inquirição (em “cross-examination”) do próprio promotor Matthew Harrison Brady (brilhantemente interpretado por Fredric March), “que é chamado como testemunha, para explicar o significado da Bíblia”. 

Ademais, deve ser registrado que “O vento será a tua herança” (“Inherit the Wind”) faz parte de uma longa tradição do cinema americano de fazer do advogado o herói dos seus filmes de tribunal. Talvez por isso, como registra Christian Guéry (em “Les avocats au cinéma”, Presses Universitarie de France – PUF, 2011), quase todos os grandes atores americanos tenham em algum momento interpretado o papel de um advogado herói, a exemplo de Henry Fonda em “Young Mister Lincoln”, Gregory Peck em “To Kill a Mockingbird”, James Stewart em “Anatomy of a Murder”, Kirk Douglas em “Paths of Glory” e por aí vai. “O vento será a tua herança” tem o seu “herói jurídico” precisamente no advogado de defesa Henry Drummond, interpretado por Spencer Tracy. Mas há também no filme a figura do “advogado vilão”, que é o promotor especialmente designado para o caso, o famoso Matthew Harrison Brady, muito embora, nesse caso, esse “vilão” nos provoque, pela sua sincera fé na causa, aqui e acolá, certa simpatia. 

Na verdade, nos Estados Unidos da América, a coisa vai ainda mais longe. Conforme lembra o mesmo Christian Guéry, o cinema americano costuma celebrizar na grande tela as vidas profissionais ou as atuações esporádicas como advogados de alguns dos seus grandes homens públicos. São os casos, por exemplo, de Abraham Lincoln (1806-1865) em “Joung Mister Lincoln”, filme de 1939, com direção de John Ford (1894-1973), e, mais recentemente, de John Quincy Adams (1767-1848) em “Amistad”, de 1997, com direção de Steven Spielberg (1946-), ambos, como sabemos, ex-presidentes dos EUA. “O vento será a tua herança” (“Inherit the Wind”) tem no seu advogado de defesa, Henry Drummond, uma representação (ficcional, claro) do grande Clarence Darrow (1857-1938, sobre quem já escrevi aqui), que é muito provavelmente o advogado real mais citado e representado – de forma elogiosa, invariavelmente – no cinema americano e, quicá, mundial. Isso sem falar que o personagem Matthew Harrison Brady é inspirado em William Jennings Bryan (1860-1925), também uma figura de peso na história/política americana, especialmente na virada do século XIX para o XX, que foi três vezes candidato quase vitorioso a Presidente daquele imenso país. 

Não estranhamente, o protagonismo dos advogados em “O vento será a tua herança” (“Inherit the Wind”) é inversamente proporcional à relevância (para a trama) dada ao juiz que preside o julgamento do filme. De fato, o juiz Mel Coffey (personagem de Harry Morgan) limita-se a observar a batalha entre os titãs ficcionais Matthew Harrison Brady e Henry Drummond. Como apontam os já referidos Steve Greenfield, Guy Osborn e Peter Robson, sua principal decisão, claramente ironizada no filme, foi “conseguir que Henry Drummond fosse nomeado coronel do estado do Tennessee, como o seu adversário, para prevenir que uma maior autoridade estivesse investida em seu oponente”. 

O filme de 1960 é ainda conhecido e elogiado por tratar de alguns dos grandes problemas enfrentados pela sociedade americana, entre eles o radicalismo religioso, o moralismo e o preconceito que, permeando toda a vida na pequena Hillsboro, de logo faziam do julgamento do jovem professor Bertram T. Cates (interpretado por Dick York) um “jogo de cartas marcadas”. O júri de “O vento será a tua herança” (“Inherit the Wind”), como representativo daquela sociedade, compartilhava, em sua imensa maioria, por exemplo, os mesmos valores religiosos fundamentalistas de viés criacionista. E o filme faz uma crítica explicita ao preconceito dos jurados, algo que, para quem milita nessa área, é bastante conhecido, frequentemente prejudicando a imparcialidade dos julgamentos no tribunal do júri. Numa excelente cena de tribunal, no momento da escolha/rejeição dos jurados, o advogado defesa Henry Drummond começa perguntando a alguns potenciais jurados se eles acreditam na bíblia e se já ouviram falar de Charles Darwin (1809-1882). Mas, em determinado momento, constatando que o radicalismo religioso estava impregnado naquela comunidade, e querendo deixar isso claro, ela passa a rejeitar os jurados após apenas fazer a pergunta “como vai você?”. Aliás, o filme, nesse ponto, como anota o já citado Christian Guéry, busca ser fiel ao que se deu no caso real em que se baseia. No caso verdadeiro, restou famoso o diálogo de Clarence Darrow, atuando como advogado de defesa, com um dos potenciais jurados. O famoso advogado perguntou ao jurado se ele já havia discutido a teoria da evolução, se havia entendido os sermões sua igreja sobre o tema, se havia entendido o que o promotor falara ou se tinha anteriormente escrito sobre o assunto. O potencial jurado responde que não, que tinha pouco estudo e que, na verdade, nem sabia ler, ao que Darrow replica, brilhantemente: “Bom, você tem uma chance” [“de ser imparcial”, acrescento eu]. 

