quinta-feira, 22 de junho de 2017

A ESTRELA DA TARDE, PARA OUVIR E SENTIR



DA SUPERPOPULAÇÃO NASCE O CAOS

Valério Mesquita

O agravamento dos problemas de saúde, segurança e desemprego no mundo e, particularmente, no Brasil, tem a sua raiz na explosão populacional. Não precisa ser cientista social, sociólogo, socialista ou qualquer profissional especializado para chegar às conclusões. Há cinquenta anos as entidades de planejamento familiar no Brasil não foram bem recebidas pela igreja, partidos políticos, governos estaduais e sociedade civil. Velhos tabus se interpuseram e malograram os propósitos da diminuição da natalidade que poderia ter atenuado hoje o crescimento geométrico da população e da demanda de saúde, de alimento, de emprego, de violência e tantas outras mazelas. O homem continua predador do globo terrestre e da sua própria vida quando, a cada dia, gera competitividade a si mesmo.
Observem o continente africano, com uma gama imensa de pobreza e de carências de todo o tipo. Ali a raça humana se acha em processo de extermínio mesmo, pela fome e pela doença. E os países ainda promovem guerras brutais numa verdadeira e escandalosa carnificina. E qual o divertimento dessa superpopulação oprimida e atrasada: o sexo, a procriação, que substituem ilusoriamente a falta de sustento, de assistência, de remédio, todos subjugados ao talante político de golpistas e demagogos corruptos. Mas, as nações do Novo Mundo, de idiomas espanhol e português, enfrentam as mesmas sobrecargas, migrando para a Europa que já fechou, por sua vez, as porteiras alfandegárias e diplomáticas. Para africanos e asiáticos, idem. As razões defensórias são as mesmas: os estrangeiros solapam e rivalizam o acesso à saúde, ao emprego e ao alimento com os nacionais, além de promoverem tumultos pela conquista de direitos sociais iguais.
O Brasil já supera os duzentos milhões de habitantes. É uma população que já ultrapassa a grandeza da sua dimensão territorial. Isso, por conta dos bolsões de pobreza, de desemprego, criminalidade e saúde pública (federal e estadual) sucateadas. Outro ponto concorrente reside na migração do homem do campo para as áreas metropolitanas. Aí se instala a desordem social, onde tudo que é excesso se transforma em coisa demasiadamente ruim. Quer um exemplo: a quantidade de veículos motorizados, o número crescente de assaltos, rios poluídos, água potável contaminada, escassez de moradias, e por aí vai. Tudo por quê? Porque existe gente demais. O país ignorante e analfabeto não elegeu uma política educacional de controle da natalidade para um desenvolvimento sustentável.
E daí? Tome improvisação e choque de gestão! Medidas oficiais somente paliativas e projetos megalomaníacos. O brasileiro espera sempre pelo milagre da terra, sem prepará-la, contudo, adequadamente, para produzir alimentos. No Rio Grande do Norte, quem está no campo produzindo? Quem deseja mais manter propriedade rural para ser tomada por bandos organizados e oficializados? A economia mundial sofre a pior crise da sua história, face à concentração de riquezas dos que aplicam dinheiro no arriscado mercado de capitais, em detrimento de bilhões de indivíduos marginalizados. Com efeito, levam os governos ao “salvamento” de bancos e empresas gigantescas, tirando das populações empobrecidas o direito ao pão, à saúde e ao teto. O “crescei e multiplicai-vos” foi levado muito ao pé da letra. Como diria um padre amigo meu, “isso aí é uma alegoria...”. Sou a favor da vida, mas é preciso ensinar o povo que botar gente no mundo sem condições de criar, hoje, é burrice e dor.


(*) Escritor.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

CHICO ANYSIO, O COMPOSITOR – Berilo de Castro


Durante muitos anos, o Brasil se alegrou, riu, aplaudiu e reverenciou o seu  humorista maior – Chico Anysio.
Em março do ano de 2012, perdemos o seu convívio. Faleceu aos  80 anos na cidade do Rio de Janeiro/RJ; uma perda lastimável e de difícil substituição.
Como é bom poder rever os seus inesquecíveis programas, quando são reprisados em forma de homenagem ao grande mestre do humorismo brasileiro.
Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho -( Chico Anysio ), Maranguape/CE, abril de 1931- Rio de Janeiro/RJ, março de 2012.
Sua história como compositor, surgiu e foi inspirada no final da década de 1950, ao escutar a música “Gente Humilde”, na versão instrumental gravada por Aníbal Augusto Sardinha ( Garoto – 1915-1955); muitos anos depois, a música recebeu a letra de Vinicius de Moraes e Chico Buarque de Holanda, consagrando-se como uma das mais belas poesias musicais da MPB.
Recebeu influência direta de sua mãe Haydée Paula, sua primeira parceira;  portanto, herdara uma forte influência genética da família, onde  todos  respiravam e nutriam música.
Teve a feliz e genial  companhia no início da sua carreira de compositor, da amiga, compositora e parceira   Dolores Duran (1930-1959), chegando a gravar um LP com quase todas as músicas de sua autoria; destaque para “A fia de Chico Brito”, um baião que fez muito sucesso e foi destaque no LP – “Estrada da Saudade”, de Dolores.
Em 1955, a revista Disco – Tocando/RJ, apresentou uma relação com as 100 melhores músicas brasileiras, na qual figuravam quatro composições de Chico Anysio em parceria com o potiguar( macauense) Hianto de Almeida, considerado por ele( Chico) como um grande músico e um dos precursores da Bossa Nova.
Foi na canção “Conversa de Sofá”, da parceria Chico/ Hianto, que o maestro Tom Jobim, fez o seu primeiro arranjo – o início da consagração e da imortalidade do genial maestro.
Chico compôs mais de 200 músicas. Seus principais parceiros foram: Dolores Duran, Arnaud Rodrigues (1942-2010) e Piau, que juntos criaram o trio musical e humorístico “Caetano e os Novos Baianos”(1970), como uma sátira ao movimento tropicalista; fez grande sucesso; gravou vários LPs; registro maior para a música “Vou batê pá tu”. Outra feliz parceria foi com Nonato Buzar (1932-2014), com a música ” O Rio Antigo”, com a belíssima interpretação de Alcione; com João Roberto Kelly,compôs “Rancho da Praça 11”, gravada brilhantemente por Dalva de Oliveira, a canção foi premiada no carnaval carioca do IV Centenário, no ano de 1965; com o músico potiguar Hianto de Almeida, gravou mais de 60 músicas.
Teve as suas músicas gravadas por grandes e famosos intérpretes, como: Dolores Duran, Elizete Cardoso, Dalva de Oliveira, Luiz Gonzaga, Benito di Paula, Alcione e outros.
 É bom rever, revelar e reviver essa bela e inteligente faceta, do nosso genial humorista Chico Anysio.
 Saudades!!!
Berilo de CastroMédico e escritor

