domingo, 11 de junho de 2017

   
Tomislav R. Femenick

 
Biografia de um Monumento Humano

(Prefácio do Padre Sátiro Cavalcanti Dantas, ao livro "Padre Mota", de autoria de Tomislav R. Femenick). 

Há poucos dias, o menino do “Colégio Santa Luzia” que, aliás, nunca foi menino por causa de suas aparências intelectuais e presença para coisas sérias, o hoje escritor Tomislav Rodrigues Femenick, telefonou premiando-me com o convite para prefaciar o livro que acabara de escrever sobre Monsenhor Motta, seu tio e mestre de infância. Por sinal, este jovem estudante, nas décadas de cinqüenta e sessenta, convivia no casarão da Rua 30 de Setembro sob os cuidados e carinho do velho amigo Zé Rodrigues, seu avô. Cabia ao patriarca da família, apesar da mãe e do padrasto responderem pelo estudante na vida colegial. Acontecendo estar o jovem afastado da sala de aulas por falta do uso da farda, o velho amigo escreveu-me um bilhete: “Padre Sátiro, quem assiste às aulas é o menino ou a sua farda?”. Realmente, esse aspecto carece de aprofundamento pedagógico, penso hoje, com a experiência de tantos anos de ensino. 

Hoje, os livros de Tomislav são usados por importantes universidades brasileiras e, também, estão nas prateleiras das bibliotecas das mais importantes instituições de ensino da América do Norte e da Europa. Suas obras estão em Harvard, Princeton, Stanford, Brown University, Illinois University e na Universidade de Coimbra. 

Feita esta tal observação sobre o autor do livro a ser lançado, comento não em forma de Prefácio, na forma tradicional como introdução sobre a obra escrita, mas “currente calamo”, aplaudindo essa justa oportunidade, tão merecida ao retratado na obra. 

O autor já deu sinal sobre o conteúdo pesquisado em artigos recentes, editados na imprensa. Baseado no artigo Palavra “Os Motas” – etimologia incerta, contudo passando pelo Provençal e principalmente pelo italiano “Motta”, francês “Motte” –, apego-me à ortografia empregada pelo ilustre escritor Monsenhor Francisco de Sales Cavalcanti, na obra Monsenhor Luiz Motta, traços biográficos, com dois “t”. Ainda mais. Relaciono esta grafia ao interesse do então prefeito Padre Motta, marginando o rio Mossoró, flanco esquerdo, erigindo uma balaustrada com 643 metros de extensão, dotando-as de 41 postes de cimento armado, com instalação elétrica subterrânea. Verdadeira represa ou aterro, justificando, portanto, o seu sobrenome “Motta”. 

Os estudiosos, principalmente os da nova geração universitária, encontrarão, na obra, dados referentes às ações do padre, do prefeito e do cidadão mossoroense que, por assim dizer, deu o pontapé inicial de obras e projetos aperfeiçoados pelas administrações posteriores, mesmo numa em época em que as campanhas políticas não permitiam a estabilidade necessária para vôos mais altos. Mesmo em pequenas atividades, encontramos a presença do ilustre prefeito, à execução de tantos melhoramentos em prol da população. 

Hoje, falamos em bolsa família, programa do leite, cidadania, instrução pública, projetos estes, a sua maneira, presentes no Lactário mantido pela Prefeitura em uma casa doada pela Diocese, nas praças e jardins, no serviço de limpeza pública, no calçamento regular das ruas e praças, nas 12 escolas municipais. Tudo isso já pesquisado em livros e citações de autores potiguares. 

Sua vocação sacerdotal foi tardia, pois antes desejava estudar Agronomia. O escritor Raimundo Nonato viu nesse fato um segredo não revelado pelo sacerdote. Padre Motta foi um sacerdote que soube muito bem exercer o seu sacerdócio como Vigário, Cura e Pároco da Freguesia de Santa Luzia, posteriormente catedral da Diocese, passando logo, quando voltou de Roma, como capelão de São Vicente. 

Como político, como prefeito, não trouxe constrangimento aos seus bispos, sendo escolhido pelo próprio Dom Marcolino Dantas como o presidente da comissão na criação da Diocese de Mossoró. Ao primeiro pedido do nosso segundo Bispo, Dom João Costa, pelo qual mantinha carinhoso afeto e admiração, em 1945 renunciou o cargo de prefeito, para o qual tinha sido eleito e mantido pelo governo estadual após o Golpe de 1937. 