Bom, para finalizar, faço apenas mais uma observação: assistam ao filme “O vento será a tua herança” (“Inherit the Wind”). Vocês vão gostar deveras. 

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Mestre em Direito pela PUC/SP

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Macaíba



VALE A PENA PEDIR DE NOVO



Valério Mesquita*




O rio Jundiaí, no trecho em que atravessa a cidade de Macaíba, perdeu o solo, o curso, o chão, o cheiro, a visão e é ameaça a segurança dos habitantes. Entre o parque governador José Varela e a praça Antônio de Melo Siqueira deixaram crescer no leito poluído imensos manguezais que enfeiam um dos mais bonitos logradouros urbanos. Essa selva esconde lixo doméstico, carcaças de animais, marginais do tráfico de drogas em todo o seu percurso e os galhos já ultrapassam a altura da ponte e das balaustradas.

A Tribuna do Norte publicou ano passado, excelente matéria sobre tudo que ameaça e destrói os rios Potengi e Jundiaí. Mas, o foco da minha questão e, creio, dos cidadãos macaibenses, reside exatamente neste aluvião de perguntas: por que o Idema e o Ibama não evitam, aparando, podando, somente nesse trajeto o “matagal” entre o antigo cais do porto até a outra lateral da ponte? Por que não licenciam a prefeitura para o fazer?

A praça e o parque perderam o charme de antigamente. Ninguém enxerga ninguém, olhando de um lado para o outro. A conscientização ambiental deve ser obedecida até onde não prejudique a funcionalidade urbanística e o senso prático e plástico do mapa citadino. Desde quando, em 1950, se planejou e se construiu a estrutura de pedra e cal das duas margens, o choque do progresso jamais prejudicou a superfície do rio. Nem, tão pouco, o molestaram, a expansão e o desafio do crescimento habitacional. Pelo contrário, a construção ordenou a trajetória das águas e defendeu as ruas periféricas contendo os transbordamentos. Contemplo, hoje, que os problemas das inundações estão equacionadas com a construção da barragem de Tabatinga. Por que o Idema  e o Ibama, tão preocupados com o meio ambiente, não permitem, apenas, nesse, pequeníssimo trajeto fluvial o corte da poluição visual da paisagem urbana e memorial de Macaíba?

Ali, a vegetação gigantesca e desproporcional encobre um dos pontos históricos do município. Refiro-me ao cais das antigas lanchas que faziam o percurso fluvial entre Macaíba e Natal: a lancha do mestre Antonio, o barco de João Lau, além da lancha “Julita” que transportou tantas vezes Tavares de Lyra, Eloy, Auta e Henrique Castriciano de Souza, Augusto Severo, Alberto Maranhão, João Chaves, Octacílio Alecrim e tantas outras figuras notáveis da vida social, cultural, política e econômica. Todos se destacaram nos planos estadual, nacional e internacional. Ali, o centenário cais, jaz sob os escombros de verdes balizas envergadas e fantasmagóricas. A visão noturna é tétrica e arrepiante. Desfigura e mutila os padrões estéticos do planejamento da urbe que a faz parecer abandonada e suja. Até a lua cheia que nasce lá por trás do Ferreiro Torto foi encoberta.