sábado, 17 de junho de 2017



QUASE 90 ANOS VIVIDOS

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

                Mesmo sem a obrigação de escrever diariamente uma crônica para alimentar o meu blog, ultimamente tenho me metido a besta e me arvoro como escritor para registrar passagens que considero marcantes do cotidiano, boas ou não, mas necessárias para atiçar a cabeça dos meus leitores – será que não é mais um atrevimento pensar que os tenho! Estou sendo pretensioso ou preterdoloso?

            Pois bem, após um dia um tanto emocional, com o falecimento da amiga guerreira Wilma de Faria, a quem fui reverenciar com o último adeus na Catedral Metropolitana de Natal, acompanhado de Bob Furtado, passei a tarde escrevendo a continuação da segunda versão do meu livro Traços e Perfis da OAB/RN, com interrupção já a noitinha para ir à missa de 7º dia de Conceição Rocha da Costa, viúva de tio Pedro, retornando para continuar a missão.

            Já no roncar da noite caí exausto no ventre da minha rede e liguei a televisão na hora do Conversa com Bial,  jovem jornalista ressuscitado pela Globo com um programa de boa qualidade, apagando aquela imagem fútil e medíocre quando comandava o BBB.

            Nesta noite do dia 16 o prato do dia foi nada mais, nada menos, que ARIANO SUASSUNA, que chegou a quase 90 anos bem vividos, acho eu, pois conseguiu ressurgir das cinzas após o assassinato do seu pai, tornando-se a figura mais representativa do que de melhor existe no Nordeste brasileiro para oferecer.

            Sem dúvida, é um escritor multifacetário, expoente maior da verdadeira cultura do povo destas bandas, usando uma linguagem prosaica singular, nacionalista, ou melhor, regionalista,, que impõe ao Brasil a sua maior expressão de intelectualidade moderna e autêntica.

            Um verdadeiro gênio em todas as dimensões – um poeta, dramaturgo, folclorista, antropólogo, etnógrafo, artista, enfim, de dimensão infinita, obnubilado pela fama de outros expoentes das letras nordestinos, alguns até chatos, que apearam, por algum tempo, o desarnar de um futuro escritor.

            Diz-se, e é verdade, que para se consagrar alguém é preciso que ele morra. Tai coisa besta – ARIANO é imortal, se não ta vivinho bulindo fisicamente, sua obra continua a encantar.

            Receba, pois, o seu espírito todo o meu respeito e a minha saudade, ou melhor, para não ser paradoxal, tiro a saudade porque imortal não morre e, por isso, não deixa saudade. Talvez a força da expressão tenha me traído porque a sua obra parou por aqui com o que já fez e é muita coisa!

            Quem sabe se um novo Chico Xavier não aparece para receber novos contos!

            Terminei por hoje, ou, por amanhã! Já são 2 horas da matina de outro dia.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O ESTADO ESTÁ DE LUTO

Morre a ex-governadora Wilma de Faria


16 Jun 2017
Pioneira na política do Rio Grande do Norte, tendo sido a primeira mulher eleita deputada federal, primeira prefeita de Natal e primeira governadora do estado, uma das lideranças mais carismáticas da história potiguar, a “guerreira” Wilma de Faria morreu às 23h40 deste feriado de Corpus Christi, 15 de junho, aos 72 anos de idade.
Wilma vinha convivendo com câncer no sistema digestivo há mais de dois anos, quando passou por tratamentos quimioterápicos e algumas cirurgias em São Paulo e Natal.
Mas sempre tentando conciliar com agenda de trabalho, uma de suas maiores fontes de vida e razão pela qual tem reconhecimento dos norte-rio-grandenses, – pelo legado de muitas ações e investimentos em todas as regiões do estado.
Eleita vereadora de Natal na última eleição, Wilma estava licenciada da Câmara desde o dia 18 de abril. Ainda cogitava retornar às atividades, mas teve que ser internada mais uma vez. Estava desde o dia 3 de junho na Casa de Saúde São Lucas, onde permaneceu até agora quando veio a óbito por falência múltipla de órgãos.
O velório acontecerá no Palácio da Cultura e o sepultamento no Morada da Paz, em Emaus, com horários a serem definidos.
PROFESSORA
Mestra em Educação e especialista em Sociologia, Wilma Maria de Faria nasceu em Mossoró, na região Oeste, e cresceu em Caicó, no Seridó. Tem quatro filhos e 13 netos; era professora aposentada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde se licenciou em Letras.
Sua trajetória política foi marcada pelo pioneirismo e ousadia. Quebrando a forte herança machista no estado, Wilma foi eleita a primeira deputada federal pelo RN em 1986, atuando em defesa dos direitos dos trabalhadores – o que lhe rendeu nota 10 do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).
Em 1988 se elegeu a primeira prefeita de Natal, cidade que administrou por três mandatos (1988, 1996 e 2000). Já no ano de 2002 marcou mais um capítulo da história política do estado, ao ser eleita a primeira mulher a governar o Rio Grande do Norte, liderando uma frente de pequenos partidos. Foi reeleita em 2006.
Wilma de Faria também foi vice-prefeita da cidade do Natal entre 2012 e 2016, e presidente estadual do Partido Socialista Brasileiro (PSB/RN) por 20 anos. Atualmente era vereadora de Natal pelo Partido Trabalhista do Brasil (PTdoB) para a legislatura 2017-2020.
LEGADO
Por onde passou, Wilma foi destaque pelo seu trabalho e dedicação, principalmente na área social. Mas foi à frente do executivo estadual que a ‘guerreira’ desenvolveu suas maiores ações e obras, entre elas a expansão da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), a Refinaria Clara Camarão, em Guamaré; a Ponte de Todos Newton Navarro, em Natal; a Ponte da Ilha de Santana, em Macau; a Ponte de Jucurutu; o Complexo Turístico Ilha de Santana, em Caicó; a Revitalização da Av. Rio Branco, a construção do Expocenter e a implantação do Curso de Medicina, em Mossoró.
Destaque ainda para o Programa de Segurança Alimentar, com os Restaurantes Populares, assim como a duplicação do número de Centrais do Cidadão; além de ter realizado um grande programa rural de apoio ao homem do campo: o Desenvolvimento Solidário.