Passou ao seu sobrinho, Mota Neto, líder em ascensão, seu prestígio político, ao fundar com os líderes potiguares, Monsenhor Walfredo, Georgino Avelino, Teodorico Bezerra, Israel Nunes e tantos outros, o Partido Social Democrático–PSD, enfrentando, em Mossoró, as assim chamadas forças econômicas da época, Rosados, Alfredo Fernandes, Tertuliano Fernandes e família Duarte, todos alinhados na União Democrática Nacional–UDN. Desta forma, renovou o poder político em Mossoró, obtendo, na eleição da redemocratização de 1946, com o general Eurico Gaspar Dutra, uma maioria de 800 votos, coisa admirável na época, e fazendo Mota Neto deputado federal. Depois dessa época, Monsenhor Motta ausentou-se abertamente da política do Estado. 

Homem de tino administrativo, dizia o nosso Bispo Dom Costa. Consultar Padre Motta era ter certeza de uma resposta certa, prudente e eclesial. Gozava de estima e respeito entre os irmãos sacerdotes, sendo escolhido por três vezes vigário geral pelos seus bispos diocesanos, e eleito vigário capitular com a sede vacante, no interregno da sucessão de Dom Costa e Dom Eliseu. 

Com a transferência de Dom Jaime para Belém do Pará, sendo Padre Motta prefeito, na política interna diocesana estava em vista o Cônego Jorge O’grady, então diretor do Colégio Diocesano, para eleição do vigário capitular, Monsenhor Motta liderou a campanha “queremos Julinho”, elegendo-o para o cargo. “Julinho” era Monsenhor Júlio Bezerra, vigário em Açu, vindo, posteriormente, morar em Mossoró. 

Por causa do seu espírito alegre, mesmo as coisas sérias Monsenhor Motta realizava sempre com certo tom de jocosidade. Eis aí porque a campanha do “queremos Julinho”. Aliás, as anotações do jornalista Lauro Escóssia, em Anedotas do Padre Mota, retratam com muito humor vários relatos jocosos e até picantes na vida do Padre. 

Voltando de Roma, após sua ordenação sacerdotal, seu estudo superior, fixou-se em Mossoró, cuja história de 1922 até o fim de sua vida, marcou presença ativa na administração do Município e nas atividades religiosas, cargos que exercia com muito amor e zelo sacerdotal. Ninguém poderá apagar essa presença efetiva em obras, como o calçamento da cidade, ponte Jerônimo Rosado, plantação de “fícus benjamins”, limpeza pública, registro das carroças e até mesmo dos “cabeceiros” (os assim chamados chapeados), praças, mercado central, Banda de Música, serviço de som a “Amplificadora Mossoroense”, estradas intermunicipais, subvenções para escolas particulares, para o Hospital de Caridade entre tantos outros empreendimentos. Infelizmente, o Município “homenageou” a sua memória apenas com a Praça Monsenhor Motta, aquela pobreza das Caixas D’água, em frente ao atual Seminário Santa Teresinha, e a Escola Municipal “Monsenhor Mota”, localizada na rua Monsenhor Gurgel, no Bairro Abolição. 

Afirmo, com repúdio, que este verdadeiro monumento humano mossoroense que foi Padre Motta, pedra fundamental da modernidade municipal, mereceria homenagens mais expressivas, que retratassem fielmente o seu trabalho por essa terra. Com justiça, escreveu nosso historiador maior Câmara Cascudo: “Tua história é o teu grande trabalho, tua fé incontida no futuro do teu povo, tua esperança, tua teimosia em realizar certo que a razão cobrirá de argumentos o sonho que erguestes em pedras, cimento e amor”. 

As mensagens fúnebres enviadas à Diocese de Santa Luzia de Mossoró, por ocasião do seu falecimento – por autoridades e pessoas amigas, desde o Núncio Apostólico D. Sebastião Baggio e, inclusive, instituições nacionais e estaduais – e a multidão de pessoas presentes no Cemitério São Sebastião, comprovam o valor da vida desse grande sacerdote e cidadão mossoroense. 

Diante dessa grandeza, a inteligência brilhante do, então, prefeito municipal, Dr. Raimundo Soares de Sousa, à beira do túmulo do Monsenhor Motta, registrou a figura do Padre Motta na mais bela página da antologia potiguar. Numa conclusão saudosa e maravilhosa: “Adeus, Padre Motta, porque se o céu é o prêmio dos justos, tu foste justo; se é o prêmio dos bons, tu foste bom; se é o prêmio dos puros, tu foste puro, tu foste humilde, tu foste simples. Assim seja! Adeus, Padre Motta, sem lágrimas, sem desespero, sem desgraça! Mas com muita saudade, com infinita tristeza! Adeus!”. 

Mossoró, 25 de fevereiro de 2007

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