Assim como se deve obedecer a educação ambiental, do mesmo modo, exige-se o tratamento e o corte do matagal por parte do Idema e do Ibama a fim de evitar o represamento do lixo no leito, exclusivamente urbano. Nas capitais e cidades importantes do Brasil banhadas por rios não se vê tratamento tão dispersivo e indiferente da parte dos órgãos responsáveis. Ao redimensioná-lo neste texto, cabe aos institutos prefalados uma reflexão, um reestudo sobre o cenário dantesco do rio Jundiaí na parte descrita. O povo macaibense tem o direito de ouvir e a coragem de duvidar que essa “selva amazônica” que devora e perturba a todos seja explicada e resolvida, sem slogans, clichês, palavras de ordem, lugares comuns, peças de marketing ou princípios dogmáticos. Que venha à lume as boas intenções e que não fique Macaíba submersa na floresta de manguezais, ocultando o passado de sua arquitetura urbana de quase setenta anos: Parque Governador Jose Varela e Praça Antônio de Melo Siqueira (1950).



(*) Escritor.

domingo, 27 de novembro de 2016

CANTILENA DO BECO DA QUARENTENA - GUMERCINDO SARIVA


A célebre rua estreita e curta, na sua longa existência tem aparecido através de música, teatro, prosa, quadra epoemas modernos, mas, nunca em versaria completa, historiando a sua vida passional, como agora o fazemos, dando-lhe o título de CANTILENA DO BECO DA QUARENTENA, O mestre Castilho, em sua época, condenou as Sextilhas, mas os cantadores de vida, principalmente Nordestinos, escreveram seus poemas no estilo tradicional, também conhecidos por versos-de-seis pés.

A Sextilha-setissílaba tem várias formas de rimas, mas adotamos, como a maioria dos cantores-matutos, na fórmula mais popularizada – ABCBDB, - muito usada a começar do Século XVI. Mesmo os poemas eruditos, versejaram neste estilo e eram aplaudidos porque o canto logo cedo seria decorado pelo emparelhamento das rimas visivelmente aparecendo quase juntas.

Sobre o termo CANTILENA, que tanto pode ser uma cantiga suave, como também uma narração fastidiosa, impertinente e enfadonha, resolvemos situá-la fora da canção que, na musicologia - aparece i

Há muitos anos vimos realizando uma pesquisa em torno de logradouros natalenses, insignificante, inexpressiva, atoa, e J. J.,Rousseau chegou a dizer que não era aconselhável seu nome aparecer nos dicionários musicais, contudo, o dicionarista português Ernesto Vieira afirmou - "Hoje emprega-se o termo num sentido desprezível para
designar uma melodia trivial e monótona". E num dos versos de Camões
- OS LUSÍADAS - encontramos: - “As doces Cantilenas que cantavam os emicapros deuses”,

No nosso livro ADAQIÁRIO MUSICAL BRASILEIRO, editado por Saraiva S/A, S. Paulo, pg. 41, sobre o termo, escrevemos: - “Acaba com essa cantilena - que é uma canção suave, cantiga simples. No sentido em que se emprega o adágio, quer dizer' entretanto, que se deve acabar com a maneira usada para iludir, com a astúcia, Acabe com cantilena - isto é, deixe de querer tapear, iludir, enganar”.

Estando, portanto, Cantilena em vários dicionários de música, chegamos à conclusão que o vocábulo de tão simples formação, representa um insignificado aspecto na fonologia de um povo. E, de sua inexpressividade, apelidamos a versaria comida neste trabalho.

-oOo-

A promiscuidade dos sexos, o oficialismo da prostituição adesmoralização da sociedade com seus costumes educativos a perversão desenfreada, edificam-se em Natal no início do Século XVII e talvez atravesse outros tempos que vierem pela frente, porque continua cada vez mais alargado o caminho espaçoso, tenso e amplo da miséria humana, vivida no centenário “Beco da Quarentena”.
mas, o "Beco da Quarentena" foi o que mais impressionou ao estudioso dos costumese tradições norte-rio-grandenses, porque em nossa meninice fomos assíduos frequentadores daquele antro de vícios, juntamente com outros colegas que já se foram do nosso convívio. Consequentemente, jamais no bairro da Ribeira uma rua ilustrou tanto as páginas de jornais, com assiduidade e constância, a boemia, a vagabundagem, a imoralidade e a falta de decoro na ociosidade daquele ambiente de degenerescência moral.