Wilma orgulha-se também de ter melhorado os índices socioeconômicos do estado, sobretudo em energia eólica, que alçaram o RN de zero em energia limpa ao 1º lugar nos leilões do país, além de no turismo, principal atividade econômica, ter colocado o RN como destaque do Nordeste.
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FONTE: POLÍTICA EM FOCO

quinta-feira, 15 de junho de 2017

RELEMBRANDO MOSSORÓ


  

   
Tomislav R. Femenick

CANGACEIRO: FRUTO DA FALTA DE
JUSTIÇA QUE IMPERAVA NO SÉCULO
PASSADO NO SERTÃO NORDESTINO


Reportagem de Tomislav R. Femenick, publicada no jornal Diário de Pernambuco, de 23 junho de 1968. 

É preciso que se faça um pouco de justiça quando tivermos de revisitar a vida dos cangaceiros e bandidos que infestam o Nordeste brasileiro, numa fúria de preamar de crimes, tropelias e devastações. 
Quando se diz “cangaceiro”, eu me recordo do famoso, Jesuíno Brilhante, que fizera justiça com o trabuco, na falta daquela que deveria punir com a Lei. 
FALTA DA JUSTIÇA – A falta de Justiça, no interior do País, gerou esse fruto perigoso que foi o cangaceiro, irmão siamês do banditismo. Jesuíno Brilhante, no entanto, não foi um bandido, na expressão do termo; foi o homem do cangaço, rebelde contra os seus inimigos. Isso nos idos do Império e albores da República, tendo como cenário, municípios do interior norte-riograndense e paraibano. Esse cangaceiro-cavalheiro protegia os fracos, as mulheres e todas as vítimas das misérias daqueles tempos. 
Antônio Silvio foi cangaceiro, também, e, como rezam as histórias das suas façanhas, protegia os pobres, dava esmolas, defendia os injustiçados. Devassava com os seus cabras, emboscando e, algumas vezes, queimando as propriedades e matando seus inimigos. Quando entrava numa fazenda, povoado ou vila, pedia apenas abastecimento para continuar a luta a fim de não ser capturado. 
RIFLE PELO EVANGELHO – Deixou prole e alguns de seus filhos, são de hoje oficiais das nossas forças armadas. Na cadeia dizia haver trocado o rifle pelo evangelho e morreu manso e regenerado. Tornou-se cangaceiro para vingar a morte de seu pai, cujo matador ficara impune e sob a proteção de maiorais políticos. 
Cangaceiros houve no Nordeste, em várias épocas: gente que enfrentava de armas na mão os mandões e até a polícia que lhes dava caça. Não empregavam o chumbo das duas espingardas e garruchas, para o latrocínio, o massacre, o assassínio de populações inermes. Eram, antes de tudo, injustificados que se rebelavam contra a má justiça, que, ainda hoje, gera a revolta das consciências indene a corrupção moral. Há, entretanto, o bandido, ladrão e assassino, que usava e abusava da lei do sertão, para matar friamente, massacrar criaturas indefesas e inocentes, para destruir, roubar e violar mulheres. 
FIGURA DE SALTEADOR – Na fila sinistra desse tipo de bandido, está a figura torva de “Lampião”, – corvo asqueroso e feroz sicário sedento de sangue e salteador. Produto do tempo, que os tuxauas políticos do sertão bravio escoravam o seu poderio eleitoral na força brutal do cangaceiro misturado ao banditismo, pode Virgolino Ferreira, livremente, talar fazendas, povoados, vilas e até cidades. Os seus sequazes, recrutados nas paragens sombrias do Riacho do Navio, Serra Duman, Gruta do Diabo, Vila Bela, porteiras, antros de fanatismo, ignorância e crimes, constituíam a mais terrível malta de salteadores e bandidos. 
Bandido sim, o “Lampião” que hoje serve, o seu nome tenebroso, o seu estendal de crimes, de temas e assuntos para revistas, livros, radio e cinema. “Lampião” da “mulher rendeira”, cantiga que hoje muita gente boa vive a entoar, sem se aperceber de que ela contém o veneno mortal, destilado pela alma danada de um bronco, bruto e feroz que desconhecia as fronteiras da virtude e do mais elementar sentimento de piedade humana. Houve, realmente, de 1912 a 1030, clima propício ao vicejar dessa planta daninha e maldita que foi o banditismo nordestino. 
RAZÕES – As agitações políticas que abalaram os grandes centros do País as suas raízes plantadas no obscuro sertão. Os coronéis e chefetes políticos, de vilas e cidades, cercavam-se de contraventores da lei, a sua brigada de choque e paus para toda obra. Os afamados Contendas, os Dungas, os Zeinácios de Barro, os Maciés e caterva, foram chefes temidos pelo seu poderio nos rifles de assalariados. 
O banditismo oficializado tomou foros de coisas aceita de fato, nos vastos sertões do Nordeste, sendo Juazeiros a Meca das hordas bárbaras que iam receber a bênção do Padrinho Cícero. “Lampião”, ali, invernava com os sequazes, descansando, refazendo-se, e se reabastecendo de armas e munições que lhe eram ofertadas ou vendidas pelos seus agentes e protetores, existentes até nos meios “mantenedores da ordem”. Só depois que “Lampião” assaltou Mossoró e diante do movimento geral de repulsa e repercussão causada pela sinistra aventura, fracassada felizmente, e que se generalizou o combate ao banditismo no Nordeste, numa ação convergente de todos os governos. Uma caça às feras, constantes e sistemáticas foi estabelecida, até que, afinal, o tenente Bezerra deu cabo da vida ao quadrilheiro famoso pelas suas correrias sangrentas através de vasto trato do sertão nordestino. 
PLANO AUDACIOSO – Foi um ambiente favorável ao banditismo que se arquitetou o mais audacioso plano de assalto a uma cidade à margem do litoral potiguar. Muito distante do repelente hinterland onde imperava o trabuco a serviço do latrocínio, do assassino e das ambições criminosas de coronéis boçais e valentões de tocais – tradicional cidade da Libertação de 1883 – mansas, ordeira e pacífica, estava, por uma série de barreiras geográficas e morais, afastada de ser vítima de um assalto. 