Anos passados, numa das aulas que demos 'no "Curso João Caetano", promoção do "Teatro de Amadores de Natal", a convite do teatrólogo Sandoval Wanderley, no prédio do "Instituto Histórico e Geográfico do Rio G. do Norte, abordamos o tema da poesia popular, ocasião em que lemos o trabalho agora transformado numa plaquete, a nosso ver, sem nenhum fator literário. Oferecendo em seguida a versaria, eis que Sandoval Wanderley transformou o assunto numa peçade sua autoria.

No decorrer do tempo, outros poetas e escritores escreveram trabalhos literários enriquecendo a cultura norte-rio-grandense, envolvendo fatos existidos no famigerado logradouro que ainda hoje vive seus dias amargurados porque ainda é notória e até de “utilidade pública” sua vivencia repleta de mulheres “perdidas”, alcoólatras inveterados e toxicômanos encontrando nos entorpecentes as sensações anômalas de uma geração cheia de complexos sociais. 

A história contada pelo amigo que pediu segredo é verdadeira. Ouvimo-la e a levamos para a versaria já conhecida por alguns intelectuais de nossa terra, pois há precisamente cinco anos fizemos publicação na Tribuna do Norte – 22-7-73 de uma parte da narração e, em seguida, um grupo de oficiais da Policia Militar do Estado tirou vários exemplares em xerox.


G. S.
Natal, março de 1979





Vou narrar a triste história
Que um amigo montou
Pedindo ocultar seu nome
Que o poeta concordou.
Entre soluços e prantos
Ele, assim, desabafou:

- “A criança é tal como ave”
Que voando na amplidão.
Não conhece o bom caminho
Segue em qualquer direção
Por isso, as vezes baqueia.
Recebendo após, perdão.

Atira pedra, faz arte
e também não obedece
Os conselhos de seus pais
Sempre, sempre ela padece
Porque o mundo
é quem ensina
E quando adulto, agradece.

Meu velho avô me dizia
Que este mundo era uma escola:
Aprendia quem apanhava.
Cem pancadas na cachoIa
Vivi rolando na infância
Como se fosse uma bola ...

Nascendo na Verde-Baixa
Vim pra Natal logo cedo,
A criança destemida
Enfrenta a vida sem medo
Mas precisou muitos anos
Pra contar este segredo.

De fato, de minha terra
Saí feliz, satisfeito
Encontrando esta Natal
Sem maldade e sem defeito
Pois ela tinha o sabor
De alfenim, raiva e confeito.


Que as crianças saboreiam
Como faz o beija-flor
Sugando todo o aroma
No complexo do amor
Não é que os pássaros beijam
As flores com muito ardor?

Em natal fui avisado
Pra não fazer tal asneira:
- Cuidado com o certo Beco
Encravado na Ribeira
Onde vive a perdição
Em forma de escarredeira...

Mas não tomei os conselhos
Que me davam todo o dia
Até que desnorteado
Naquele Beco caía
E agora conto pra todos
Fruto de uma rebeldia:

No “Beco da Quarentena”
Conheci a perdição
No meu tempo de criança
Sem ter da vida a noção
Convivendo com a mulher
Que enlutou meu coração.

De lá saí arruinado
Me lembrando da besteira
- O amor era ali feito
Em cima de uma esteira
sob a, luz da lamparina
que era acesa a noite inteira.

Minha amante a mais nova
Inquilina da Pensão
Chegada ainda menina
Vinha do alto sertão
Trazendo um velho vestido
Uma calça e um sutiã.


Sua cor de Tez morena
Com cabelo cacheado
O corpo era um violão
Como sendo torneado
Tinha o rosto de criança
Parecia um mimo achado.

Sem nenhuma experiência
Embrenhou-se na desgraça
Juntamente com as colegas
Que eram moças de outra praça
Tomando a sua maconha
Com tangerina e cachaça

Às vezes, elaia no banho
La no Rio Potengi
Em noites de lua clara
Muitas horas eu assisti
Seu corpo banhado n’água
Como se fosse a Jaci.

Ainda nas calças curtas
Residindo na Ribeira
As mulheres “davam sopa”
Vivendo na bebedeira
Minha vida tinha inicio
No antro da “buraqueira”.

Naquele Becoda lama
Constantemente vivia
Entrando de porta adentro
E a pobre da inquilina
Desamparada morria.

Sem ter pra quem apelar
A miséria ali reinava
Jamais a “Saúde Pública”
Naquele Beco passava
Poe isso é que uma criança
Perdida no mundo estava.