Primeiro foi a velha Apodi, um mês antes do tenebroso 13 de junho de 1927. Velhas rixas políticas determinaram a horrível pilhagem de maio, insuflada e dirigida de longe por espúrios elementos sedentos de vinditas, sangue e latrocínio. Incêndios, mortes, roubos, terror foi a colheita rubra de um grupo de bandidos. 
Incentivo e encorajamento a outras empreitadas, foi o resultado do saque de Apodi. “Lampião” distante, foi convidado pelo carbonários desse crime nefando a tentar, em estilo maior, um assalto que o compensaria as canseiras da longa travessia. Dos sertões adustos de Pernambuco e Ceará, às fraldas cinzentas da Serra Mossoró, umas oitenta léguas, o grupo de “Lampião” troteou em boa cavalhada e armado até os dentes, desceu das serras escarpadas à planície verde dos carnaubais e oiticicas seculares, certo de fácil colheita em dinheiro e objetos de custo alto. 
É certo o ditado popular: “o boi manso aperreado arremete” certamente; uma centena de homens valorosos deu, em “Lampião” e em seu grupo de mais de oitenta cabras um carreiro desabalada, deixando mortos e feridos. O quadrilheiro de fama voltou à sua Caverna do Caco, para não mais voltar à boa terra de Poti. Em Limoeiro, no Ceará, foi recebido com farta mesa de boas comidas. Aqui, porém foram-lhe ofertados repastos de chumbo. 
Combatido, em toda a parte, sem tréguas nem estágios, o bandido feroz foi cedendo em audácia e força, como que amaldiçoado pela vítimas inocentes da maior e mais infeliz das suas tropelias, e aventuras sangrentas: o ataque à velha, tradicional, mansa, ordeira e operosa cidade de Santa Luzia de Mossoró. 
40 CABRAS DE LAMPIÃO TOMARAM PARTE NO ASSALTO A MOSSORÓ – José Leite, temível do grupo de Lampião, que no Rio de Janeiro fora ordenança de coronel Antônio Francisco de Carvalho, quando foi capturado, após o ataque frustado à cidade de Mossoró, teve oportunidade de conversar com o delegado de então a narrar certos fatos da vida errante que levava com seus companheiros de aventuras. 
A narrativa do bandoleiro foi, na época, explorada pelos jornalistas do jornal “O Mossoroense”, então órgão semanal, que se ocupou do fato, tecendo comentários sobre o cangaço, que nos serve para evocar certos e determinados aspectos da entrevista de José Leite, conhecido na vida criminosa do cangaço como Jararaca. 
HISTÓRIA – Ele fora ferido quando Lampião e seu grupo tentava tomar de assalto a residência do então prefeito Rodolfo Fernandes. Informou na entrevista que “um tiro desfechado por defensores tocaidos na torre da igreja de São Vicente atingiu meu companheiro Colchete. Corri para ajudá-lo o fui igualmente ferido. A bala atingiu meu pulmão direito. Parei e caí. Fiquei alguns minutos rolando pelo chão e com dificuldade me dirigi para a estação central, onde fui novamente ferido. Com imensa dificuldade, arrastei-me para a ponte ferroviária, onde em seus dormentes fiquei até que fui capturado e levado para a prisão”. 
ESTRATÉGIA – Conta Jararaca que Lampião dividira i bando em dois grupos, a fim de facilitar a tarefa de assalto. Um dos grupos recebia as ordens do próprio Virgolino Ferreira e outro de Massilon Leite. Os que estavam comandados por Lampião atacaram pelo lado do cemitério e cada cangaceiro dispunha de 400 a 500 cartuchos. 
GRUPO – Quando do ataque a Mossoró, ainda conforme narrativa de Jararaca, o bando contava com os seguintes elementos: Sabino, Massilon, Ezequiel, Virgino, Luiz Pedro, Chumbinho, José Delfino, Manuel Antônio, Á de Ouro, Candeeiro, Serra do Mar, Vicente Feliciano, Luiz Sabino, Fortaleza, Moreno, Euclides, Beija-Flor, Quindu, José de Souza, Trovão, Camilo, Bitivi do Cariri, Dois de Ouro, Jurema de Medeiros – pertencentes às famílias dos Nóbregas e Medriros do Sabugi – Paraíba, Sabiá, Pingo de Ouro, José Relâmpago, Vinte e dois e seus irmãos Lua Branca ,Antônio Cacheado, Pernambuco, Chá Preto, Barro Nova, Pai Velho, José Pretinho, Luiz Pedro, Mergulhão, Coqueiro e Vareda. 
REBATE FALSO – Jararaca, que é pernambucano, de Pajeu de Flores, e contava, na época, 26 anos de idade, segundo o relato, não demonstrava arrependimento do que fizera. Explicando por que decidira ser um fora da lei, disse ser “coisa da vida”. Considerava o cangaço coisa ruim e era um dos poucos que evitavam que seus companheiros de crime maltratassem os prisioneiros. 
Preso, com muitos curiosos por perto, tendo alguns mais exaltados, nas imediações da cadeia, ameaçando linchá-lo, o bandoleiro jamais se perturbou e a tudo olhava com um sorriso nos lábios. Após sua condenação, quando narrou os fatos, teve oportunidade de dizer que quando tempos depois, uma volante da polícia militar da Paraíba deu entrada na cidade, trajada à moda dos cangaceiros, houve uma correria geral, pois se pensava ser Lampião que voltava para libertar os prisioneiros e liquidar todos. O fato é que nada disso acontecia, pois o que “Lampião desejava, quando retornava ao local de qualquer massacre, era conseguir dinheiro a fim de subornar a polícia pernambucana”. 
PODER DO DINHEIRO – Contou Jararaca que na Polícia Militar da Paraíba existia um sangrento, o Kelê, que usava cabelos longos, como promessa que fizera de vingar um seu irmão, que fora assassinado por Lampião, quando ambos viviam no cangaço. Kelé, ex-cangaceiro, pertencente ao grupo de Jararaca, passara para a vida militar por dinheiro, pois o Governo da Paraíba esquecera seus crimes, lhe oferecendo o posto de sargento e a direção de uma “volante” para dizimar os bandidos.
CANGACEIRO: FRUTO DA FALTA DE
JUSTIÇA QUE IMPERAVA NO SÉCULO
PASSADO NO SERTÃO NORDESTINO

Reportag...



quarta-feira, 14 de junho de 2017


GUARAPES 2017: AUDIÊNCIAS PÚBLICAS!

Valério Mesquita*

O ponto alto das comemorações dos 140 anos da emancipação política e administrativa de Macaíba será o aniversário de 208 anos de nascimento do seu fundador Fabrício Gomes Pedroza, cujas cinzas foram trasladadas do Rio de Janeiro para a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição. O vinte e sete de outubro de 1877, pela lei nº 801, Macaíba – que antes se chamava Coité – desmembrou-se de São Gonçalo. Aí amplia-se o período de esplendor comercial do porto de Guarapes que irradiou energia econômica a todos os quadrantes. Monopolizou o sal para o sertão, incentivou a indústria açucareira do vale do Ceará-Mirim, financiou a produção adquirindo as safras das fazendas de algodão, cereais, couros e peles. Fundou a “Casa dos Guarapes” e do alto da colina comandou o seu mundo de transbordamentos, onde tudo era rumor, vida, agitação, atividade.
É nesse vácuo de duzentos anos que reside a minha perplexidade. Um silêncio dominado pelo abandono e a indiferença. Ninguém coloca em cena a coragem de contemplar restituído o universo oculto de Fabrício que fez brilhar o nome de Macaíba dentro e fora do Rio Grande do Norte, na segunda metade do século dezenove. Não bastam, apenas, reprisá-lo com lendas e narrativas, como tivesse sido um mundo de ficção. Melhor que a dispersão da palavra solta é ouvir o eco de suas paredes reerguidas, das vozes trazidas pelo vento das vidas que não se pulverizaram mas renasceram pelas mãos das novas gerações. Esse universo semidesaparecido, clamo por ele, aqui e agora, afirmando que a melhor imagem de um homem, após a morte, não são as cinzas, mas a obra (casarão dos Guarapes) que legou à posteridade, revivida e restaurada como reconfortante e fiel fotografia de sua história e vida. Audiência pública urgente! Na Assembleia Legislativa e na Câmara de Macaíba.
Como guerreiro solitário, luto há mais de quinze anos pela restauração dos escombros do empório dos Guarapes. Como membro, àquela época, do Conselho Estadual de Cultura do Estado, consegui o tombamento. De imediato, no desempenho do mandato parlamentar obtive do governo a desapropriação da área adjacente. Batalhei, em alto e bom som, junto aos gestores públicos a elaboração do projeto arquitetônico, que, até hoje, dormita em armário sonolento da burocracia. Foi uma agitação, apenas, que não se moveu nem comoveu. Saí dos movimentos da superfície oficial, para as janelas da imprensa e outras vozes, em coro uníssono, oraram comigo pelas ruínas da mais reluzente história da economia do Rio Grande do Norte: os Guarapes. Todo esse conjunto de verdades fixas foi ilusão imaginar que a lucidez jamais se disfarçaria em surdez. Como enfrentei e venci no passado, partindo de perspectivas débeis e precárias, óbices quase intransponíveis para a restauração das ruínas do Solar do Ferreiro Torto e da Capela de Cunhaú, sinto que não perdi os laços entre a fragmentação do sonho e a fé incondicional no meu pragmatismo, de que tudo, até aqui, nada foi em vão. Audiência pública urgente! Na Assembleia Legislativa e na Câmara de Macaíba.
Reproduzir a realidade, tal que se imagina que fosse, o burburinho comercial e empresarial daquele tempo de Fabrício, faz-nos refletir e aprender para ensinar aos jovens de hoje através de exemplos, imagens e ritmos, a saga de que vultos como o dele iniciaram uma figuração, nova, nítida e luminosa, pouco tempo depois, numa Macaíba que começava a nascer com Auta de Souza, Henrique Castriciano, Tavares de Lyra, Augusto Severo, Alberto Maranhão, João Chaves, Octacílio Alecrim e outros que construíram em modelos de vidas o prestigio da terra natal – que não se evapora, nem se desmancha. Essa realidade para mim é tensa e inquieta, porque cabe hoje revivê-la em todos nós. É imperioso que os nossos governantes tracem esboços para uma saída, uma superação, criando-se fendas e passagens, para juntos, todos, respirarmos o oxigênio da convivência com os nossos antepassados. Se todos nós pensarmos assim, com cada palavra significando labareda, lampejo, no centésimo quadragésimo aniversário, derrubem, pois, os obstáculos que impedem as luzes do empório dos Guarapes refletirem sobre a posteridade. Se assim não agirmos tudo será cinzas.
Audiência pública urgente! Na Assembleia Legislativa e na Câmara de Macaíba.

(*) Escritor.

terça-feira, 13 de junho de 2017

UMA NOITE INESQUECÍVEL


       A Solenidade realizada ontem na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, pode ser considerada inesquecível, mercê de haver guardado um cerimonial elogiável, distribuído em quadros marcantes.
       O evento foi patrocinado por três entidades - a ANRL, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e a Academia de Letras Jurídicas do RN - ALEJURN, representado pelo Acadêmico Lúcio Teixeira dos Santos.
Inicialmente o Acadêmico Diogenes da Cunha Lima abriu a solenidade cumprimentando os presentes e as Instituições, dentre as quais a Maçonaria, que teve papel preponderante na luta nacionalista na Revolução Pernambucana de 1817. 
       Em seguida houve uma encenação emocionante de estudantes do Grupo de alunos do Cenep-Centro Estadual de Educação Profissional Senador Jessé Freire, por gentileza da Professora Isaura Rosado que diante do quatro de Parreiras encenaram a prisão e o julgamento do Padre Miguelinho, o grande homenageado da noite, nos seus 200 anos de morte (12 de junho de 1817), grupo muito aplaudido e elogiado.
              Composta a Mesa dos Trabalhos com os representantes da Instituições Patrocinadoras - Cláudio Emerenciano, pela ANRL, sendo inclusive o ocupante da cadeira n° 1  em que é Patrono Padre Miguelinho, seguido do Acadêmico e Jornalista Vicente Serejo, pela ANRL que revelou aspectos históricos da vida do homenageado, calçado em opiniões de escritores potiguares reveladoras de verdades das ocorrências, tendo em Edgard Ramalho Dantas o terceiro orador, que exaltou a obra do seu avô Manoel Dantas, com novas revelações contundentes e, encerrado a solenidade, a fala abalizada do Acadêmico Jurandyr Navarro, num discurso intimista do grande Herói e Mártir, estes últimos representando o IHGRN.