Muitas “doenças do mundo”
Empestavam a mocidade
E essa chaga malditosa
Contaminava a cidade
Pois conheci muita, gente
Morrendo na flor da idade

A Polícia era constante
Dava ronda a noite
inteira
Mas nunca evitou as brigas
Vivendo de tal maneira
Que muitas mortes ali houve
Por-causa da bebedeira.

No outro dia, os Jornais
Lamentavam, tinham pena
Dando notas alarmantes
A coluna era pequena
Pra contar as suas brigas
No “Beco da Quarentena”.

Ocrime mais hediondo
De que tive conhecimento
Foi feito por um tarado
Por nome de Nascimento
Matou a Maria Rosa
ex-esposade um detento.

Nascimento era “embarcado”
Do navio “D. Vital”
E passando o ano inteiro
Afastado de Natal
Por isso matou a Rosa,
Através do seu punhal.

Naquele Beco infeliz.
Conheceu a tal mulata
Conquistando o seu amor
Dando-lhe joias de prata
Assim, a Maria Rosa
Das mulheres, era a “nata” ...
Também conheci a Rosa
E com ela tive amor...
Era mulher carinhosa
Com seu corpo de esplendor
Seu riso, seu olhar triste
Tinha a ternura da flor.

Cantava samba e modinha
Ao som do meu violão
Recitava alguns poemas
Coma maior exaltação
Parecia a voz dos pássaros
Nas manhãs do meu sertão

Praieira dos meus amores
Rosa cantava sorrindo
Ninguém melhor do que ela
Interpretava sentindo
O que Otoniel contou
Naquele poema tão lindo.

Outras modas potiguares
Rosinha cantarolava
“Abre a janela ...” do Ivo
Feita a mulher que ele amava
E Olímpio Batista Filho
Horas depois, musicava.

As mulheres mais formosas
Daquele Beco infernal
Tinham os nomes mais lindos
Que conheci em Natal;
Rosa, Judith, Jurema.
Jaqueline e Marial,

Iracema eJacira
Julimar, Inês, Bonina
Iraci, Branca e Maria
Isabel, Mara e Alvina
Inês, Pureza, Cecí
Alice, Marta, Venina.


Foram “mulheres da vida”
eu de todas tinha pena
Pela fome que passavam
Corno um bando de falena
Vivendo desabrigadas
No “Beco da Quarentena”.

Infeliz de uma mulher
Que morar naquela rua
Nunca mais terá sossego
Com a vida que ali flutua
Pois pra ganhar o seu pão
Tem que ficar toda nua.


Vendendo por mixaria
O que lhe deu o Criador
Beijos, abraços, afetos
Felicidade e pudor
E seu formoso corpinho
O coração, e o amor.

Quarentena! És um inferno
Que os bichos-homens criaram
No reinado da miséria
Suas vidas estragaram
Infelizes dos mortais
Que naquele Beco andaram.

Quantas vidas preciosas
No Beco da perdição
Tiveram sua má sorte
Pois não indo pra Prisão
Findavam no Cemitério
Sem ter uma "Extrema-Unção".

Faca, peixeira, quicé
Canivete e até porrête
Eram armas que se usavam
Quando havia “tirinête”
E a soldada fugia
Pra se livrar do cacete.

Meu amigo Zé Vicente
Que morava em Caicó
Foi um menino educado
Pela sua bisavó
Logo cedo foi ao Beco
Saindo de lá, cotó.

Numa briga de malandros
Defendendo o Pedro Tasso
Duma bruta covardia
Levou um forte balaço
Indo ficar no "Hospital"
Perdendo afinal um braço

Pederastas, cafetinos
Maconheiros, afamados
Frequentavam o tal Beco
Sendo bastante estimados
Avistando com seus homens
Com os quais eram amigados.

................................................

Hoje sou velho e doente
Residindo no Alecrim.
Viajei todo o Brasil
Conheci o "bom e o ruim"
Mas igual aquele Beco
Só praga de mucuim.

E salvei-me porque Deus
O senhor da humanidade
Atendeu as minhas preces.
Teve de mim, piedade
Dando luz e suas
bênçãos
Ainda na flor da idade.

             -oOo-

Me despeço dos amigos
Motivado de emoções
No "Beco da Quarentena"
Tem mulheres e violões
Muita cachaça e maconha
Pederastas e ladrões!

 ______________________
colaboração de ODÚLIO BOTELHO