           Foi realmente uma noite esplendorosa para o resgate de uma história imorredoura, que enriquece a história do Rio Grande do Norte e consagra definitivamente o nosso maior herói, o Frei e posteriormente Padre secular Miguel Joaquim de Almeida e Castro (Padre Miguelinho).
A COMUNIDADE POTIGUAR AGRADECE TÃO MEMORÁVEL SOLENIDADE.

Casa do Mestre Cascudo

13/06/2017



texto Gustavo Sobral e ilustração Arthur Seabra

Um canto de muro esconde muito coisa que só ele revela. Num canto de muro habitam insetos, saltam pássaros, andam formigas, caem goteiras, crescem ervas daninhas, passeiam e sonham meninos. Um canto de muro feito assim vira literatura nas mãos de um Cascudo amigo que pela janela do seu sobrado colecionava os fins de tarde do rio Potengi.

Casa na avenida com nome do dono, Câmara Cascudo, subida da Ribeira para a Cidade Alta, Natal/RN. Na porta de entrada, a segurança necessária: um cangaceiro pintado pelo artista completo de todos, e amigo, Dorian Gray Caldas. Transposta a segurança, a escadaria leva ao alpendre que ali toma nome de vento e sossego de um chão desenhado de mosaico.

Na sala de entrada, retratos. Foto do zepelim, que sobrevoou a cidade dos anos 1900 e jogou flores ao aeronauta Augusto Severo, e de Villa Lobos, que oferece uma testa larga para um Cascudo amigo. E depois, na casa, as paredes pintadas com as assinaturas de quem entrou porta adentro e viu e viveu o mestre quando conversava no balanço da cadeira e baforava a lentidão no charuto.

A máquina de escrever descansa mais de cento e sessenta livros e plaquetes escritos e publicados sobre tudo, desde história, folclore, alimentação a cultura, tanto que teve de virar livro, trabalho de toda hora e de todo tempo para escrever sobre todas as coisas numa disciplina da madrugada de leitura e redação que o aviso na porta advertia: o mestre Cascudo só atende à tarde, que pela manhã dorme e à noite escreve.


O endereço ficou marcado para que não se perdesse, recebendo o seu nome, então a casa antiga ficou pertencendo à rua do dono, Avenida Câmara Cascudo, 377. Dizem que sua forma é chalé, a que gosto de época não se sabe, mas suas obras findaram em 1900, até ser comprada pelo sogro de Cascudo em 1910, e depois por ele, em 1947. Os pedacinhos da casa estão nas páginas dos seus livros, porque foi naquele chão e embaixo daquele teto que livros e mais livros, e muita história com sabor de quem conta, saíram por aí pelas páginas, provocando o encanto da descoberta de ler o que Cascudo conta.

domingo, 11 de junho de 2017

   
Tomislav R. Femenick

 
Biografia de um Monumento Humano

(Prefácio do Padre Sátiro Cavalcanti Dantas, ao livro "Padre Mota", de autoria de Tomislav R. Femenick). 

Há poucos dias, o menino do “Colégio Santa Luzia” que, aliás, nunca foi menino por causa de suas aparências intelectuais e presença para coisas sérias, o hoje escritor Tomislav Rodrigues Femenick, telefonou premiando-me com o convite para prefaciar o livro que acabara de escrever sobre Monsenhor Motta, seu tio e mestre de infância. Por sinal, este jovem estudante, nas décadas de cinqüenta e sessenta, convivia no casarão da Rua 30 de Setembro sob os cuidados e carinho do velho amigo Zé Rodrigues, seu avô. Cabia ao patriarca da família, apesar da mãe e do padrasto responderem pelo estudante na vida colegial. Acontecendo estar o jovem afastado da sala de aulas por falta do uso da farda, o velho amigo escreveu-me um bilhete: “Padre Sátiro, quem assiste às aulas é o menino ou a sua farda?”. Realmente, esse aspecto carece de aprofundamento pedagógico, penso hoje, com a experiência de tantos anos de ensino. 

Hoje, os livros de Tomislav são usados por importantes universidades brasileiras e, também, estão nas prateleiras das bibliotecas das mais importantes instituições de ensino da América do Norte e da Europa. Suas obras estão em Harvard, Princeton, Stanford, Brown University, Illinois University e na Universidade de Coimbra. 

Feita esta tal observação sobre o autor do livro a ser lançado, comento não em forma de Prefácio, na forma tradicional como introdução sobre a obra escrita, mas “currente calamo”, aplaudindo essa justa oportunidade, tão merecida ao retratado na obra. 

O autor já deu sinal sobre o conteúdo pesquisado em artigos recentes, editados na imprensa. Baseado no artigo Palavra “Os Motas” – etimologia incerta, contudo passando pelo Provençal e principalmente pelo italiano “Motta”, francês “Motte” –, apego-me à ortografia empregada pelo ilustre escritor Monsenhor Francisco de Sales Cavalcanti, na obra Monsenhor Luiz Motta, traços biográficos, com dois “t”. Ainda mais. Relaciono esta grafia ao interesse do então prefeito Padre Motta, marginando o rio Mossoró, flanco esquerdo, erigindo uma balaustrada com 643 metros de extensão, dotando-as de 41 postes de cimento armado, com instalação elétrica subterrânea. Verdadeira represa ou aterro, justificando, portanto, o seu sobrenome “Motta”. 

Os estudiosos, principalmente os da nova geração universitária, encontrarão, na obra, dados referentes às ações do padre, do prefeito e do cidadão mossoroense que, por assim dizer, deu o pontapé inicial de obras e projetos aperfeiçoados pelas administrações posteriores, mesmo numa em época em que as campanhas políticas não permitiam a estabilidade necessária para vôos mais altos. Mesmo em pequenas atividades, encontramos a presença do ilustre prefeito, à execução de tantos melhoramentos em prol da população. 

Hoje, falamos em bolsa família, programa do leite, cidadania, instrução pública, projetos estes, a sua maneira, presentes no Lactário mantido pela Prefeitura em uma casa doada pela Diocese, nas praças e jardins, no serviço de limpeza pública, no calçamento regular das ruas e praças, nas 12 escolas municipais. Tudo isso já pesquisado em livros e citações de autores potiguares. 

Sua vocação sacerdotal foi tardia, pois antes desejava estudar Agronomia. O escritor Raimundo Nonato viu nesse fato um segredo não revelado pelo sacerdote. Padre Motta foi um sacerdote que soube muito bem exercer o seu sacerdócio como Vigário, Cura e Pároco da Freguesia de Santa Luzia, posteriormente catedral da Diocese, passando logo, quando voltou de Roma, como capelão de São Vicente. 

Como político, como prefeito, não trouxe constrangimento aos seus bispos, sendo escolhido pelo próprio Dom Marcolino Dantas como o presidente da comissão na criação da Diocese de Mossoró. Ao primeiro pedido do nosso segundo Bispo, Dom João Costa, pelo qual mantinha carinhoso afeto e admiração, em 1945 renunciou o cargo de prefeito, para o qual tinha sido eleito e mantido pelo governo estadual após o Golpe de 1937. 

Passou ao seu sobrinho, Mota Neto, líder em ascensão, seu prestígio político, ao fundar com os líderes potiguares, Monsenhor Walfredo, Georgino Avelino, Teodorico Bezerra, Israel Nunes e tantos outros, o Partido Social Democrático–PSD, enfrentando, em Mossoró, as assim chamadas forças econômicas da época, Rosados, Alfredo Fernandes, Tertuliano Fernandes e família Duarte, todos alinhados na União Democrática Nacional–UDN. Desta forma, renovou o poder político em Mossoró, obtendo, na eleição da redemocratização de 1946, com o general Eurico Gaspar Dutra, uma maioria de 800 votos, coisa admirável na época, e fazendo Mota Neto deputado federal. Depois dessa época, Monsenhor Motta ausentou-se abertamente da política do Estado. 

Homem de tino administrativo, dizia o nosso Bispo Dom Costa. Consultar Padre Motta era ter certeza de uma resposta certa, prudente e eclesial. Gozava de estima e respeito entre os irmãos sacerdotes, sendo escolhido por três vezes vigário geral pelos seus bispos diocesanos, e eleito vigário capitular com a sede vacante, no interregno da sucessão de Dom Costa e Dom Eliseu. 

Com a transferência de Dom Jaime para Belém do Pará, sendo Padre Motta prefeito, na política interna diocesana estava em vista o Cônego Jorge O’grady, então diretor do Colégio Diocesano, para eleição do vigário capitular, Monsenhor Motta liderou a campanha “queremos Julinho”, elegendo-o para o cargo. “Julinho” era Monsenhor Júlio Bezerra, vigário em Açu, vindo, posteriormente, morar em Mossoró. 

Por causa do seu espírito alegre, mesmo as coisas sérias Monsenhor Motta realizava sempre com certo tom de jocosidade. Eis aí porque a campanha do “queremos Julinho”. Aliás, as anotações do jornalista Lauro Escóssia, em Anedotas do Padre Mota, retratam com muito humor vários relatos jocosos e até picantes na vida do Padre. 

Voltando de Roma, após sua ordenação sacerdotal, seu estudo superior, fixou-se em Mossoró, cuja história de 1922 até o fim de sua vida, marcou presença ativa na administração do Município e nas atividades religiosas, cargos que exercia com muito amor e zelo sacerdotal. Ninguém poderá apagar essa presença efetiva em obras, como o calçamento da cidade, ponte Jerônimo Rosado, plantação de “fícus benjamins”, limpeza pública, registro das carroças e até mesmo dos “cabeceiros” (os assim chamados chapeados), praças, mercado central, Banda de Música, serviço de som a “Amplificadora Mossoroense”, estradas intermunicipais, subvenções para escolas particulares, para o Hospital de Caridade entre tantos outros empreendimentos. Infelizmente, o Município “homenageou” a sua memória apenas com a Praça Monsenhor Motta, aquela pobreza das Caixas D’água, em frente ao atual Seminário Santa Teresinha, e a Escola Municipal “Monsenhor Mota”, localizada na rua Monsenhor Gurgel, no Bairro Abolição. 

Afirmo, com repúdio, que este verdadeiro monumento humano mossoroense que foi Padre Motta, pedra fundamental da modernidade municipal, mereceria homenagens mais expressivas, que retratassem fielmente o seu trabalho por essa terra. Com justiça, escreveu nosso historiador maior Câmara Cascudo: “Tua história é o teu grande trabalho, tua fé incontida no futuro do teu povo, tua esperança, tua teimosia em realizar certo que a razão cobrirá de argumentos o sonho que erguestes em pedras, cimento e amor”. 

As mensagens fúnebres enviadas à Diocese de Santa Luzia de Mossoró, por ocasião do seu falecimento – por autoridades e pessoas amigas, desde o Núncio Apostólico D. Sebastião Baggio e, inclusive, instituições nacionais e estaduais – e a multidão de pessoas presentes no Cemitério São Sebastião, comprovam o valor da vida desse grande sacerdote e cidadão mossoroense. 

Diante dessa grandeza, a inteligência brilhante do, então, prefeito municipal, Dr. Raimundo Soares de Sousa, à beira do túmulo do Monsenhor Motta, registrou a figura do Padre Motta na mais bela página da antologia potiguar. Numa conclusão saudosa e maravilhosa: “Adeus, Padre Motta, porque se o céu é o prêmio dos justos, tu foste justo; se é o prêmio dos bons, tu foste bom; se é o prêmio dos puros, tu foste puro, tu foste humilde, tu foste simples. Assim seja! Adeus, Padre Motta, sem lágrimas, sem desespero, sem desgraça! Mas com muita saudade, com infinita tristeza! Adeus!”. 

Mossoró, 25 de fevereiro de 2007

sábado, 10 de junho de 2017

AINDA AS HOMENAGENS DO IHGRN



07/06/2017 17:13:23: Ormuz Barbalho Simonetti e Armando Roberto Holanda Leite entregam os Títulos de SÓCIO BENEMÉRITO do IHGRN ao Diretor Geral da INTERTV CABUGI, Senhor Dirceu Simabucuru e a Diretora Comercial Priscilla Simonetti, parceiros de nossa Instituição.


PARABÉNS.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

UMA NOITE DE ALEGRIA




Foi indiscutivelmente uma noite de alegria - O Instituto Histórico e Geográfico reabre as suas portas para os seus associados e para o público.



Contando com as bençãos da Igreja, através do associado e amigo, Padre Bianor Júnior, tem início a solenidade oficial comandada pelo Presidente Ormuz Barbalho Simonetti


Discurso do Presidente Ormuz Simonetti para uma platéia atenta.



Várias autoridades prestigiaram o Evento - Juiz Federal Ivan Lira de Carvalho, representando o Poder Judiciário, Deputado Hermano Morais, representando o Poder Legislativo Estadual, Iaperi Araújo, Presidente do Conselho de Cultura, os Eminentes Presidentes Honorários Jurandyr Navarro da Costa e Valério Alfredo Mesquita, Lúcio Teixeira dos Santos, Presidente da Academia de Letras Jurídicas do Rio Grande do Norte, Vereadoras Eleika Bezerra, Júlia Arruda e Nina Souza. Também compareceram os integrantes da Diretoria.


Após a execução do Hino Nacional Brasileiro, pela Banda de Música da Gloriosa Polícia Militar do Estrado, o Presidente Ormuz fez o discurso oficial da solenidade e, em seguida, registrou a outorga de títulos de Sócios Beneméritos aos jornalistas  Dirceu Simabucuru e Priscilla Simonetti, entregues na Intertv e os títulos de Amigo do IHGRN ao Deputado Hermano Morais, Vereadoras Eleika Bezerra, Júlia Arruda e Nina Souza.


Inaugurada a Exposição "Presença Viva de Dorian Gray Caldas", com o descerramento de faixa pelo Presidente Ormuz e o Presidente do Conselho de Cultura Iaperi Araújo, na ocasião também representando Dione Caldas, filha e curadora da exposição do acervo do imortal artista. Na sequência convidou os presentes para constatarem as melhorias realizadas no prédio.

                          



Terminada a solenidade, os presentes se dirigiram ao Largo Vicente de Lemos para uma confraternização e audição de artistas locais.



 PARABÉNS.
Fotos: Lívio Oliveira
Cerimonial: Carlos de Miranda Gomes

quinta-feira, 8 de junho de 2017

H O J E


ALDO DA FONSECA TINOCO

Valério Mesquita

Relembro a figura desse sãogonçalense/macaibense nascido em julho de 1926. Falecido em abril passado, Aldo viveu as descobertas sucessivas das terras em que viveu, nas paisagens do tempo e no mistério das claridades e sombras exteriores. Prestativo e atencioso, agia assim para viver mais intensamente, como se sonhar fosse o único bem que a gente obtém gratuitamente.  Era dentista, advogado, professor da UFRN e titular da USP, onde fez mestrado em planejamento e prática de saúde, além de doutorado e pós-doutorado. E nos voos de longo curso, obteve o brevê de aviação. Como político não cortejou a popularidade. Elegeu-se vice-prefeito de Macaíba em 1953, na chapa com o médico José Jorge Maciel e chegou a titularidade  quando Maciel foi ser secretário de saúde do então governo de Dinarte Mariz, após 1956.
Nesse ofício, Aldo gostava de se portar com firmeza e idealismo. Participou da vida pública sem dela nunca haver tirado proveito próprio ou se conspurcado. Era autêntico e personalíssimo. Não corrompeu  ninguém e nem se deixou corromper pela lisonja ou pela erosiva ação de adjetivos laudatórios.  Conheci-o lá em Macaíba quando instalou o seu consultório odontológico na rua João Pessoa, perto da ponte. Fui seu cliente e por ele “torturado” pelo “mortozinho” removedor de cáries e de obturações. E como sofri, apesar dele ser amigo pessoal e político de seu Mesquita.
Aldo da Fonseca Tinoco foi um homem plural. Além de haver exercido os mandatos de deputado estadual e federal, posteriormente, destacou-se como líder atuante nas hostes do Partido Social Progressista presidido por João Café Filho e depois militou no PTB, ao lado de Clóvis Mota, João Goulart e Leonel Brizola. Nos idos de março (1964), Aldo foi perseguido e detido pelos agentes da revolução, sem jamais haver abjurado as suas crenças políticas. Com a redemocratização do país, em meados da década de 1980, ingressou no Partido Democrático Trabalhista (PDT), sendo candidato ao governo do Rio Grande do Norte, disputando o cargo com Geraldo Melo (PMDB) e João Faustino pelo PFL.
Aldo esteve preso por quatro meses em Natal durante o movimento de 64. Foi transferido, juntamente com o ex-deputado Floriano Bezerra, Djalma Maranhão e Luis Maranhão Filho, para Fernando de Noronha, mesmo com um harbeas-corpus já concedido pela justiça militar. Na ilha ficou detido por mais de trinta dias. Todavia, tratado com respeito. Saiu da prisão de Fernando de Noronha, com a chegada do general Ernesto Geisel, então chefe da Casa Civil da presidência da República, que fora verificar a situação dos presos políticos. Aldo e o governador de Pernambuco Miguel Arraes seguiram viagem, posteriormente, para Recife no mesmo avião com o general.
Posto em liberdade, em vez de retornar a Natal seguiu para o Rio de Janeiro e depois São Paulo, onde as portas da USP se abriram e lhe permitiram levar a esposa e os filhos, que tiveram toda a sua formação instrucional em escolas e universidades paulistas.
A fazenda “Milharada” em São Gonçalo do Amarante era  o seu paraíso. Nesse eldorado além de criar gado e caprinos, produziu coco, cana de açúcar, caju e graviola. Mas não fica aí, a sua visão e criatividade. Introduziu a fabricação de mel de abelha, rapadura, mel de engenho, farinha de milho e cajuína. Reflete-se nesse elenco de atividades a sua dimensão humana, simples, voltada ao cultivo da terra, como exemplo significativo de autêntica nordestinidade. Do casamento com dona Martha Bezerra de Melo Tinoco, nasceram Eleonora, Rômulo, Aldo Filho, Petrônio, Marcelo e Leonardo. Aldo deixou netos e bisnetos. Nesse espaço em que se relembra o seu exemplo, constato que morreu em paz. Teve existência longeva entre nós e como paradigma legou a sua vida de possibilidades e descobertas.

(*) Escritor.